quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Jânio – entre a vassoura e a espada


Agosto é um mês que costuma ser complicado para a política brasileira. Como já foi relatado aqui no blog antes, foi a época do suicídio de Getúlio Vargas. Mas também ficou marcado pela renúncia de Jânio Quadros, em 1961 e consequente “campanha da legalidade”, em prol da posse do vice, João Goulart. De acordo com sua carta de renúncia “forças terríveis” o teriam levado a fazer isso. Mas que “forças” foram essas que levaram um presidente a se afastar do cargo sete meses após sua posse?
Jânio em campanha:
o modo desleixado de
se vestir e se portar era
proposital
            Para responder a esta pergunta é importante entender o contexto político do Brasil na época e a trajetória de Jânio Quadros. O governo anterior, JK, havia onerado muito as contas públicas. Seu partido, o PSD, fundado por Vargas tinha tanto a oposição do PTB, também fundado por Vargas, como da UDN, ligado a elite antivarguista. Ainda que correspondesse aos setores de uma classe média e alta, o governo JK não agradou tanto assim as classes baixas brasileiras. A prática do nacional-desenvolvimentismo que atraiu a indústria automobilística estrangeira; levou à construção de uma nova capital, Brasília e rompeu com o FMI, parece não ter atingido positivamente toda a nação brasileira.
            Jânio ascendeu na política de maneira rápida. Em 1947 assumiu o mandato de vereador em São Paulo pelo Partido Democrático Cristão (PDC). Um ano depois se elegeu deputado estadual pela mesma legenda. Em 1953, vence as eleições para a prefeitura de São Paulo, pelo mesmo PDC, sem o apoio de nenhum dos grandes partidos da época – UDN, PTB, PDS. Demagogo e populista, no sentido pejorativo da palavra, chega ao governo do estado paulista, dessa vez pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN). Jânio parece se aproveitar muito mais das oportunidades que lhe surgem do que de uma rede de relações, como era de praxe, para crescer no campo da política nacional. Desse modo, utilizou brechas e falhas do governo de Kubitschek na sua campanha para a presidência em 1960.
            Com a vassoura como símbolo, Jânio prometia varrer a corrupção do Brasil: “varre, varre vassourinha/ varre, varre a bandalheira/ que o povo está cansado de sofrer dessa maneira/ Jânio Quadros é a esperança dessa gente brasileira”, dizia a música de sua campanha. Com o apoio da UDN, a candidatura de Jânio despertou simpatia tanto da elite antivarguista, como pela classe média, que ansiava pela moralização dos costumes políticos, como pelas classes baixas prejudicadas pelo elevado custo de vida. Seu opositor, o marechal Henrique Teixeira Lott, do PTB, foi abandonado por setores do próprio partido, que preferiram apoiar Jânio junto de João Goulart, dando origem aos comitês “Jan-Jan” (na época, o presidente e o vice eram eleitos separadamente). Veja abaixo um vídeo de campanha de Jânio:
Agora escute a música da campanha de Jânio Quadros, da "vassourinha":
 
            Jânio até tinha certo carisma, mas não da mesma maneira de Vargas ou JK. Se o carisma desses dois era marcado pela habilidade de transitar entre diversos meios sociais, simbolizado pelo sorriso e simpatia de ambos, Jânio o tinha através do pastiche. Em comícios, tinha um visual propositalmente desgrenhado, comia sanduíches tirados do bolso, tinha caspa nos ombros. Na verdade não chegava a ser “populista”, mas “popularesco”. Ao mesmo tempo, não se propunha a conciliar as classes e partidos, mas colocar-se acima destes.
            O governo de Jânio foi confuso e ambíguo. Ficou mais conhecido por decisões esdrúxulas como as proibições do biquíni nas praias, das rinhas de galo e do uso do lança-perfume nos bailes de carnaval. Ou seja: um conservadorismo tacanha, bobo. A administração foi desastrosa, os ministros tornaram-se meros executores de ordens, dadas através de bilhetes. Na verdade, por trás dessa “tacanhice”, escondia-se um viés autoritário e um descrédito pelas instituições democráticas como o Congresso.
