quinta-feira, 30 de junho de 2011

O Incrível Exército de Brancaleone: uma comédia sobre a Idade Média




O filme italiano O Incrível Exército de Brancaleone (no idioma original, L'armata Brancaleone), dirigido por Mario Monicelli (morto ano passado), com Vittorio Gassman e Gian Maria Volonté no elenco, se passa na Idade Média tratando de desconstruir uma espécie de “lenda dourada” sobre o período. Ao contrário de outras obras que nos trazem reis, rainhas e castelos, a riqueza e a opulência, esta comédia busca demonstrar os miseráveis desse período. O filme conta a história de Brancaleone da Nórcia, um cavaleiro fracassado, que em busca de um feudo lidera um grupo de maltrapilhos e famintos. A história se passa em meados do século XIV, durante a chamada Baixa Idade Média.
O "Exército" de Brancaleone
 
Tratando com comicidade a visão de uma “Idade das Trevas”, O Incrível Exército de Brancaleone apresenta diversos aspectos do período medieval. Compreendendo desde já que o filme não tem o mesmo compromisso com a História, que o historiador, é importante ver a forma de como os filmes representam o passado, os elementos que eles têm para uma abordagem da História.
Vejamos abaixo alguns pontos interessantes que a comédia italiana expõe para o público:

Feudalismo: Em primeiro lugar é importante entender a sociedade medieval. Em termos gerais, costumamos dividi-la em três ordens, cada uma com uma função bem definida: o clero, que reza; os nobres, que lutam e os servos, que trabalham. Como sinônimo de nobres podemos entender cavaleiros. O termo feudalismo abrange-se um fenômeno ocorrido entre os séculos X e XIV. Foi uma relação entre os membros das camadas dominantes, que compreendia o senhor e o vassalo, no qual o primeiro cedia um feudo ao segundo e este ficava na obrigação de prestar serviços ao senhor. Ambos eram nobres.
No século XIV começa a decadência do sistema feudal, quando a moeda desvaloriza e a quantidade de despesas aumenta. Isso gerou um empobrecimento de vários como é o caso do “herói” do filme, Brancaleone.

Miséria e fome:
O homem medieval viveu no limite. Sua produção era apenas para a subsistência, a economia medieval era agrária, fornecendo o necessário para viver. Isto aliado a uma pobreza técnica e uma estrutura social que não previa nenhum tipo de crescimento econômico gerava grande escassez de alimentos.
O homem medieval conviveu com a miséria e com a fome. Além disso, entre os séculos XIII e XIV, uma grave crise abateu a agricultura. Por isso, os três homens e o menino que seguem Brancaleone desde o início do filme são famintos e maltrapilhos. As doenças que afligiam este mundo são decorrência da carência de alimentos.

A Peste:
Brancaleone e seu “exército” entram numa cidade assolada pela Peste Negra. Esta foi apenas uma das enfermidades que atacaram o mundo europeu durante a Idade Média. A mortalidade dessas doenças não atingia somente os miseráveis, até membros de famílias reais sofriam destes males.
A Peste Negra que teve seu início em 1348 apenas aumentou a crise europeia do século XIV, intensificando a mortalidade causada pela fome.

Cidades:
As cidades medievais crescem na Baixa Idade Média, e por mais estranho que possa parecer, concomitantemente ao feudalismo. A vida nas cidades era semi-rural, suas muralhas abrigavam vinhas, jardins, campos, gado. Por isso que no pergaminho que entregava o feudo ao seu portador, estava garantida a posse da cidade e de seus campos.

Religião:
Quando falo de religião na Idade Média me refiro ao cristianismo. Por ser ligada ao poder, a Igreja vai tentar balizar toda a vida humana nesse período. Claro que sua força econômica vai possibilitá-la realizar investimentos, sobretudo na construção de templos. Contudo, por muito tempo, o cristianismo vai estar em uma luta encarniçada contra o paganismo. Durante boa parte da Idade Média foi difícil para a Igreja controlar os homens, ao contrário do que se possa imaginar.
A principal ferramenta da Igreja no período medieval foi o medo, criado pela imagem do Inferno. Por isso, a preocupação dos homens no filme em seguir o monge: era importante ser obediente e temente a Deus. O monge ser retratado como um pregador peregrino também é muito interessante. Fazia parte do próprio espírito da religião cristã em termos de proselitismo e da ideia de deixar tudo e seguir a palavra de Cristo. A pobreza medieval também contribuía para as peregrinações: é mais simples deixar tudo para quem nada tem. Seus pertences cabem numa bolsa. Também não é em vão que o monge conduzia os peregrinos para a luta na Terra Santa.

