quarta-feira, 6 de março de 2013

“Alemanhas”, enfim juntas



Cartaz do filme "Adeus, Lênin!"

Um dos filmes mais bonitos da década de 2000 é “Adeus, Lênin”, dirigido por Wolfgang Becker. A história do rapaz Alexander, interpretado por Daniel Brühl, que inventa uma mentira para mãe não ter um choque muito grande ao recém sair do coma. Sendo militante do socialismo, não poderia saber do fim do regime na Alemanha Oriental. Para tanto, o rapaz cria um telejornal no qual, por exemplo, afirma que os cidadãos da Alemanha Ocidental é que tinham passado para o bloco socialista, como explicação para a queda do muro de Berlim. Mas a realidade foi outra.
Em 3 de outubro de 1990, a Alemanha voltava a ser um país só. Meses antes, em 1989 os alemães ocidentais derrubaram o muro que separava Berlim, apressando a reunificação nacional. Mas para entender o significado dessa situação é necessário, como sempre, voltar no tempo.
Lembre-se que a Alemanha é um exemplo de nação construída tardiamente, com a unificação ocorrendo no final do século XIX. Por isso, o imperialismo alemão também foi tardio, o que está entre as causas das duas guerras mundiais, se entendido que a Segundo contou com o revanchismo da Primeira.
Passado o fim da Segunda Guerra e a derrota do nazismo, interessava aos aliados a divisão da Europa e da própria Alemanha. A própria capital Berlim foi dividida. Havia quatro zonas de ocupação: uma francesa, uma inglesa, uma americana e uma soviética. Berlim seguiu o mesmo modelo, ainda que ficasse na zona de ocupação da URSS.
Os países libertados do nazismo pelos EUA e pela Inglaterra, entre eles o lado oeste da Alemanha, receberam dinheiro dos americanos para sua reconstrução através do “plano Marshall”, que financiava estes estados como forma de impedir o avanço do comunismo. Muitos consideram que a disputa entre americanos e soviéticos pelo território alemão deu início à Guerra Fria. 
A Alemanha Ocidental, foi inclusive uma das regiões que mais recebeu dinheiro norte-americano. Afinal, era um ponto onde comunismo e capitalismo se enfrentaram frente a frente. Era necessário para os EUA fazer uma bela propaganda do seu sistema social e econômico. 
Dessa maneira, em 1949, a zona ocupada por americanos, franceses e britânicos deu origem à República Federativa Alemã (RFA), governada por um protegido dos EUA, Konrad Adenauer. Nesse período, a Alemanha Ocidental ainda não tinha eleições, nem instituições independentes. Esta era um país pró-EUA e tinha sua capital em Bonn.
Já na Alemanha Oriental estabeleceu-se uma nova ditadura, dessa vez sob o regime soviético, sob o nome de República Democrática Alemã (RDA). Saíam de uma ditadura nazista para entrar numa ditadura do Partido Comunista. O governo da Alemanha Oriental era considerado como um dos mais “linha-dura” do bloco soviético. E Berlim seguia dividida entre capitalistas e socialistas.
Construção do muro de Berlim em
novembro de 1961
Em 1961 a situação da cidade, que era estranha, torna-se bizarra. A Guerra Fria “esquentava” com eventos como a invasão da baía dos Porcos em Cuba. Em 13 de maio desse ano, a RDA construiu a fronteira mais marcante entre socialistas e capitalistas: o muro de Berlim. Com o apoio de Moscou, a Alemanha Oriental bloqueava e impedia a imigração para o lado ocidental. Em Berlim, o contrapondo entre os dois sistemas era muito visível. Sobretudo pelo desenvolvimento visto na Alemanha Ocidental, porque nos anos 50 houve um investimento pesado dos norte-americanos em Berlim.
No filme “Adeus, Lênin” o pai do garoto havia ficado em Berlim Ocidental após a construção do muro, separando-se de sua família, como ocorreu em muitos casos: erguido o muro era impossível passar para o outro lado. Ou seja, a construção do muro só trouxe mais complicações para os alemães e um acirramento entre os ânimos de americanos e soviéticos. Talvez a única coisa de positiva que o muro tenha trazido é que, segundo a lenda, David Bowie compôs a música “Heroes” ao observar um casal de namorados perto do muro em meados dos anos setenta, quando morou em Berlim.
Cartaz do filme "A vida dos outros"
Uma das características de ditaduras é a supressão das liberdades individuais. E o Estado da RDA era extremamente policialesco. Um filme que retrata muito bem isso é o excelente “A Vida dos Outros”, dirigido por Florian Henckel von Donnersmark. O filme se passa em meados dos anos 80. O filme conta a história do agente da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, que instalava escutas na casa de um escritor. O sistema socialista se encaminhava para seu fim, mas mesmo assim o Estado continuava bastante repressor. Assim ele era considerado um inimigo e deveria ser vigiado e controlado, afinal, como já foi dito os alemães orientais saíram de uma ditadura totalitária para outra também muito repressiva. É notável a atuação do agente da Stasi, interpretado por Ulrich Mühe, que com o tempo se vê envolvido com a vida daquele que deveria observar.
Tanto “A Vida dos Outros”, como “Adeus, Lênin” tratam do fim comunismo na Alemanha Oriental. Com “Perestroika”, de Gorbatchev a abertura política, que garantia o direito do bloco soviético de emancipar-se e ficar livre do regime de Moscou, o governo da RDA passa a enfrentar uma série de protestos internos a partir de 1989.
Muitos fogem da RDA para RFA pela Hungria, que recebeu apoio ocidental. Os impostos na Alemanha Oriental subiam, e o governo, formado em sua maioria por uma gerontocracia, tinha cada vez mais oposição da população. Essa situação, somada a uma pressão do Partido Comunista local, que pretendia derrubá-lo, causou a renúncia de Erich Honecker, o mandatário do país em 1989. No mesmo ano, caia o muro de Berlim.
Helmuth Kohl em 1990: um dos protagonistas
da reunificação
Em 1990, Helmuth Kohl, chanceler da Alemanha Ocidental e Gorbatchov articularam o fim da Alemanha Oriental. Com a interferência de Kohl foi realizado um referendo que aprovou a reunificação. A Constituição da RFA torna-se a oficial de toda nova república e os membros do governo da RDA punidos por crimes, o que na época resultou numa “perseguição” que erradicou funcionários do regime socialista do país. Este processo é bem demonstrado em “A Vida dos Outros”, quando após a reunificação, o ex-agente da Stasi se vê destituído de emprego, vivendo em más condições.
E aqui cabe destacar uma parte negativa da reunificação: uma divisão entre orientais e ocidentais. Formaram-se dois grupos bem definidos: os wessis (ocidentais) e os ossis (orientais). Como o leste foi quase “colonizado” pelo oeste, os ossis passaram a ser discriminados, o que aliado às dificuldades financeiras, transformou os que habitavam a Alemanha Oriental praticamente em cidadão de segunda classe.
Tanto em “Adeus, Lênin” como em “A Vida dos Outros” são casos interessantes. Com sucesso em bilheteiras, produzidos na Alemanha, fora de Hollywood, nos anos 2000. Penso que os dois filmes tratam do fim da Alemanha Oriental de modo semelhante. Não trata-se de um saudosismo do governo socialista, mas expõem algumas mazelas da reunificação, pela imposição do regime capitalista de cima para baixo. Ainda que a população tenha participado do processo, sua finalização foi levada pelos chefes da nova nação. Principalmente a partir de lideranças políticas ocidentais como Helmut Kohl, que foi o articulador do neoliberalismo dentro da Alemanha. Ou seja, foi uma mudança de cima para baixo.
1989: cai o muro de Berlim