            Quando assumiu em 1961, quebrou a aliança com a UDN e se propôs a governar sozinho, sem depender de partidos. Alguns historiadores chamam isso de bonapartismo, governar acima da política e do Estado, tal qual o estadista francês Napoleão Bonaparte. Com isso, acabou angariando a antipatia de diversos setores do país. No campo econômico, tratou de tentar estabilizar a economia, cortando gastos públicos. Mas ao cortar subsídios para a importação de trigo e petróleo, o preço dos derivados desses produtos disparou.
Jânio Quadros com Che Guevara:
a Política Externa Independente era
ambígua, mas oportunista.
            A política internacional também foi bastante dúbia. Ao mesmo tempo em que reatou com o Fundo Monetário Internacional (FMI), entregou a mais alta honraria concedida para estrangeiros, a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, para o então ministro cubano Ernesto “Che” Guevara, ídolo da esquerda. Dizia compactuar com a PEI (Política Externa Independente), que propunha uma situação em que não fossemos ligados à esfera de influência norte-americana, mas que também não nos alinhássemos com os soviéticos. Assim, havia a preocupação de manter relações com países de Terceiro Mundo, como os africanos.
            Foi baseada nessa Política Externa Independente que organizou-se uma expedição oficial à China comunista, com o vice-presidente João Goulart na comissão. E foi durante esse meio tempo que Jânio renunciou, mais precisamente em 25 de agosto de 1961. E aqui entra outro conceito ligado à França e a Jânio: o gaullismo. Charles de Gaulle já havia retirado-se da política quando em meio a uma crise em 1958 foi escolhido para voltar ao poder como primeiro-ministro. Jânio, ao renunciar imaginava que provocaria uma comoção nacional em torno de seu nome. Acreditava que a população iria aclama-lo para que ele permanecesse no poder, dessa vez com um Executivo bem mais fortalecido.
O caminhar do presidente reflete a sua política: ninguém
sabia para onde o governo de  Jânio rumava. No fim, acabou
em renúncia
            Por que isso aconteceria? O seu vice, João Goulart não tinha a confiança de setores conservadores e militares. Quando era ministro do Trabalho de Vargas, por exemplo, propôs um aumento de 100% no salário mínimo. Muitos o viam como comunista, ou simpatizante, coisa que Jango não era, e isso desagradava as elites. A crença de Jânio nisso até tinha fundamento, mas o clamor por sua volta não ocorreu. Nem Carlos Lacerda, opositor ferrenho do varguismo apoiou Jânio. Pelo contrário, um dia antes, em 24 de agosto, discursou na rádio denunciando uma tentativa de golpe do então presidente.
            Ainda que elementos da direita e militares tenham tentado impedir a posse de Jango, que voltava da China, esta foi garantida, como já dito, pela “Cadeia da Legalidade”. Liderada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola teve o apoio do III Exército e de boa parte da população porto-alegrense.
            Muitos veem Jânio como uma comédia, como “marxista no sentido do Groucho Marx”, ou ainda como um bêbado. Na verdade, isso parece ser fechar os olhos para a História. Jânio Quadros tinha pretensões golpistas e uma prática política que revelava desprezo pela democracia. Seu modo de cativar e se aproximar das massas, colocando-se como um deles, revela alguém que se aproveitou de um momento e de certas circunstâncias para chegar ao poder. Rir, ou debochar disso ainda hoje é perigoso.
            Jânio perdeu seus direitos políticos com o golpe de 1964. Mas com a volta da democracia, elegeu-se novamente prefeito de São Paulo em 1985, governando a cidade de 1986 até 1989, sem renunciar.

BIBLIOGRAFIA
BENEVIDES, Maria Victoria. O governo Jânio Quadros. São Paulo, Editora brasiliense, 1981.
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Edusp, 2006.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Jogos Olímpicos: entre o esporte e a política


Os anéis olímpicos simbolizam a
união entre os povos. Na fala
é muito bonito, mas...