Cruzadas:
A guerra pela conquista de Jerusalém começou em 1095, quando o papa Urbano II convocou a cristandade para este objetivo. Após o sucesso militar sobre os muçulmanos, o reino cristão no oriente durou até meados do século XIII. Mesmo que o desejo de riquezas e feudos na Terra Santa fosse um fator motivacional para a ida de cavaleiros e camponeses às cruzadas, isso não se reverteu em fato. Ainda que algumas cidades italianas tenham enriquecido, as cruzadas contribuíram para um empobrecimento do Ocidente medieval.
As cruzadas foram a rigor marcadas por massacres que os europeus praticaram sobre as populações locais, como na tomada de Jerusalém em 1099. Como se não bastasse, resultou em altos gastos econômicos para financiar tais expedições. Entretanto, milhares de cristãos buscaram no oriente a conquista de seus lugares sagrados, o que os levaria a salvação eterna, como era o caso dos fiéis que seguiam o monge Zenone em direção a Terra Santa.

“os outros”: bizantinos, muçulmanos, judeus:
O homem do ocidente medieval sempre viu os diferentes dele com estranhamento. O filme é bem oportuno em colocar um bizantino e um judeu junto aos homens de Brancaleone.
Os bizantinos eram vistos com desconfiança pelos europeus. Herdeiros do Império Romano do Oriente, tinham uma vida indubitavelmente mais próspera. Ainda que também fossem católicos, desde 1054 faziam parte da Igreja Ortodoxa. Justamente por serem mais letrados e afortunados que os seus irmãos ocidentais, os bizantinos eram vistos como afetados, covardes e trapaceiros. O personagem Teofilatto Dei Lionzi representa muito bem esta ideia que os europeus tinham dos bizantinos. Bizâncio dominou boa parte da Península Itálica (palco do filme) desde meados do século VI até 1071.
Aos judeus cabia principalmente a atividade comercial e a usura, já que estavam proibidos de se enquadrarem nas três ordens da sociedade cristã. Reconhecidos como hereges foram vítimas do ódio e de massacres. O velho Abacuc, que sempre carrega seu baú com mercadorias e dinheiro, representa bem a visão que o homem medieval tinha dos judeus no filme.
Os muçulmanos eram vistos como os infiéis, os inimigos da cristandade. O desejo dos cristãos de retomar os lugares sagrados e os ataques dos sarracenos no filme são uma boa amostra disso. Sarracenos é como os europeus da Idade Média chamavam os muçulmanos e árabes. Aqui cabe uma diferenciação: os árabes são um povo oriundo da Península Arábica que habita o Oriente Médio e norte da África. Já os muçulmanos são os seguidores da fé islâmica. Ainda que houvesse trocas comerciais e intelectuais entre muçulmanos e cristãos durante a Idade Média, a principal marca da relação entre estes durante o período foi o confronto, como por exemplo, na Reconquista da Espanha e Portugal, e nas cruzadas.
O ator Vittorio Gassman interpretando Brancaleone
O filme é uma comédia imperdível. A sátira com os romances de cavalaria se aproxima com Dom Quixote. Faz piada com temas que geralmente são abordados de forma heróica, com honrosas exceções, como Monty Python - Em Busca do Cálice Sagrado.
Assista ao trailler do filme:



Bibliografia:
LE GOFF, Jacques. Historia Universal: la Baja Edad Media. Ciudad del Mexico, Siglo Veintiuno Editores, 1979.
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru (SP), Edusc, 2005.
O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE. L’Armata Bracaleone. Mario Monicelli. Itália: 1966. Spectra Nova, data. DVD. 104 min., colorido.

Nenhum comentário: