segunda-feira, 30 de julho de 2012

A sociedade mineradora e as suas revoltas


Durante cerca de duzentos anos, os portugueses invejaram os espanhóis quanto às suas colônias na América, por uma razão muito simples: os metais preciosos. Na América Espanhola regiões como os atuais territórios do México e do Peru eram ricas em ouro e prata. Mas no Brasil a realidade era diferente. A economia se limitava a agricultura, principalmente a cana-de-açúcar no nordeste.
Essa situação durou até a virada do século XVII para o XVIII, quando em viagens explorando o sertão adentro, bandeirantes descobriram ouro no rio das Velhas, em Minas Gerais. Esse fato gerou uma verdadeira “corrida do ouro” em direção àquela região. Indivíduos de diversos lugares do reino português foram para lá em busca de riqueza. Neste primeiro momento havia muitas dificuldades pela escassez de alimentos.
Foi nesse contexto que ocorreu a Guerra dos Emboabas, que opôs “paulistas” e “baianos”. As aspas se justificam, afinal São Paulo e Bahia ainda não eram estados constituídos da federação. Nem Brasil havia, mas sim a “América Portuguesa”. Nesse confronto, os paulistas haviam chegado antes à região mineradora e julgavam que lhes cabia a exploração da região. Entre 1707 e 1708 foram registrados diversos conflitos entre esses grupos. Os representantes do governo luso intervieram, apaziguando os ânimos.
Por razões como este conflito, a Coroa portuguesa decidiu que deveria haver representantes de seu poder no local. Afinal, a região também deveria estar sob o controle da Colônia, pois tinha o que os portugueses tanto queriam: o ouro. Criaram-se então, núcleos urbanos, como Vila Rica (atual Ouro Preto), Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo (atual Mariana) São João del Rey e São José del Rey (atual Tiradentes), que foram fundados entre 1709 e 1718. 
Praça Tiradentes na atual cidade de Ouro Preto, antiga Vila Rica:
parte do antigo casario colonial do século XVIII ainda hoje é preservado


Junto disso, montou-se todo um aparato fiscal. Essa tributação por muitas vezes se tornou repressiva e excessiva. Havia dois principais tipos de impostos: o quinto e a capitação. O primeiro destinava 20% de toda produção local ao rei. Para isso foram criadas as Casas de Fundição nas quais o ouro recebia o carimbo real e a parte do monarca era arrecadada.
Esse imposto foi uma causa da Revolta de Vila Rica em 1720. Entre 28 e 29 de junho desse ano, houve um levante de proprietários de minas em Vila Rica. A este levante se aliaram populares, liderados por Filipe dos Santos. Estes passaram a assumir o controle da rebelião e se constituir numa ameaça para a elite local. Mas tropas reais chegaram à cidade em 14 de julho. Filipe dos Santos foi preso, morto, esquartejado e seu corpo, foi exposto em público.
O outro imposto era a capitação, que consistia num tributo sobre cada escravo. A mineração, contudo, passou a decair conforme se aproximava o século XIX. Mas a faina fiscal não diminuiu. Pelo contrário, quando a partir de 1763, o quinto não completava a cota mínima de 100 arrobas, a Coroa portuguesa instituiu a derrama, que obrigava a população local a pagar o que faltava para completar essa quantia. 
Foi a derrama de 1789 uma das principais causas da Inconfidência Mineira. O movimento começou no final de 1788, buscando proclamar, na região mineradora, uma República, inspirada, sobretudo na Independência e na Constituição dos Estados Unidos. Quando a conspiração foi descoberta, os rebeldes foram presos. A maioria foi expulsa do Brasil e um foi condenado à morte: José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes. Muitos tinham contatos com autoridades coloniais. Mas Tiradentes era apenas um comerciante fracassado e alferes do Exército.
Nota-se que tanto a Guerra dos Emboabas como a Revolta de Vila Rica não falavam em Emancipação de Portugal. Tal ideia seria nesse momento histórico. Estas são conhecidas como Revoltas Coloniais ou Nativistas, contra uma determinação ou contra as autoridades locais, mas nunca contra o monarca, ou a favor de uma separação de Portugal.
Liberdade, ainda que tardia:
mesmo que a Incofidência Mineira
não tivesse como objetivo a separação
do Brasil de Portugal, a República
brasileira acabou adotando Tiradentes como
um de seus heróis;
Já a Inconfidência Mineira, pode ser considerada uma Revolta Emancipatória, que despertou certa “consciência nacional”, mesmo que esta tenha sido direcionada apenas para a região da mineração. Claro que esta contou com influências do pensamento iluminista europeu e da Revolução Americana. Ainda assim, deve-se ressaltar que não era a pretensão dos conspiradores a Independência do Brasil, mas das Minas Gerais. Ocorre que a República acabou transformando Tiradentes em herói nacional.
A mineração acabou criando os primeiros grandes meios urbanos no território brasileiro. Ouro Preto, por exemplo, chegou a 20 mil habitantes em 1740. Trouxe, junto consigo, além de mineradores, comerciantes, que formariam uma espécie de pequena burguesia local. Contudo, só prosperaram mesmo aqueles homens proprietários de grandes minas, que tinham muitos escravos. Outra camada privilegiada da sociedade foi a de alguns tropeiros. Estes faziam o contato entre a região mineradora e o resto da Colônia. Os funcionários reais também era privilegiados economicamente.
Na verdade, a grande maioria da população era pobre ou miserável. Os pequenos comerciantes passavam muitas dificuldades, os faiscadores, pequenos mineradores com autonomia também e havia muitos escravos. Se o número de escravos era muito grande, o de alforrias também, pois muitos senhores, durante o declínio da produção aurífera não conseguiram manter seus escravos devido ao tributo da capitação.
Atual cidade de Tiradentes,
antiga São João del Rey:
apesar do ouro e das prováveis
possibilidades de ascensão social,
poucos pertenciam
a alta camada da sociedade mineira.
Apesar de despontar como o primeiro centro urbano do país, de propiciar grandes riquezas pessoais e propiciar a formação de uma intelectualidade local, a região das minas foi um reflexo do resto da Colônia: desigual, dependente e submissa à metrópole portuguesa. Com o tempo e com a escassez do ouro, esta sociedade entrou em rápido declínio. No início do século XIX, a produção aurífera já era bem menor e a população destas cidades também diminuiu. Mesmo assim, a sociedade que surgiu nas minas foi de extrema importância para a interiorização da colonização do Brasil, afinal até aquele momento, a população se restringia à região do litoral.
Bibliografia:                                                                                                      
VERGUEIRO, Laura. Opulência e miséria das Minas Gerais. São Paulo, editora brasiliense, 1981.
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Edusp, 2006