Os Jogos Olímpicos costumam ser vistos como momentos de celebração da paz entre os povos. Mas essa é uma visão um pouco ingênua. Ainda assim, conflitos existem antes, durante e depois dos jogos. Não que eu deteste esse momento, pelo contrário. Gosto muito de assistir ao máximo de competições pela televisão. Entendo tudo o que acontece com a venda dos direitos de transmissão, com os patrocínios, quem leva essa ou aquela grana. Mesmo assim, gosto. Por isso mesmo que o post de hoje fala sobre as Olimpíadas.
            Os Jogos Olímpicos da era moderna começaram em 1896, na cidade de Atenas, a partir da iniciativa de um francês, o barão de Coubertin. De início, alguns problemas: nas primeiras edições nem mulheres, nem negros podiam competir. Como “congregar todos povos e nações” com essa postura? Mas não vamos nos esquecer como a própria sociedade do fim do século XIX era machista e racista, por exemplo, não permitindo o direito ao voto feminino e subjugando populações africanas no período conhecido como imperialismo.
            Ainda que idealizados por um francês e realizados pela primeira vez na Grécia, os Jogos Olímpicos tiveram sua origem no sistema inglês de educação. Foram baseados no amadorismo, e por muitas edições os competidores não podiam ser profissionais dos esportes. Muitos esportes como o tênis e o rugby eram característicos de uma classe média burguesa. Muitas competições físicas eram vistas como “passatempo” para esta burguesia inglesa, por isso, foi desenvolvido em muitas escolas e universidades, como ainda hoje ocorre. Foi fundamentado nessas ideias que o Barão de Coubertin criou as Olimpíadas. Afinal, quem mais poderia competir como amador senão a burguesia e a nobreza? O “proletariado” com baixos salários é que não.
            Claro que com o tempo, as coisas foram mudando. Hoje as Olimpíadas e os esportes como futebol, basquete, atletismo movimentam quantias inimagináveis de dinheiro. Hoje muitos atletas são pagos e alguns são muito bem pagos.
            Houve alguns momentos chaves na história das Olimpíadas em que esportes e política acabaram misturando-se para o mal e para o bem. Destaco quatro, que vão acabar se desdobrando em cinco:

Pôster das Olimpíadas
de 1936 em Berlim.
A propaganda nazista
do ideal de um raça
ariana superior foi uma
marcas do evento.
Berlim, 1936 – A decisão de sediar Berlim como sede dos XI Jogos Olímpicos da era moderno deu-se em 1931. Na época a Alemanha vivia a República de Weimar, um período democrático e pretendia mostrar ao mundo como havia superado a derrota na Primeira Guerra Mundial. Contudo, em 1934, Adolf Hitler ascendeu ao poder através do Partido Nazista. Assim, a proposta alemã para a competição mudou.
            Os esportes já faziam parte do programa nazista para as massas, lembrando que contar com o apoio das massas populares é uma característica dos regimes totalitários que emergiram na Europa durante o período entre-guerras, no qual o nazismo se enquadra. A propaganda nazista para as Olimpíadas pretendia mostrar não só como a Alemanha havia crescido durante o governo de Hitler, mas também a crença na que era conhecido como a superioridade da raça ariana.
Jesse Owens, o competidor
negro que venceu as principais
provas de atletismo em Berlim
            Ironicamente o grande destaque dessa edição dos Jogos Olímpicos foi o negro norte-americano Jesse Owens. Ele ganhou medalhas de outro nas mais importantes competições de atletismo 100m, 200m, revezamento 4x100 e salto em distância. Hitler se negou a entregar a medalha de ouro para um negro, pela sua ideologia racista. De alguma maneira, Jesse Owens conseguiu quebrar o mito da superioridade ariana, pelo menos durante alguns instantes naquele ano de 1936. Porém não podemos esquecer que os EUA da época também era profundamente racista e esse preconceito permaneceu por muitos anos ainda na sociedade americana, fato que será melhor abordado mais adiante.
            Chamo atenção para o filme Olympia, documentário de Leni Riefenstahl. Ela era a principal cineasta do Partido Nacional-Socialista, a favorita de Hitler. Ainda que propagandista do regime nazista, o filme é esteticamente muito bom, sendo um marco sobre o registro cinematográfico acerca de esportes.

