terça-feira, 14 de junho de 2011

A Missão – Jogo dos oito erros


O filme A Missão é uma bela obra. Dirigido por Roland Joffé, o filme de 1986 conta no elenco com astros do nível de Liam Neeson, Jeremy Irons e Robert de Niro. Qualquer filme com esse último cara não tem como ser ruim. Todos deveriam assistir Touro Indomável e Taxi Driver pra perceber o que é um grande ator. A trilha sonora de Ennio Morricone também é espetacular. Ele é um dos maiores compositores de músicas para filmes. É de sua autoria algumas trilhas indefectíveis como Três Homens em Conflito, Os Intocáveis e mais recentemente Bastardos Inglórios.

Em resumo, a história do filme tem como pano de fundo o conflito conhecido como “Guerra Guaranítica”, quando os índios guaranis foram obrigados a deixar as missões, ou reduções orientais. A região conhecida como as “Sete Povos das Missões”, que hoje faz parte do território sul-rio-grandense, deveria ser abandonada devido à assinatura do Tratado de Madri, em 1750. Este previa uma simples troca entre as Coroas de Portugal e Espanha: a Colônia de Sacramento passava a ser espanhola e as missões passavam a ser portuguesas. Os índios teriam que se mudar para as terras do outro lado do rio Uruguai. Com a negativa por parte dos índios em deixar as terras, os dois reis enviaram tropas que realizassem esse serviço. A própria ideia de “Sete Missões” não está correta. Estas faziam parte de trinta missões guarani-jesuíticas próximas ao Rio da Prata.

No filme, Robert de Niro vive Rodrigo Mendonza, um descendente de espanhóis e caçador e mercador de índios escravos. Ao voltar para casa de uma expedição para aprisionamento de índios, encontra a mulher que ama com seu irmão e o mata em um duelo. Tomado pelo remorso, acaba se tornando jesuíta e com sua experiência parte para o confronto contra os ibéricos ao lado dos índios.

O filme é bom, elenco é excelente, a história é bacana, a trilha sonora é espetacular, as imagens da selva são belíssimas. Porém existem alguns problemas quanto à perspectiva histórica apresentada por “A Missão”. Claro que um filme é um produto cultural e um empreendimento comercial. Vai atender aos anseios da sociedade que o recebe. No caso de “A Missão”, além da história difícil de engolir do ex-mercador de escravos que se arrepende e vira jesuíta, existem erros históricos no filme. Vamos à análise de alguns deles:

1) Onde estão os guaranis? – Aqueles que deveriam ser os principais personagens desta história mal aparecem. Na realidade, o diretor utiliza índios onanis, ou wanauanis da Colômbia, no papel dos guaranis, sob a alegação de que os primeiros estariam mais próximos daquilo que os guaranis eram na época das missões do que os atuais. Nada mais enganoso. Para começar, os onanis aparecem como caçadores-coletores, ao contrário dos guaranis que já tinham desenvolvido a agricultura quando entraram em contato com os europeus. O diretor fala como se os guaranis de hoje, por estarem miscigenados com a sociedade ocidental não fossem mais indígenas. Por acaso os guaranis de 1750 também não estavam em contato com os europeus há mais de cem anos?

Nota-se que nenhum indígena tem nome ou destaque na história do filme. Nenhum deles é visto como um indivíduo. Eles são vistos apenas como um grupo étnico, como um todo, não como sujeitos com identidade própria.

2) Padres lutando – No filme, os padres da missão retratada aparecem como opositores às ordens da mudança e inclusive pegam em armas junto aos guaranis. Na realidade, jesuítas estiveram oficialmente favoráveis à saída dos índios das reduções e tentaram persuadi-los a aceitar o Tratado de Madri. Altamirano, por exemplo, era o padre superior das Missões, escolhido para dar cabo ao processo de mudança dos índios. Responsabilizar os jesuítas pela revolta foi a acusação usada por Portugal para expulsar a ordem em 1759.