Hoje a Alemanha é uma das maiores potenciais econômicas do mundo e o carro-chefe da economia europeia. Mesmo assim, o lado leste ainda é o mais pobre e é onde, lamentavelmente, tem surgido movimentos de extrema direita, muitos de cunho neonazista, um dos grandes males que aflige toda a Europa atual.
Notícias dos últimos dias dão conta de que a prefeitura de Berlim pretende derrubar partes remanescentes do muro, mas a população local é contra. Preferem mantê-lo para recordar que um dia a cidade já foi dividida, como um marco.
Assista abaixo aos trailers de "Adeus Lênin" e "A vida dos outros". Veja os filmes também, são imperdíveis.


E para terminar, "Heroes" do David Bowie:



Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
VICENTINI, Paulo. Da Guerra Fria à Crise (1945-1990). Porto Alegre, Editora da Universidade, 1990.

Filmes:

“Adeus, Lênin!” (Good bye, Lenin!). direção Wolfgang Becker. 2003.
“A vida dos outros” (Das Leben der Anderen). Direção Florian Henckel von Donnersmark. 2006.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Império Contra-Ataca – O governo Reagan


Cartaz do filme
"O Império Contra-ataca"

Em 1980 era lançado o filme “O Império Contra-Ataca”, segundo na trilogia “Guerra nas Estrelas”, dirigido por George Lucas. No mesmo ano, o ex-ator Ronald Reagan elegia-se presidente dos EUA. O que estes fatos têm em comum além do cinema?
O filme conta a história da retomada das forças do Império liderado por Palpatine sobre os rebeldes jedis. Após serem atacados no sue coração, na sua maior nave, os siths revidam e dão um pau no nos rivais.
O presidente americano anterior a Ronald Reagan, o democrata Jimmy Carter, colocava em pauta a defesa dos direitos humanos. Dessa maneira, no final dos anos 70, Carter retirou o apoio dos EUA a diversas ditaduras na América Latina, intermediou acordos de paz, como o entre Israel e Egito e na economia defendeu o estado keynesiano.
Trailer do filme "O Império Contra-Ataca"

O ator que ocupou a Casa Branca entre 1981 e 1988 – ele se reelegeu – era o contrário de tudo isso. Seu governo junto com o de Margaret Thatcher foi conhecido como a “reação conservadora”. Mas vamos por partes. Primeiro a economia.
Reagan: o ator se elege
presidente
Sai de campo o estado de bem-estar social, o keynesianismo e entra o neoliberalismo. Os anos 70 e 80 foram marcados por uma grave crise econômica causada pela “crise do petróleo”, quando houve o aumento dos preços do produto depois de 1973, na Guerra do Iom Kipur. Muitos governos estavam falidos graças aos seus gastos com benefícios sociais como aposentadoria e seguro para desempregados – característicos do Estado de Bem-Estar Social. Assim, as despesas cresciam mais que as rendas.
Já o neoliberalismo previa a privatização das estatais e a não-intervenção do estado na economia, inclusive no diz que respeito à legislação trabalhista. Conforme Reagan, “o Governo não era a solução, mas o problema”. Como o objetivo do neoliberalismo era o lucro, o livre mercado era incentivado, o que deixava a maior parte da população sem assistência social. Isso significava um retorno a um estágio do capitalismo anterior aos anos 40.
Em termos políticos, o governo Reagan demonstrou um retrocesso nas relações internacionais dos EUA. O início dos anos 80 também é conhecido como “Segunda Guerra Fria”, no qual o enfretamento com a URSS foi retomado. O objetivo era o fim do bloco socialista.
Os americanos começaram uma corrida armamentista que os soviéticos não conseguiram. A capacidade industrial do leste europeu estagnou-se, devido à economia planificada. Assim setores – como o da informática – não foram desenvolvidos, o que levou a economia soviética ao colapso.
Reagan e Thatcher: estadistas que deram grandes
passos em direção ao neoliberalismo
Em relação ao Terceiro Mundo, nova substituição. Sai a “defesa dos Direitos Humanos” de Carter, entra a “defesa da democracia e o combate ao terrorismo”. Essa política de Reagan defendia uma atitude intervencionista sobre outros países, nos quais a área de influência fosse ameaçada. Isso já se verificava no fim do governo Carter, quando os EUA apoiaram fundamentalistas islâmicos no Afeganistão contra a invasão soviética.
Reagan, por sua vez, apoiou em Angola a UNITA e o exército sul-africano, que combatiam a MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), apoiado pela URSS, que vinham em uma violenta guerra civil.
Na América, Reagan apoiou ditaduras e interveio em regiões onde houvesse um regime pró-sovieticos. Na Nicarágua financiou o grupo “Contras”, que se opunha aos sandinistas que tomaram o poder em 1979. Os sandinistas propunham, por exemplo, uma reforma agrária, o que aos olhos dos americanos era “comunismo”.
Mas o caso mais forte ficou por conta da invasão dos fuzileiros navais dos EUA na pequena ilha de Granada, na América Central. Em 25 de outubro de 1983, os EUA, junto dos exércitos de Barbados e da Jamaica, derrubando o então primeiro-ministro granadino Maurice Bishop, que havia destituído a liderança anterior, estabelecendo um regime sob área de influência soviética. Conforme o governo Reagan, pela proximidade, seria um perigo para os norte-americanos.
Localização de Granada