Martin Luther King, um dos principais
ativistas pelos direitos dos negros
nos EUA

            Cidade do México, 1968 – É comum dizer que os anos 60 foram agitados, com profundas alterações de comportamento na História do século XX. Uma das principais mudanças foi na questão da luta pelos direitos humanos, na qual se insere a luta pela igualdade entre negros e brancos nos EUA. Como foi afirmado acima, os americanos, principalmente no sul, foram (e muitos ainda são) profundamente racistas. Em estados como a Geórgia era proibido que sentassem nos mesmos bancos de ônibus, por exemplo.
            Mesmo a abolição da escravidão não foi suficiente para garantir os direitos e a cidadania dos descendentes de africanos nos EUA. Assim, no início da década de 60 surgem movimentos que mobilizam as pessoas em passeatas e protestos contra o racismo e pela igualdade de direitos. É nesse contexto que surgem os Panteras Negras, baseados nas propostas de Malcolm X e de seu movimento Black Power.
            Diferentemente de Martin Luther King, Malcolm X acreditava que a violência podia ser um meio de solucionar o problema do racismo, ou seja, era preciso reagir, dar o troco na mesmo moeda. Os Partido dos Panteras Negras, por exemplo, foi criado na Califórnia em 1966 para contribuir com a elevação social, econômica e política dos negros.
Tommie Smith e
John Carlos com o punho
erguido: protesto contra a
segregação racial.
            O ano de 1968 foi em si, muito polêmico. Em abril, o ativista Martin Luther King foi assassinado. Em maio, o movimento estudantil, aliado aos operários sacudiram a França. As Olimpíadas em 1968 na Cidade do México, ocorridas em outubro os atletas negros norte-americanos Tommie Smith e John Carlos, respectivamente primeiro e terceiro lugar nos 200m em atletismo, ergueram o punho, como um soco no ar, tal qual na saudação dos membros do movimento Black Power, durante o hino dos EUA quando estavam no pódio. Ambos foram suspensos da equipe de seu país e banidos da Vila Olímpica. Mesmo assim deram seu justo recado: o protesto contra a segregação racial. O legado do gesto de Tommie Smith e John Carlos ficou para a história dos Jogos Olímpicos e da luta dos Direitos Humanos.

            Munique, 1972 – Em 5 de setembro de 1972, terroristas do grupo Setembro Negro entraram na Vila Olímpica e mataram onze atletas israelenses. A operação policial para impedir os assassinatos foi desastrosa e sem êxito. O documentário Um dia em setembro retrata esse fato. O filme Munique de Steven Spielberg aborda a retaliação do Estado de Israel e a caçada aos que cometeram o atentado.
O terrorista encapuzado aparece na
sacada do quarto dos israelense:
uma das imagens mais conhecidas
e marcantes dos ano 70 e do
século XX.
            O grupo Setembro Negro surgiu na Jordânia após 1967. Para entendermos a situação é necessário voltar a 1947. Nesse ano, a ONU declarou a partilha da Palestina e a formação de dois Estados: um para os judeus e outro para os árabes que ali viviam. No ano seguinte, os ingleses, que ocupavam a região retiraram-se e Israel declarou sua Independência. De imediato, os países árabes que o cercavam, o atacaram no que ficou conhecido como “Guerra de Independência de Israel”.
Os israelenses vencem a guerra e expulsam árabes que viviam no seu território para a Jordânia, dando início ao problema dos refugiados. Em 1967 estoura uma nova guerra: a dos Seis Dias, novamente vencida por Israel. Desta vez, um território ao oeste da Jordânia é anexado e ocupado. Muitos árabes muçulmanos que viviam ali atravessaram a fronteira para não estarem sob controle israelense, outros permaneceram. A área, conhecida como Cisjordânia até hoje é motivo de impasse e conflito entre palestinos e israelenses.
Em setembro de 1970, o exército jordaniano expulsou milhares de refugiados que fugiram de Israel e matou outros milhares. A este massacre promovido pela Jordânia, deu-se o nome de Setembro Negro, que acabou dando o nome ao grupo terrorista que atacou em Munique. Em 1012, apesar dos pedidos e protestos dos israelenses, o COI não fez nenhuma menção ao fato da morte dos onze atletas na abertura das Olimpíadas de Londres.