Apontar os jesuítas como estimuladores da resistência guarani é negar o papel dos índios na História. Seria cair no velho etnocentrismo, acreditar que só os europeus poderiam organizar a luta. Entretanto, sabe-se que foram os guaranis que resistiram e lutaram após 1750.

3) É “barbada” converter – O processo de conversão é apresentado como se fosse relativamente fácil. Os guaranis são representados segundo a visão colonialista de estarem na infância da sociedade, como homens inocentes e ingênuos. Na verdade havia dois ou três padres para cerca de três mil índios em cada redução. É impossível que houvesse uma catequização geral de toda a redução.

4) Fora do tempo - O período que a redução do filme é instalada é anacrônico. As primeiras relações entre guaranis e religiosos foram no final do século XVI, início do XVII. As missões orientais foram fundadas a partir do final do século XVII, distante no tempo de 1750. Outro anacronismo se refere à captura e escravização de índios na região meridional da América, que teve seu auge no século XVII, muito mais por parte dos bandeirantes que vinham de São Paulo, do que pelos espanhóis.

5) A autonomia das missões – O território missioneiro é demonstrado como se fosse “independente” da administração resto da Coroa espanhola. Os padres são vistos como opositores das autoridades locais. Na realidade, as reduções estavam inseridas no espaço colonial da Espanha. Tanto que estavam favoráveis à mudança dos guaranis, tentando convencê-los a aceitar a mudança.

6) A batalha que não houve – O confronto demonstrado no filme não existiu. As tropas não chegaram nas reduções queimando e matando. Certo que os espanhóis cometeram a pilhagem, mas não houve lutas dentro das missões. A maior batalha da revolta foi a de Caiboaté, que teria matado cerca de 1500 índios. Apesar dessa chacina, nada indica que mulheres e crianças estivessem envolvidas nesse momento, ao contrário do que é retratado em “A Missão”. Os conflitos em geral foram escaramuças e emboscadas entre índios e europeus.

7) São Carlos – A missão de São Carlos realmente existiu. Mas ficava onde hoje é território argentino, bem mais aos oeste de onde o filme a localiza (ver o mapa). São Carlos não perderia nada do seu território para os portugueses. Para completar o núcleo urbano de nenhuma das trinta reduções guarani-jesuíticas próximas ao Rio da Prata era como o filme retrata. As construções não eram de madeira e pau-a-pique. Eram de alvenaria, tijolos e argamassa; tanto a Igreja, como o cabildo (assembleia local), como as casas dos índios.

8) O fim das missões – No final do filme, as missões são destruídas e os índios voltam a viver no mato. Na realidade, os guaranis não chegaram a abandonar por completo as missões orientais. A mudança para o outro lado do rio Uruguai nunca teve efeito. E o território foi devolvido aos espanhóis em 1761. Na verdade, os guaranis não abandonaram a região nem em 1767, quando os jesuítas foram expulsos da Espanha e de seus domínios. Permaneceram ali até o início do século XIX.

Apesar das críticas, o filme deve ser visto, pelo menos para que estas ressalvas sejam apontadas.

A partir deste post vou colocar a bibliografia que utilizei, afinal não tirei as informações do vento, nem adquiri por fotossíntese ou osmose. É importante também para quem quer buscar mais informações sobre o assunto.

Bibliografia:

MONTEIRO, John Manuel. “Os Guarani e a História do Brasil Meridional – Séculos XVI e XVII”. in: CUNHA, Manuela Carneiro da. (org). História dos Índios no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.

GANSON, Barbara. The Guaraní under Spanish rule in the Rio de la Plata. Stanford, Stanford University Press, 2003.

A MISSÃO. The Mission. Roland Joffé. Warner Bros. Reino Unido: 1986. Flashtar. DVD. (121 min), colorido.

Trailler do filme:



Um comentário:

Rogério Toledo disse...

Muito boas as ressalvas. Gostei do tom respeitoso que vc criticou o filme. Falta muito isso hoje. Realmente vale a pena ver o filme e depois ler o seu texto. Abraço.