Ronald Reagan com o então presidente
do Brasil Figueiredo: apoio aos
regimes pró-EUA, mesmo que
fossem ditaduras
A exceção ficou por conta da nossa vizinha Argentina. Ao contrário das expectativas alimentadas pelos generais do regime ditatorial, os EUA não apoiaram os argentinos contra a Inglaterra na Guerra das Malvinas em abril e maio de 1982. Reagan preferiu se omitir e ficar ao lado de Thatcher, primeira-ministra britânica, que compactuava com suas ideias sobre o neoliberalismo. 
Reagan foi semelhante a George W. Bush, tanto pela política externa agressiva como  pelo pouco conhecimento que manifestava sobre assuntos gerais que não diziam respeito diretamente aos EUA. Um exemplo disso foi a viagem de Reagan em maio de 1985 à Alemanha Ocidental. Até aí, tudo bem, fazia parte da política externa da apoio aos aliados dos americanos. Ocorre que o no roteiro estava um cemitério era de combatentes da SS, a tropa de elite não só do Exército, mas também do Partido Nazista e que havia controlado os campos de concentração e extermínio.
A banda punk nova-iorquina, Ramones usou esse fato como inspiração para a música My Brain Is Hanging Upside Down (Bonzo Goes to Bitburg). Bonzo era o nome do chipanzé de um filme protagonizado por Reagan nos anos 50, Bedtime for Bonzo e Bitburg é o nome da cidade onde ficava o cemitério. Confira algumas partes da letra, relacionando com o governo Reagan:
You're a politician
Don't become one of Hitler's children

Bonzo goes to Bitburg then goes out for a cup of tea
As I watched it on TV somehow it really bothered me
Drank in all the bars in town for an extended foreign policy

Em tradução livre: você é um político, não torne-se um dos filhos de Hitler/ Bonzo vai a Bitburg então sai para um copo de chá/ enquanto eu assistia isso na TV de algum modo isso realmente me chateava/ Bebia em todos bares da cidade para uma política externa estendida.
If there's one thing that makes me sick
It's when someone tries to hide behind politics
I wish that time could go by fast
Somehow they manage to make it last

Ainda: se existe alguma coisa que me deixa doente/ È quando alguém tenta se esconder atrás da política/ eu queria que o tempo pudesse correr mais rápido/ De alguma maneira eles o fazem durar.
Capa do Single My Brain Is Hanging Upside Down
Joey e Dee Dee Ramone


Notamos uma crítica da banda Ramones não somente à visita de Reagan ao cemitério, mas também à política externa intervencionista, que defende a todo custo o bloco capitalista, mantendo seus aliados. Dessa maneira, Reagan estaria se transformando em “um dos filhos de Hitler”.
E além disso, os americanos fizeram esse tempo durar, reelegendo Reagan em 1985 e elegendo George Bush pai na eleição seguinte, dando continuidade à política externa republicana. Um adendo: provavelmente a música tenha sido composta por Joey e Dee Dee Ramone já que Johnny, o terceiro integrante da banda, era republicano. Escute abaixo a música:

O governo de Reagan retomou a Guerra Fria e as intervenções, por muitas vezes violentas no Terceiro Mundo. Ordenou inclusive, como visto a invasão da pequena ilha de Granada. Logo, sua relação, principalmente com a América Latina, foi a de “xerife”, intervindo muitas vezes com violência, tal qual a política do Big Stick implementada no início do século XX. Esta fora a maneira dos EUA de praticar o imperialismo junto aos seus vizinhos, assim como alguns países europeus fizeram com a Ásia e a África. Liderou, junto de Margareth Thatcher, uma política econômica que esquecia dos desfavorecidos, beneficiando algumas grandes empresas, com os objetivos voltados para o lucro. Parece que nem Palpatine e Darth Vader seriam capazes disso.
 Darth Vader e Ronald Reagan:
Nos anos 80, o "Império" reagiu
e conta-atacou com violencia.

Bibliografia:
Bibliografia:
SCHILLIG, Voltaire. EUA x América Latina: as etapas da dominação. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
VICENTINI, Paulo. Da Guerra Fria à Crise (1945-1990). Porto Alegre, Editora da Universidade, 1990.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Jânio – entre a vassoura e a espada