            Moscou, 1980 e Los Angeles, 1984 – os Jogos Olímpicos de Moscou, capital da URSS foram boicotados por parte dos países do bloco capitalista. Ainda que a Guerra Fria tivesse arrefecido nos anos 60 e 70, ela voltou à tona e com força nos anos 80. Mesmo durante o governo Carter, marcado pela defesa dos direitos humanos, os EUA restauraram a bipolaridade, com uma certa guinada conservadora, que só aumentou no governo Reagan. Durante as Olimpíadas de 80 os americanos ainda estavam sob o governo Carter e iriam fazer de tudo para botar água no chope, ou na vodka, dos russos.
O ursinho Misha, mascote
dos Jogos Olímpicos de
Moscou chora no
encerramento: 61 países
boicotaram o evento
em represália à
invasão soviética no
Afeganistão.
            Faltava-lhes um pretexto. E ele veio com a invasão soviética sobre o Afeganistão em 1978. Há muito tempo que o país já era área de influência de Moscou, travando relações desde 1919. Na década de 70, o Afeganistão era governado pelo príncipe Daud, que buscava aproximação com os EUA e a China, mas foi derrubado em 1978 pelo Partido Democrático do Povo Afegão (PDPA), ligado à União Soviética. O Afeganistão sempre foi um país muito pobre e agrário, com a política centralizada na área da capital, Cabul. Este partido pró-soviético entrou em atrito com latifundiários locais e com o clero muçulmanos por questões como a reforma agrária e os direitos das mulheres.
            O PDPA não estava conseguindo impor estas metas ao povo afegão, pois havia forte oposição, inclusive armada das partes já citadas. Foi nesse contexto que a União Soviética decidiu intervir militarmente. Derrubou o governo que a apoiava, mas que não tinha simpatia da população, contudo a guerrilha continuava e os soviéticos permaneceram ocupando a região para manter o Afeganistão sob sua esfera de influência. Os EUA intervieram indiretamente na questão: enviaram dinheiro e armamentos para guerreiros fundamentalistas islâmicos. A luta foi especialmente difícil para a URSS devido ao terreno montanhoso da região. Ao fim, o confronto teve um alto custo para os soviéticos, sendo uma espécie de Vietnã para estes.
            Os russos haviam sido alertados que caso continuassem com a ocupação os Jogos Olímpicos seriam boicotados. Como resposta os EUA e outros sessenta países não enviaram atletas para Moscou. Em represália ao boicote de Moscou, a URSS e outros países do leste europeu boicotaram os Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, alegando falta de segurança para seus atletas. A rigor entre 1952 e 1976, soviéticos e americanos passaram para a Guerra Fria para o esporte. As disputas pelo primeiro lugar no quadro de medalhas entre os dois países eram reflexo do confronto entre os principais países dos blocos socialista e capitalista.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A sociedade mineradora e as suas revoltas


Durante cerca de duzentos anos, os portugueses invejaram os espanhóis quanto às suas colônias na América, por uma razão muito simples: os metais preciosos. Na América Espanhola regiões como os atuais territórios do México e do Peru eram ricas em ouro e prata. Mas no Brasil a realidade era diferente. A economia se limitava a agricultura, principalmente a cana-de-açúcar no nordeste.
Essa situação durou até a virada do século XVII para o XVIII, quando em viagens explorando o sertão adentro, bandeirantes descobriram ouro no rio das Velhas, em Minas Gerais. Esse fato gerou uma verdadeira “corrida do ouro” em direção àquela região. Indivíduos de diversos lugares do reino português foram para lá em busca de riqueza. Neste primeiro momento havia muitas dificuldades pela escassez de alimentos.
Foi nesse contexto que ocorreu a Guerra dos Emboabas, que opôs “paulistas” e “baianos”. As aspas se justificam, afinal São Paulo e Bahia ainda não eram estados constituídos da federação. Nem Brasil havia, mas sim a “América Portuguesa”. Nesse confronto, os paulistas haviam chegado antes à região mineradora e julgavam que lhes cabia a exploração da região. Entre 1707 e 1708 foram registrados diversos conflitos entre esses grupos. Os representantes do governo luso intervieram, apaziguando os ânimos.
