terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sepé Tiaraju

Ruínas de São Miguel, da qual
Sepé Tiaraju era membro
Hoje, 7 de fevereiro de 2012, completam-se 256 anos da morte de Sepé Tiaraju, guarani da redução São Miguel. Muitos já ouviram falar nesse nome, que inclusive figura no Panteão dos heróis estaduais e nacionais, mas poucos sabem quem realmente ele foi. Ou melhor, poucos sabem o que ele realmente fez. Talvez, por conta da própria mitologia criada em torno dele, talvez devido ao pouco caso que damos aos indígenas no nosso país.
Para entender sua história é preciso voltar no tempo para 1750, quando os monarcas de Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri, que se propunha a pôr um fim nas disputas entre as fronteiras dos dois reinos na América. Lembrem que nessa época as regiões que hoje correspondem ao continente americano eram colônias dos países europeus. Dessa maneira, os espanhóis cediam, entre outras possessões, como o Mato Grosso e o Amazonas, o território que correspondia às sete missões orientais, a saber: São Borja, São Miguel, Santo Ângelo, São João, São Lourenço, São Nicolau e São Luís.
Na realidade, estas sete faziam parte de um conjunto de trinta povos guarani-jesuítas. Estes eram uma iniciativa da Igreja junto aos índios, buscando a catequese dos mesmos, ampliando o número de fiéis do cristianismo. Esta iniciativa junto às populações guaranis das regiões que hoje correspondem ao Paraguai, nordeste da Argentina (província de Missiones) e sul do Brasil começou em meados do século XVII e já estava bem consolidada em 1750, sob os domínios do rei espanhol. Logo, os guaranis viviam ali havia muito tempo.
Contudo, de acordo com o Tratado de Madri, esses índios eram obrigados a transmigrar para outra margem do rio Uruguai. Com isso, aconteceu um problema: os reis de Portugal e Espanha “se esqueceram” de perguntar aos guaranis se esses queriam a mudança. Claro, pois num sistema absolutista não se costuma consultar a população antes de tomar alguma resolução. O rei decide e tem a jurisprudência para isso.
Mapa da região.
Os índios deveriam
se mudar de onde hoje é o
Rio Grande do Sul para o
atual território argentino
cruzando o rio Uruguai

Assim que chegaram as ordens de translado, os indígenas tentaram negociar. Solicitaram às autoridades espanholas que este acordo não fosse cumprido, mas claro que não foram ouvidos. Assim, em fevereiro de1753 foram enviadas, pelos ibéricos, comissões demarcadoras para o território missioneiro, para delimitar as novas fronteiras. Qual não terá sido a surpresa quando foram impedidos de passar adiante por um grupo de indígenas em São Miguel. Segundo os relatos, eles eram liderados justamente por Sepé Tiaraju.
Em abril de 1754, novo incidente. As tropas portuguesas se encontravam no forte de Rio Pardo, onde hoje existe a cidade homônima. Um grupo de guaranis se aproximou para espionar. Quando descobertos, foram convidados a entrar no forte. Era uma armadilha, pois as portas se fecharam e os guaranis se viram presos. Os portugueses queriam de volta alguns cavalos que haviam sido roubados. O líder dessa expedição indígena, Sepé Tiaraju, se prontificou para buscá-los. Mesmo escoltado por doze portugueses, conseguiu fugir deles.
Em virtude desse tipo de fato e pela insistência dos guaranis em não abandonar suas terras, as Coroas de Portugal e Espanha decidiram enviar seus exércitos rumo ao território das missões. Os indígenas foram considerados rebeldes. A primeira expedição, organizada em duas colunas separadas, uma de cada monarquia, fracassou. Enviada em setembro de 1754, não resistiu ao mau tempo da região.
Uma segunda expedição, dessa vez com lusos e espanhóis aliados, foi montada e enviada em janeiro de 1756. Assim como a anterior enfrentou diversos obstáculos como escaramuças e ataques rápidos, no estilo guerrilha, montados pelos guaranis. Foi num desses, em 7 de fevereiro que Sepé Tiaraju tombou, morto por um tiro pelo então governador de Montevidéu, José Joaquim de Viana.
Três dias depois, os guaranis conheceriam uma pesada derrota. Cerca de mil e quinhentos indígenas morreram em um dos principais confrontos da resistência e revolta. Apesar de outros pequenos conflitos, os exércitos de Portugal e Espanha entraram no território das missões em maio de 1756.
Mesmo assim, não conseguiram fazer com que todos os guaranis se mudassem para outra margem do rio Uruguai. A “guerra” se mostrou até certo ponto inútil, pois em 1759, o Tratado de Madri foi anulado pelo Tratado de El Pardo. As missões só seriam parte de Portugal quando, em 1801, foi assinado o Tratado de Badajós.
Fique atento ao sul do Brasil e às mudanças entre as fronteiras

Já é mais que hora de darmos o devido lugar aos indígenas na História das Américas. Eles devem ser vistos como agentes e não somente como vítimas, ou como obstáculos à civilização. Estas duas formas de compreendê-los são preconceituosas. É como se os indígenas não tivessem ação, como se sempre ficassem à mercê dos europeus. Parece que eventos como o conflito desencadeado após a assinatura do Tratado de Madri e as ações de Sepé vêm na oposição desse tipo de visão. Este é o índio que aparece e age na História, se movimenta e se adapta aos novos tempos.
Só muito recentemente que a História Indígena virou matéria obrigatória das escolas, o que é um disparate, pois deveria fazer parte do currículo há muito tempo. Os índios também fazem parte da construção da nação brasileira. Recentemente os indígenas vêm realizando importantes conquistas, como, por exemplo, vagas próprias nas universidades. Mas ainda há muito que se fazer, sobretudo nas questões dos direitos à terra. Engraçado que a questão da terra é um problema desde que os europeus chegaram por aqui...

7 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Muito bom a história

Gilberto Araujo disse...

Rafael, parabéns pelo post. História muito bem contada. É muito importante e urgente que se faça conhecer os nossos verdadeiros heróis.

Anônimo disse...

Muito boa historia, Parabens.

Cauê disse...

Muito interessante. Estava procurando informações sobre a chamada "Guerra Guaranítica" (nome, claro, inventado pelos brancos) e encontrei seu blog. Vou acompanhá-lo mais de perto.

Uma dúvida: vc citou o Tratado de El Pardo, de 1759, mas não comentou o Tratado de Ildefonso, de 1777, também interessante pra situar a questão da terra nessa região. Pq?

Outra dúvida: reitero que seu texto é mto bom, mas quais foram as referências?

Rafael Burd disse...

Obrigado pelos elogios.O Tratado de Santo Ildefonso não foi abordado, porque não dizia respeito às missões, mas principalmente ao enclave meridional português, Sacramento. Eis as minhas referências: BURD, Rafael. De alferes a corregedor : a trajetória de Sepé Tiaraju durante a demarcação de limites na América Meridional - 1752/1761. Mestrado, UFRGS, Porto Alegre, 2012. Disponível para download em http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/62024/000867567.pdf?sequence=1

Anônimo disse...

muito boa a história aqui nas missões dizem que sepé tiarajú foi o criador da famosa frase ESTA TERRA TEM DONO !!!