Agosto é um mês que costuma ser complicado para a política brasileira. Como já foi relatado aqui no blog antes, foi a época do suicídio de Getúlio Vargas. Mas também ficou marcado pela renúncia de Jânio Quadros, em 1961 e consequente “campanha da legalidade”, em prol da posse do vice, João Goulart. De acordo com sua carta de renúncia “forças terríveis” o teriam levado a fazer isso. Mas que “forças” foram essas que levaram um presidente a se afastar do cargo sete meses após sua posse?
Jânio em campanha:
o modo desleixado de
se vestir e se portar era
proposital
            Para responder a esta pergunta é importante entender o contexto político do Brasil na época e a trajetória de Jânio Quadros. O governo anterior, JK, havia onerado muito as contas públicas. Seu partido, o PSD, fundado por Vargas tinha tanto a oposição do PTB, também fundado por Vargas, como da UDN, ligado a elite antivarguista. Ainda que correspondesse aos setores de uma classe média e alta, o governo JK não agradou tanto assim as classes baixas brasileiras. A prática do nacional-desenvolvimentismo que atraiu a indústria automobilística estrangeira; levou à construção de uma nova capital, Brasília e rompeu com o FMI, parece não ter atingido positivamente toda a nação brasileira.
            Jânio ascendeu na política de maneira rápida. Em 1947 assumiu o mandato de vereador em São Paulo pelo Partido Democrático Cristão (PDC). Um ano depois se elegeu deputado estadual pela mesma legenda. Em 1953, vence as eleições para a prefeitura de São Paulo, pelo mesmo PDC, sem o apoio de nenhum dos grandes partidos da época – UDN, PTB, PDS. Demagogo e populista, no sentido pejorativo da palavra, chega ao governo do estado paulista, dessa vez pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN). Jânio parece se aproveitar muito mais das oportunidades que lhe surgem do que de uma rede de relações, como era de praxe, para crescer no campo da política nacional. Desse modo, utilizou brechas e falhas do governo de Kubitschek na sua campanha para a presidência em 1960.
            Com a vassoura como símbolo, Jânio prometia varrer a corrupção do Brasil: “varre, varre vassourinha/ varre, varre a bandalheira/ que o povo está cansado de sofrer dessa maneira/ Jânio Quadros é a esperança dessa gente brasileira”, dizia a música de sua campanha. Com o apoio da UDN, a candidatura de Jânio despertou simpatia tanto da elite antivarguista, como pela classe média, que ansiava pela moralização dos costumes políticos, como pelas classes baixas prejudicadas pelo elevado custo de vida. Seu opositor, o marechal Henrique Teixeira Lott, do PTB, foi abandonado por setores do próprio partido, que preferiram apoiar Jânio junto de João Goulart, dando origem aos comitês “Jan-Jan” (na época, o presidente e o vice eram eleitos separadamente). Veja abaixo um vídeo de campanha de Jânio:
Agora escute a música da campanha de Jânio Quadros, da "vassourinha":
 
            Jânio até tinha certo carisma, mas não da mesma maneira de Vargas ou JK. Se o carisma desses dois era marcado pela habilidade de transitar entre diversos meios sociais, simbolizado pelo sorriso e simpatia de ambos, Jânio o tinha através do pastiche. Em comícios, tinha um visual propositalmente desgrenhado, comia sanduíches tirados do bolso, tinha caspa nos ombros. Na verdade não chegava a ser “populista”, mas “popularesco”. Ao mesmo tempo, não se propunha a conciliar as classes e partidos, mas colocar-se acima destes.
            O governo de Jânio foi confuso e ambíguo. Ficou mais conhecido por decisões esdrúxulas como as proibições do biquíni nas praias, das rinhas de galo e do uso do lança-perfume nos bailes de carnaval. Ou seja: um conservadorismo tacanha, bobo. A administração foi desastrosa, os ministros tornaram-se meros executores de ordens, dadas através de bilhetes. Na verdade, por trás dessa “tacanhice”, escondia-se um viés autoritário e um descrédito pelas instituições democráticas como o Congresso.
            Quando assumiu em 1961, quebrou a aliança com a UDN e se propôs a governar sozinho, sem depender de partidos. Alguns historiadores chamam isso de bonapartismo, governar acima da política e do Estado, tal qual o estadista francês Napoleão Bonaparte. Com isso, acabou angariando a antipatia de diversos setores do país. No campo econômico, tratou de tentar estabilizar a economia, cortando gastos públicos. Mas ao cortar subsídios para a importação de trigo e petróleo, o preço dos derivados desses produtos disparou.
Jânio Quadros com Che Guevara:
a Política Externa Independente era
ambígua, mas oportunista.
            A política internacional também foi bastante dúbia. Ao mesmo tempo em que reatou com o Fundo Monetário Internacional (FMI), entregou a mais alta honraria concedida para estrangeiros, a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, para o então ministro cubano Ernesto “Che” Guevara, ídolo da esquerda. Dizia compactuar com a PEI (Política Externa Independente), que propunha uma situação em que não fossemos ligados à esfera de influência norte-americana, mas que também não nos alinhássemos com os soviéticos. Assim, havia a preocupação de manter relações com países de Terceiro Mundo, como os africanos.
            Foi baseada nessa Política Externa Independente que organizou-se uma expedição oficial à China comunista, com o vice-presidente João Goulart na comissão. E foi durante esse meio tempo que Jânio renunciou, mais precisamente em 25 de agosto de 1961. E aqui entra outro conceito ligado à França e a Jânio: o gaullismo. Charles de Gaulle já havia retirado-se da política quando em meio a uma crise em 1958 foi escolhido para voltar ao poder como primeiro-ministro. Jânio, ao renunciar imaginava que provocaria uma comoção nacional em torno de seu nome. Acreditava que a população iria aclama-lo para que ele permanecesse no poder, dessa vez com um Executivo bem mais fortalecido.
O caminhar do presidente reflete a sua política: ninguém
sabia para onde o governo de  Jânio rumava. No fim, acabou
em renúncia
            Por que isso aconteceria? O seu vice, João Goulart não tinha a confiança de setores conservadores e militares. Quando era ministro do Trabalho de Vargas, por exemplo, propôs um aumento de 100% no salário mínimo. Muitos o viam como comunista, ou simpatizante, coisa que Jango não era, e isso desagradava as elites. A crença de Jânio nisso até tinha fundamento, mas o clamor por sua volta não ocorreu. Nem Carlos Lacerda, opositor ferrenho do varguismo apoiou Jânio. Pelo contrário, um dia antes, em 24 de agosto, discursou na rádio denunciando uma tentativa de golpe do então presidente.
            Ainda que elementos da direita e militares tenham tentado impedir a posse de Jango, que voltava da China, esta foi garantida, como já dito, pela “Cadeia da Legalidade”. Liderada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola teve o apoio do III Exército e de boa parte da população porto-alegrense.
            Muitos veem Jânio como uma comédia, como “marxista no sentido do Groucho Marx”, ou ainda como um bêbado. Na verdade, isso parece ser fechar os olhos para a História. Jânio Quadros tinha pretensões golpistas e uma prática política que revelava desprezo pela democracia. Seu modo de cativar e se aproximar das massas, colocando-se como um deles, revela alguém que se aproveitou de um momento e de certas circunstâncias para chegar ao poder. Rir, ou debochar disso ainda hoje é perigoso.
            Jânio perdeu seus direitos políticos com o golpe de 1964. Mas com a volta da democracia, elegeu-se novamente prefeito de São Paulo em 1985, governando a cidade de 1986 até 1989, sem renunciar.