Por razões como este conflito, a Coroa portuguesa decidiu que deveria haver representantes de seu poder no local. Afinal, a região também deveria estar sob o controle da Colônia, pois tinha o que os portugueses tanto queriam: o ouro. Criaram-se então, núcleos urbanos, como Vila Rica (atual Ouro Preto), Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo (atual Mariana) São João del Rey e São José del Rey (atual Tiradentes), que foram fundados entre 1709 e 1718. 
Praça Tiradentes na atual cidade de Ouro Preto, antiga Vila Rica:
parte do antigo casario colonial do século XVIII ainda hoje é preservado


Junto disso, montou-se todo um aparato fiscal. Essa tributação por muitas vezes se tornou repressiva e excessiva. Havia dois principais tipos de impostos: o quinto e a capitação. O primeiro destinava 20% de toda produção local ao rei. Para isso foram criadas as Casas de Fundição nas quais o ouro recebia o carimbo real e a parte do monarca era arrecadada.
Esse imposto foi uma causa da Revolta de Vila Rica em 1720. Entre 28 e 29 de junho desse ano, houve um levante de proprietários de minas em Vila Rica. A este levante se aliaram populares, liderados por Filipe dos Santos. Estes passaram a assumir o controle da rebelião e se constituir numa ameaça para a elite local. Mas tropas reais chegaram à cidade em 14 de julho. Filipe dos Santos foi preso, morto, esquartejado e seu corpo, foi exposto em público.
O outro imposto era a capitação, que consistia num tributo sobre cada escravo. A mineração, contudo, passou a decair conforme se aproximava o século XIX. Mas a faina fiscal não diminuiu. Pelo contrário, quando a partir de 1763, o quinto não completava a cota mínima de 100 arrobas, a Coroa portuguesa instituiu a derrama, que obrigava a população local a pagar o que faltava para completar essa quantia. 
Foi a derrama de 1789 uma das principais causas da Inconfidência Mineira. O movimento começou no final de 1788, buscando proclamar, na região mineradora, uma República, inspirada, sobretudo na Independência e na Constituição dos Estados Unidos. Quando a conspiração foi descoberta, os rebeldes foram presos. A maioria foi expulsa do Brasil e um foi condenado à morte: José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes. Muitos tinham contatos com autoridades coloniais. Mas Tiradentes era apenas um comerciante fracassado e alferes do Exército.
Nota-se que tanto a Guerra dos Emboabas como a Revolta de Vila Rica não falavam em Emancipação de Portugal. Tal ideia seria nesse momento histórico. Estas são conhecidas como Revoltas Coloniais ou Nativistas, contra uma determinação ou contra as autoridades locais, mas nunca contra o monarca, ou a favor de uma separação de Portugal.
Liberdade, ainda que tardia:
mesmo que a Incofidência Mineira
não tivesse como objetivo a separação
do Brasil de Portugal, a República
brasileira acabou adotando Tiradentes como
um de seus heróis;
Já a Inconfidência Mineira, pode ser considerada uma Revolta Emancipatória, que despertou certa “consciência nacional”, mesmo que esta tenha sido direcionada apenas para a região da mineração. Claro que esta contou com influências do pensamento iluminista europeu e da Revolução Americana. Ainda assim, deve-se ressaltar que não era a pretensão dos conspiradores a Independência do Brasil, mas das Minas Gerais. Ocorre que a República acabou transformando Tiradentes em herói nacional.
A mineração acabou criando os primeiros grandes meios urbanos no território brasileiro. Ouro Preto, por exemplo, chegou a 20 mil habitantes em 1740. Trouxe, junto consigo, além de mineradores, comerciantes, que formariam uma espécie de pequena burguesia local. Contudo, só prosperaram mesmo aqueles homens proprietários de grandes minas, que tinham muitos escravos. Outra camada privilegiada da sociedade foi a de alguns tropeiros. Estes faziam o contato entre a região mineradora e o resto da Colônia. Os funcionários reais também era privilegiados economicamente.