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sobre a Revolução de 23 e fim das disputas coronelistas no RS: “Foi findar com as luta armada /O doutor Getulio Vargas”


É do senso comum afirmar que as coisas no Rio Grande do Sul sempre são dicotômicas, tal qual o Grenal. Talvez seja por que a maior parte da República Velha no estado foi marcada pela disputa entre republicanos e federalistas vindas desde 1893.
Forças borgistas em Passo Fundo.
Crédito da imagem: O tempo e o Rio Grande nas imagens do
Arquivo Histórico do RS.org. Rejane Penna, Porto Alegre, IEL,
Arquivo Histórico do RS, 2011.
Durante anos o republicano Borges de Medeiros se reelegeu ao cargo de presidente do estado (naquele tempo, os governadores eram chamados assim), em eleições onde a fraude parecia ser regra. Até que em 1922, Assis Brasil candidatou-se pela oposição, sendo derrotado. Os anos vinte, contudo, foram marcados por uma crise da pecuária gaúcha. E a maioria dos pecuaristas era composta pelos federalistas.
Esses criadores de gado exigiam que Borges de Medeiros os socorresse economicamente, o que não ocorreu, pois o presidente do estado tinha por princípio uma política econômica voltada para modernização do setor de transportes e industrial.
Tal situação gerou um descontentamento, que aliada às fraudes eleitorais de 1922, gerou o episódio conhecido como Revolução de 1923. De um lado estavam os pecuaristas, juntos de outras parcelas da elite, sendo um confronto entre os “coronéis” do Rio Grande do Sul da época. Assim, os federalistas tinham o apoio dos “democratas” e de “dissidentes republicanos”, lutando sob o nome de “Aliança Libertadora”.
Grupo do apoiadores de Borges de Medeiros.
Crédito da imagem: O tempo e o Rio Grande nas imagens do
Arquivo Histórico do RS.org. Rejane Penna, Porto Alegre, IEL,
Arquivo Histórico do RS, 2011.
O início dos embates deu-se na região noroeste do estado, espalhando-se na direção de Passo Fundo, onde tomou corpo e chegou ao resto do Rio Grande do Sul. A tática adotada pelos opositores de Borges foi sobretudo a de guerrilha e pequenos combates, a fim de minar as forças ligadas ao presidente do estado, que eram mais numerosas. O conflito durou praticamente todo o ano 1923, impossibilitando inclusive, a realização do Campeonato Gaúcho de Futebol.
Os rebeldes se opunham também ao autoritarismo de Borges de Medeiros, herança da sua política positivista, que centralizava o poder nas mãos do Executivo. Queriam uma nova constituição para o Rio Grande do Sul. Acreditavam que teriam o auxílio militar do governo brasileiro, já que Borges de Medeiros não apoiou a candidatura do então presidente, Artur Bernardes. Entretanto, este se limitou a enviar um mediador ao sul, o general Setembrino de Carvalho.
Borges de Medeiros assinando a paz em 1923
no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho
Crédito da imagem: O tempo e o Rio Grande nas imagens do
Arquivo Histórico do RS.org. Rejane Penna, Porto Alegre, IEL,
Arquivo Histórico do RS, 2011.
A querela só foi se resolver em dezembro de 1923, quando foi assinado o Pacto de Pedras Altas. Nele ficou estabelecido que a Constituição seria revisada e que Borges de Medeiros, após se reeleger pela quinta vez, não seria mais candidato. Ou seja, em 1928 o Rio Grande do Sul haveria de ter outro presidente do estado.
E esse outro foi Getúlio Vargas. Antigo correligionário de Borges de Medeiros, o cidadão de São Borja teve habilidade suficiente para unir as elites oligárquicas sul-rio-grandenses em torno de si. Dessa maneira, só havia ele de candidato, formando a Frente Única Rio-grandense, que abrigava tanto o Partido Republicano Rio-grandense como o Partido Libertador, fruto da Aliança Libertadora de 1923. Mesmo esses antigos adversários de Borges pareciam confiar em Vargas, devido ao que alguns chamam de “espírito conciliador” deste.
Eleito em 1928, ficou apenas dois anos no cargo. Nesse governo, além de acabar com as disputas coronelistas, Vargas atendeu as demandas dos pecuaristas e pagou as dívidas do estado. Além disso, criou um banco estatal, o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, ou BERGS, futuro Banrisul.
Dali, Vargas saiu em 1930 para concorrer à presidência da República. Derrotado nas eleições derrubou o então presidente Washington Luís e tomou seu lugar. Permaneceu no cargo até 1945. Impôs sobre o país uma violenta ditadura, com simpatia pelo fascismo, ainda que o Brasil tenha ingressado da Segunda Guerra junto dos aliados.
Getúlio Vargas em 1930
já como presidente
da República
Sobre as diversas lutas estabelecidas no estado do Rio Grande do Sul durante a República velha, o grande compositor, gaúcho de Porto Alegre, nascido no bairro Passo da Areia, Gildo de Freitas, cantou assim: Esta faca prateada/ Que hoje eu mostro pra vocês/ Pois esta em 93/ Naqueles tempos passados/ Quando branco colorado / Pica pau com Maragato/ Com esta faca de prata/ Muitos foram degolados. Os maragatos eram os federalistas, opositores de Borges e os pica-paus, os republicanos. Ainda que em 1893, o presidente da província fosse Julio de Castilhos, a Revolução de 1923 tem as mesmas características da anterior: uma luta entre as oligarquias locais pelo poder.
E o mesma música completa assim a história da faca: Mas depois surgiu um homem
Que ganhou as eleições/ Findo com as revoluções / E deu estudo pra infância/ Coisa de muita importância/ Foi findar com as luta armada/ O doutor Getulio Vargas/ Que acabou com a ignorância
. Aqui percebemos que Gildo elogia a figura de Vargas, porque este uniu as elites gaúchas através de uma política de conciliação, acabando com os conflitos internos. Destaca-se que Gildo de Freitas era notadamente brizolista. E Leonel Brizola entre os anos 50 e 60 era membro do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, fundado por Getúlio Vargas em 1945, e pelo qual voltou ao cargo de presidente da República, democraticamente eleito, em 1954. Ouça a música "Faca Prateada":

