terça-feira, 8 de maio de 2012

“... um sandinista especialista em granada de mão”


Já me referi aqui à banda britânica The Clash. Muitas de suas músicas têm um forte cunho político. Em 1980 foi lançado o álbum “Sandinista!”. O título homenageia o movimento guerrilheiro nicaraguense. Aqui no rock gaúcho The Clash e a Nicarágua também tiveram sua influência: Jimi Joe compôs e Os Replicantes gravaram “Sandina”. É a história de um cara abandonado pela mulher que foi lutar ao lado do sandinismo na Nicarágua. A letra é uma preciosidade, escute a versão de Jimi Joe:

Sábado todo/eu chorei de mágoa/ minha garota/foi pra Manágua.
A Nicarágua (que tem em Manágua a sua capital), assim como grande parte da América Central foi por muito tempo um “quintal” dos EUA. Desde o início do século XX os ianques implementaram a política do “big stick” sobre o continente, que se baseava no direito de usar a força para intervir em conflitos ou posições que lhes fossem contrárias. A relação dos EUA com a América Central se assemelha muito com o neocolonialismo, ou imperialismo britânico sobre Ásia e África. Assim, em 1912 o exército norte-americano invade o país em contrapartida de uma rebelião popular.
Sandino
Em 1927, a Nicarágua é novamente vítima de um ataque de Washington. Mas dessa vez, os nicaraguenses resistiram. Liderados por Augusto Cesar Sandino, um camponês pobre, montam uma guerrilha que trava as pretensões americanas e das elites que comandavam o país. Lutando contra o governo do então presidente Jose Maria Moncada, que era apoiado pelos EUA, Sandino obteve importantes vitórias militares. Em princípio defendiam um nacionalismo e contra a intervenção estrangeira, com o tempo contaram inclusive com o apoio das esquerdas. A luta da guerrilha durou até 1934 quando Sandino foi morto a mando de Anastácio Somoza García, apelidado de Tacho.
Este último viria a ser o próximo presidente do país, em 1937. Passou a perseguir os guerrilheiros, desarticulando a oposição. A reorganização sandinista só voltou na virada da década de 50 para 60, com as propostas de um sistema social igualitário, reforma agrária e o direito de todos as trabalho. Se formava a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). Mas a família Somoza mantinha o poder através de Anastácio Somoza Debayle, Tachito, filho de Tacho. A repressão aos sandinistas é mais uma vez muito violenta, sobretudo pela Guarda Nacional, espécie de exército defensor do governo.
A oligarquia Somoza governava a Nicarágua, tal quais outras oligarquias controlavam a América Central com o apoio americano. Mas o governo de Jimmy Carter eleito em 1976 tentou mudar esse panorama, buscando uma política de “direitos humanos”, se opondo a ditaduras para afastar a face de “império americano” que Nixon e outros antecessores haviam construído. Parou de enviar armas para a Nicarágua e cortou o apoio oficial por não ver em Somoza um bom aliado na América Central.

Lutar pela revolução... ela me deixou/me trocou/ por um sandinista especialista/ em granada de mão.
Durante os anos setenta, cansados da manutenção dos Somoza no poder a população passa a aderir aos sandinistas, apesar das perseguições da Guarda Nacional. Em 1978 os guerrilheiros realizam um ataque ao Palácio Nacional que com vinte e cinco pessoas fazem 1500 reféns. No ano seguinte, as ações aumentam e se dá a “Revolução Sandinista”.
No início do ano, os guerrilheiros conquistam importantes cidades no norte do país. Na Semana Santa, Estelí uma das maiores cai nas mãos dos sandinistas. A FSLN conquistava importantes posições no país e ganhava amplo apoio da população. Sua combinação de marxismo com nacionalismo anti-imperialista e Teologia da Libertação mobilizava as massas. Não esquecendo que o marxismo está ligado à luta revolucionário pelo comunismo e a Teologia da Libertação é um movimento católico que combina religião com a luta contra injustiças sociais.
Bandeira dos sandinistas
Mesmo que os EUA não apoiassem oficialmente Somoza, mercenários americanos faziam parte das forças paramilitares que reprimiam a revolta. Destaca-se também empréstimo do FMI para a Nicarágua no período. Os sandinistas, por sua vez recebiam apoio estrangeiro, como da Costa Rica, Venezuela e Cuba. Os meses de junho e julho foram decisivos. Na capital Manágua, foram montadas barricadas da população contra o governo. Uma greve geral foi declarada e o país parou. Os sandinistas já haviam controlado a maior parte da Nicarágua. Assim, Somoza renuncia e foge em 17 de julho de 1979. Seu líder no Legislativo esboça uma reação, dizendo que iria assumir o governo, mas também foge. Os sandinistas haviam vencido a revolução.
Forma-se uma Junta Provisória para o governo, que enfrenta inúmeros problemas econômicos, porque a luta havia consumido muito dinheiro e país deveria ser reconstruído, o que envolveria altos gastos. Mesmo com o apoio financeiro de Cuba e da URSS, interessada em ter na Nicarágua um aliado, os anos que se seguiram foram difíceis.
Mapa da Nicarágua
Como se não bastasse, o fim do governo Carter e o início da era Reagan nos EUA marcou o retorno de uma política conservadora e agressiva por parte dos ianques para com países que adotassem posições que lhes fossem contrárias. Dessa maneira em 1981 teve o início de “operações encobertas” da CIA contra a Nicarágua. A mais conhecida foi o caso dos “Contras”, grupo paramilitar formado por ex-membros da Guarda Nacional, que a partir de Honduras atacaram o país, sem conseguir se estabelecer ali, porém causando danos à população. Em 1983, os americanos impuseram um bloqueio naval ao país.
A rigor a preocupação com a Nicarágua não se devia a importância do país. Economicamente e militarmente, esta nação da América Central era irrelevante. Mas sua influência sobre outros países como o Panamá, Guatemala e El Salvador, junto do apoio dado pela URSS, mesmo que os sandinistas não fossem simples “clientes de Moscou”, deixava os americanos em alerta. Ainda que a Nicarágua não fosse Cuba e a FSLN não tivesse Fidel Castro como líder, os EUA pretendiam reassumir sua condição de controle sobre a situação.
Em 1990, contudo, os sandinistas perderam a eleição através de Daniel Ortega. A queda da URSS resultou no fim da ajuda econômica, que junto do desgaste provocado pelo conflito motivado pelo governo Reagan, tirou a esquerda do poder. Hoje, a FSLN é um dos principais partidos nicaraguenses.
Acompanhe a letra de “Sandina” na íntegra e escute a versão dos “Replicantes”:
Sábado todo
Eu chorei de mágoa
Minha garota
Foi pra Manágua

Lutar pela revolução
Lutar pela revolução
Todo mundo vai embora
Todo mundo tem sua hora

Ela me deixou
Ela me trocou
Por um sandinista especialista
Em granada de
mão

 
Bibliografia:
MAREGA, Marisa. A Nicarágua Sandinista.  São Paulo, editora brasiliense, 1981.
SCHILLIG, Voltaire. EUA x América Latina: as etapas da dominação. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
VICENTINI, Paulo. Da Guerra Fria à Crise (1945-1990). Porto Alegre, Editora da Universidade, 1990.

Um comentário:

Anderson Ventura disse...

Texto muito bom. Valeu!