Na verdade, a grande maioria da população era pobre ou miserável. Os pequenos comerciantes passavam muitas dificuldades, os faiscadores, pequenos mineradores com autonomia também e havia muitos escravos. Se o número de escravos era muito grande, o de alforrias também, pois muitos senhores, durante o declínio da produção aurífera não conseguiram manter seus escravos devido ao tributo da capitação.
Atual cidade de Tiradentes,
antiga São João del Rey:
apesar do ouro e das prováveis
possibilidades de ascensão social,
poucos pertenciam
a alta camada da sociedade mineira.
Apesar de despontar como o primeiro centro urbano do país, de propiciar grandes riquezas pessoais e propiciar a formação de uma intelectualidade local, a região das minas foi um reflexo do resto da Colônia: desigual, dependente e submissa à metrópole portuguesa. Com o tempo e com a escassez do ouro, esta sociedade entrou em rápido declínio. No início do século XIX, a produção aurífera já era bem menor e a população destas cidades também diminuiu. Mesmo assim, a sociedade que surgiu nas minas foi de extrema importância para a interiorização da colonização do Brasil, afinal até aquele momento, a população se restringia à região do litoral.
Bibliografia:                                                                                                      
VERGUEIRO, Laura. Opulência e miséria das Minas Gerais. São Paulo, editora brasiliense, 1981.
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Edusp, 2006

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sobre a Revolução de 23 e fim das disputas coronelistas no RS: “Foi findar com as luta armada /O doutor Getulio Vargas”


É do senso comum afirmar que as coisas no Rio Grande do Sul sempre são dicotômicas, tal qual o Grenal. Talvez seja por que a maior parte da República Velha no estado foi marcada pela disputa entre republicanos e federalistas vindas desde 1893.
Forças borgistas em Passo Fundo.
Crédito da imagem: O tempo e o Rio Grande nas imagens do
Arquivo Histórico do RS.org. Rejane Penna, Porto Alegre, IEL,
Arquivo Histórico do RS, 2011.
Durante anos o republicano Borges de Medeiros se reelegeu ao cargo de presidente do estado (naquele tempo, os governadores eram chamados assim), em eleições onde a fraude parecia ser regra. Até que em 1922, Assis Brasil candidatou-se pela oposição, sendo derrotado. Os anos vinte, contudo, foram marcados por uma crise da pecuária gaúcha. E a maioria dos pecuaristas era composta pelos federalistas.
Esses criadores de gado exigiam que Borges de Medeiros os socorresse economicamente, o que não ocorreu, pois o presidente do estado tinha por princípio uma política econômica voltada para modernização do setor de transportes e industrial.
Tal situação gerou um descontentamento, que aliada às fraudes eleitorais de 1922, gerou o episódio conhecido como Revolução de 1923. De um lado estavam os pecuaristas, juntos de outras parcelas da elite, sendo um confronto entre os “coronéis” do Rio Grande do Sul da época. Assim, os federalistas tinham o apoio dos “democratas” e de “dissidentes republicanos”, lutando sob o nome de “Aliança Libertadora”.
Grupo do apoiadores de Borges de Medeiros.
Crédito da imagem: O tempo e o Rio Grande nas imagens do
Arquivo Histórico do RS.org. Rejane Penna, Porto Alegre, IEL,
Arquivo Histórico do RS, 2011.
O início dos embates deu-se na região noroeste do estado, espalhando-se na direção de Passo Fundo, onde tomou corpo e chegou ao resto do Rio Grande do Sul. A tática adotada pelos opositores de Borges foi sobretudo a de guerrilha e pequenos combates, a fim de minar as forças ligadas ao presidente do estado, que eram mais numerosas. O conflito durou praticamente todo o ano 1923, impossibilitando inclusive, a realização do Campeonato Gaúcho de Futebol.