BIBLIOGRAFIA
BENEVIDES, Maria Victoria. O governo Jânio Quadros. São Paulo, Editora brasiliense, 1981.
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Edusp, 2006.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Jogos Olímpicos: entre o esporte e a política


Os anéis olímpicos simbolizam a
união entre os povos. Na fala
é muito bonito, mas...
Os Jogos Olímpicos costumam ser vistos como momentos de celebração da paz entre os povos. Mas essa é uma visão um pouco ingênua. Ainda assim, conflitos existem antes, durante e depois dos jogos. Não que eu deteste esse momento, pelo contrário. Gosto muito de assistir ao máximo de competições pela televisão. Entendo tudo o que acontece com a venda dos direitos de transmissão, com os patrocínios, quem leva essa ou aquela grana. Mesmo assim, gosto. Por isso mesmo que o post de hoje fala sobre as Olimpíadas.
            Os Jogos Olímpicos da era moderna começaram em 1896, na cidade de Atenas, a partir da iniciativa de um francês, o barão de Coubertin. De início, alguns problemas: nas primeiras edições nem mulheres, nem negros podiam competir. Como “congregar todos povos e nações” com essa postura? Mas não vamos nos esquecer como a própria sociedade do fim do século XIX era machista e racista, por exemplo, não permitindo o direito ao voto feminino e subjugando populações africanas no período conhecido como imperialismo.
            Ainda que idealizados por um francês e realizados pela primeira vez na Grécia, os Jogos Olímpicos tiveram sua origem no sistema inglês de educação. Foram baseados no amadorismo, e por muitas edições os competidores não podiam ser profissionais dos esportes. Muitos esportes como o tênis e o rugby eram característicos de uma classe média burguesa. Muitas competições físicas eram vistas como “passatempo” para esta burguesia inglesa, por isso, foi desenvolvido em muitas escolas e universidades, como ainda hoje ocorre. Foi fundamentado nessas ideias que o Barão de Coubertin criou as Olimpíadas. Afinal, quem mais poderia competir como amador senão a burguesia e a nobreza? O “proletariado” com baixos salários é que não.
            Claro que com o tempo, as coisas foram mudando. Hoje as Olimpíadas e os esportes como futebol, basquete, atletismo movimentam quantias inimagináveis de dinheiro. Hoje muitos atletas são pagos e alguns são muito bem pagos.
            Houve alguns momentos chaves na história das Olimpíadas em que esportes e política acabaram misturando-se para o mal e para o bem. Destaco quatro, que vão acabar se desdobrando em cinco:

Pôster das Olimpíadas
de 1936 em Berlim.
A propaganda nazista
do ideal de um raça
ariana superior foi uma
marcas do evento.
Berlim, 1936 – A decisão de sediar Berlim como sede dos XI Jogos Olímpicos da era moderno deu-se em 1931. Na época a Alemanha vivia a República de Weimar, um período democrático e pretendia mostrar ao mundo como havia superado a derrota na Primeira Guerra Mundial. Contudo, em 1934, Adolf Hitler ascendeu ao poder através do Partido Nazista. Assim, a proposta alemã para a competição mudou.
            Os esportes já faziam parte do programa nazista para as massas, lembrando que contar com o apoio das massas populares é uma característica dos regimes totalitários que emergiram na Europa durante o período entre-guerras, no qual o nazismo se enquadra. A propaganda nazista para as Olimpíadas pretendia mostrar não só como a Alemanha havia crescido durante o governo de Hitler, mas também a crença na que era conhecido como a superioridade da raça ariana.
Jesse Owens, o competidor
negro que venceu as principais
provas de atletismo em Berlim
            Ironicamente o grande destaque dessa edição dos Jogos Olímpicos foi o negro norte-americano Jesse Owens. Ele ganhou medalhas de outro nas mais importantes competições de atletismo 100m, 200m, revezamento 4x100 e salto em distância. Hitler se negou a entregar a medalha de ouro para um negro, pela sua ideologia racista. De alguma maneira, Jesse Owens conseguiu quebrar o mito da superioridade ariana, pelo menos durante alguns instantes naquele ano de 1936. Porém não podemos esquecer que os EUA da época também era profundamente racista e esse preconceito permaneceu por muitos anos ainda na sociedade americana, fato que será melhor abordado mais adiante.
            Chamo atenção para o filme Olympia, documentário de Leni Riefenstahl. Ela era a principal cineasta do Partido Nacional-Socialista, a favorita de Hitler. Ainda que propagandista do regime nazista, o filme é esteticamente muito bom, sendo um marco sobre o registro cinematográfico acerca de esportes.

Martin Luther King, um dos principais
ativistas pelos direitos dos negros
nos EUA

            Cidade do México, 1968 – É comum dizer que os anos 60 foram agitados, com profundas alterações de comportamento na História do século XX. Uma das principais mudanças foi na questão da luta pelos direitos humanos, na qual se insere a luta pela igualdade entre negros e brancos nos EUA. Como foi afirmado acima, os americanos, principalmente no sul, foram (e muitos ainda são) profundamente racistas. Em estados como a Geórgia era proibido que sentassem nos mesmos bancos de ônibus, por exemplo.
            Mesmo a abolição da escravidão não foi suficiente para garantir os direitos e a cidadania dos descendentes de africanos nos EUA. Assim, no início da década de 60 surgem movimentos que mobilizam as pessoas em passeatas e protestos contra o racismo e pela igualdade de direitos. É nesse contexto que surgem os Panteras Negras, baseados nas propostas de Malcolm X e de seu movimento Black Power.
            Diferentemente de Martin Luther King, Malcolm X acreditava que a violência podia ser um meio de solucionar o problema do racismo, ou seja, era preciso reagir, dar o troco na mesmo moeda. Os Partido dos Panteras Negras, por exemplo, foi criado na Califórnia em 1966 para contribuir com a elevação social, econômica e política dos negros.
Tommie Smith e
John Carlos com o punho
erguido: protesto contra a
segregação racial.
            O ano de 1968 foi em si, muito polêmico. Em abril, o ativista Martin Luther King foi assassinado. Em maio, o movimento estudantil, aliado aos operários sacudiram a França. As Olimpíadas em 1968 na Cidade do México, ocorridas em outubro os atletas negros norte-americanos Tommie Smith e John Carlos, respectivamente primeiro e terceiro lugar nos 200m em atletismo, ergueram o punho, como um soco no ar, tal qual na saudação dos membros do movimento Black Power, durante o hino dos EUA quando estavam no pódio. Ambos foram suspensos da equipe de seu país e banidos da Vila Olímpica. Mesmo assim deram seu justo recado: o protesto contra a segregação racial. O legado do gesto de Tommie Smith e John Carlos ficou para a história dos Jogos Olímpicos e da luta dos Direitos Humanos.