Os rebeldes se opunham também ao autoritarismo de Borges de Medeiros, herança da sua política positivista, que centralizava o poder nas mãos do Executivo. Queriam uma nova constituição para o Rio Grande do Sul. Acreditavam que teriam o auxílio militar do governo brasileiro, já que Borges de Medeiros não apoiou a candidatura do então presidente, Artur Bernardes. Entretanto, este se limitou a enviar um mediador ao sul, o general Setembrino de Carvalho.
Borges de Medeiros assinando a paz em 1923
no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho
Crédito da imagem: O tempo e o Rio Grande nas imagens do
Arquivo Histórico do RS.org. Rejane Penna, Porto Alegre, IEL,
Arquivo Histórico do RS, 2011.
A querela só foi se resolver em dezembro de 1923, quando foi assinado o Pacto de Pedras Altas. Nele ficou estabelecido que a Constituição seria revisada e que Borges de Medeiros, após se reeleger pela quinta vez, não seria mais candidato. Ou seja, em 1928 o Rio Grande do Sul haveria de ter outro presidente do estado.
E esse outro foi Getúlio Vargas. Antigo correligionário de Borges de Medeiros, o cidadão de São Borja teve habilidade suficiente para unir as elites oligárquicas sul-rio-grandenses em torno de si. Dessa maneira, só havia ele de candidato, formando a Frente Única Rio-grandense, que abrigava tanto o Partido Republicano Rio-grandense como o Partido Libertador, fruto da Aliança Libertadora de 1923. Mesmo esses antigos adversários de Borges pareciam confiar em Vargas, devido ao que alguns chamam de “espírito conciliador” deste.
Eleito em 1928, ficou apenas dois anos no cargo. Nesse governo, além de acabar com as disputas coronelistas, Vargas atendeu as demandas dos pecuaristas e pagou as dívidas do estado. Além disso, criou um banco estatal, o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, ou BERGS, futuro Banrisul.
Dali, Vargas saiu em 1930 para concorrer à presidência da República. Derrotado nas eleições derrubou o então presidente Washington Luís e tomou seu lugar. Permaneceu no cargo até 1945. Impôs sobre o país uma violenta ditadura, com simpatia pelo fascismo, ainda que o Brasil tenha ingressado da Segunda Guerra junto dos aliados.
Getúlio Vargas em 1930
já como presidente
da República
Sobre as diversas lutas estabelecidas no estado do Rio Grande do Sul durante a República velha, o grande compositor, gaúcho de Porto Alegre, nascido no bairro Passo da Areia, Gildo de Freitas, cantou assim: Esta faca prateada/ Que hoje eu mostro pra vocês/ Pois esta em 93/ Naqueles tempos passados/ Quando branco colorado / Pica pau com Maragato/ Com esta faca de prata/ Muitos foram degolados. Os maragatos eram os federalistas, opositores de Borges e os pica-paus, os republicanos. Ainda que em 1893, o presidente da província fosse Julio de Castilhos, a Revolução de 1923 tem as mesmas características da anterior: uma luta entre as oligarquias locais pelo poder.
E o mesma música completa assim a história da faca: Mas depois surgiu um homem
Que ganhou as eleições/ Findo com as revoluções / E deu estudo pra infância/ Coisa de muita importância/ Foi findar com as luta armada/ O doutor Getulio Vargas/ Que acabou com a ignorância
. Aqui percebemos que Gildo elogia a figura de Vargas, porque este uniu as elites gaúchas através de uma política de conciliação, acabando com os conflitos internos. Destaca-se que Gildo de Freitas era notadamente brizolista. E Leonel Brizola entre os anos 50 e 60 era membro do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, fundado por Getúlio Vargas em 1945, e pelo qual voltou ao cargo de presidente da República, democraticamente eleito, em 1954. Ouça a música "Faca Prateada":

A maioria das imagens desta postagem são do livro “O tempo e o Rio Grande nas imagens do Arquivo Histórico do RS”. Se for utilizá-las, é favor dar o devido crédito à obra. Quem se interessar, pode pesquisar por esta e outras imagens no Arquivo Histórico do RS, no prédio do Memorial do RS,  em Porto Alegre, na Praça da Alfândega, ao lado do MARGS.
Bibliografia:
KÜHN, Fábio. Breve história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Leitura XXI, 2004.        
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1990.