            Munique, 1972 – Em 5 de setembro de 1972, terroristas do grupo Setembro Negro entraram na Vila Olímpica e mataram onze atletas israelenses. A operação policial para impedir os assassinatos foi desastrosa e sem êxito. O documentário Um dia em setembro retrata esse fato. O filme Munique de Steven Spielberg aborda a retaliação do Estado de Israel e a caçada aos que cometeram o atentado.
O terrorista encapuzado aparece na
sacada do quarto dos israelense:
uma das imagens mais conhecidas
e marcantes dos ano 70 e do
século XX.
            O grupo Setembro Negro surgiu na Jordânia após 1967. Para entendermos a situação é necessário voltar a 1947. Nesse ano, a ONU declarou a partilha da Palestina e a formação de dois Estados: um para os judeus e outro para os árabes que ali viviam. No ano seguinte, os ingleses, que ocupavam a região retiraram-se e Israel declarou sua Independência. De imediato, os países árabes que o cercavam, o atacaram no que ficou conhecido como “Guerra de Independência de Israel”.
Os israelenses vencem a guerra e expulsam árabes que viviam no seu território para a Jordânia, dando início ao problema dos refugiados. Em 1967 estoura uma nova guerra: a dos Seis Dias, novamente vencida por Israel. Desta vez, um território ao oeste da Jordânia é anexado e ocupado. Muitos árabes muçulmanos que viviam ali atravessaram a fronteira para não estarem sob controle israelense, outros permaneceram. A área, conhecida como Cisjordânia até hoje é motivo de impasse e conflito entre palestinos e israelenses.
Em setembro de 1970, o exército jordaniano expulsou milhares de refugiados que fugiram de Israel e matou outros milhares. A este massacre promovido pela Jordânia, deu-se o nome de Setembro Negro, que acabou dando o nome ao grupo terrorista que atacou em Munique. Em 1012, apesar dos pedidos e protestos dos israelenses, o COI não fez nenhuma menção ao fato da morte dos onze atletas na abertura das Olimpíadas de Londres.

            Moscou, 1980 e Los Angeles, 1984 – os Jogos Olímpicos de Moscou, capital da URSS foram boicotados por parte dos países do bloco capitalista. Ainda que a Guerra Fria tivesse arrefecido nos anos 60 e 70, ela voltou à tona e com força nos anos 80. Mesmo durante o governo Carter, marcado pela defesa dos direitos humanos, os EUA restauraram a bipolaridade, com uma certa guinada conservadora, que só aumentou no governo Reagan. Durante as Olimpíadas de 80 os americanos ainda estavam sob o governo Carter e iriam fazer de tudo para botar água no chope, ou na vodka, dos russos.
O ursinho Misha, mascote
dos Jogos Olímpicos de
Moscou chora no
encerramento: 61 países
boicotaram o evento
em represália à
invasão soviética no
Afeganistão.
            Faltava-lhes um pretexto. E ele veio com a invasão soviética sobre o Afeganistão em 1978. Há muito tempo que o país já era área de influência de Moscou, travando relações desde 1919. Na década de 70, o Afeganistão era governado pelo príncipe Daud, que buscava aproximação com os EUA e a China, mas foi derrubado em 1978 pelo Partido Democrático do Povo Afegão (PDPA), ligado à União Soviética. O Afeganistão sempre foi um país muito pobre e agrário, com a política centralizada na área da capital, Cabul. Este partido pró-soviético entrou em atrito com latifundiários locais e com o clero muçulmanos por questões como a reforma agrária e os direitos das mulheres.
            O PDPA não estava conseguindo impor estas metas ao povo afegão, pois havia forte oposição, inclusive armada das partes já citadas. Foi nesse contexto que a União Soviética decidiu intervir militarmente. Derrubou o governo que a apoiava, mas que não tinha simpatia da população, contudo a guerrilha continuava e os soviéticos permaneceram ocupando a região para manter o Afeganistão sob sua esfera de influência. Os EUA intervieram indiretamente na questão: enviaram dinheiro e armamentos para guerreiros fundamentalistas islâmicos. A luta foi especialmente difícil para a URSS devido ao terreno montanhoso da região. Ao fim, o confronto teve um alto custo para os soviéticos, sendo uma espécie de Vietnã para estes.
            Os russos haviam sido alertados que caso continuassem com a ocupação os Jogos Olímpicos seriam boicotados. Como resposta os EUA e outros sessenta países não enviaram atletas para Moscou. Em represália ao boicote de Moscou, a URSS e outros países do leste europeu boicotaram os Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, alegando falta de segurança para seus atletas. A rigor entre 1952 e 1976, soviéticos e americanos passaram para a Guerra Fria para o esporte. As disputas pelo primeiro lugar no quadro de medalhas entre os dois países eram reflexo do confronto entre os principais países dos blocos socialista e capitalista.