A maioria das imagens desta postagem são do livro “O tempo e o Rio Grande nas imagens do Arquivo Histórico do RS”. Se for utilizá-las, é favor dar o devido crédito à obra. Quem se interessar, pode pesquisar por esta e outras imagens no Arquivo Histórico do RS, no prédio do Memorial do RS,  em Porto Alegre, na Praça da Alfândega, ao lado do MARGS.
Bibliografia:
KÜHN, Fábio. Breve história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Leitura XXI, 2004.        
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1990.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A independência e a construção da nação paraguaia


Semana passada o presidente democraticamente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, foi derrubado por um “golpe brando”. Apoiado na constituição, o Congresso Nacional fez o impeachment acusando-o de má administração. Foi um processo que estranhamente durou pouco mais de um dia, uma “crônica de uma morte anunciada”. O Paraguai tem um histórico de golpes e repentinas mudanças na sua história. O próprio processo de emancipação foi marcado por essas situações.
Mapa do Paraguai na América do Sul.
Perceba como o país não tem saída
para o mar, sendo a única opção
o Rio da Prata
A região foi colônia da Espanha e pertencia ao vice-reinado do Prata, com a capital em Buenos Aires. Este se separa da metrópole em maio de 1810, formando uma junta de governo e afastando o vice-rei. Essa junta de Buenos Aires toma medidas radicais e anti-hispânicas, além do propor reformas sócias. Ao mesmo tempo, busca submeter todo vice-reinado do Prata ao seu domínio. Assim, designa Manuel Belgrano, que junto de um exército tentou controlar a região do Paraguai.
Contudo, foi derrotado em Paraguarí e Tacuarí por proprietários de terra paraguaios, que rechaçavam a metrópole espanhola e as pretensões portenhas. Assim, em 17 de maio de 1811, o Paraguai se declara independente dos dois. Mas a história não termina por aqui, pois o panorama iria se modificar em pouco tempo.

Em Assunción forma-se outra junta, da qual faziam parte Fulgencio Yegros, representante dos latifundiários e José Gaspar Rodríguez Francia, filho de um brasileiro, representantes dos pequenos proprietários, os “chacreros”. Em junho do mesmo ano é eleito um congresso com a maioria de latifundiários, que ao aliar-se novamente com Buenos Aires em outubro de 1811, garante a isenção de impostos sobre os produtos paraguaios. Importante lembrar que o país não tem saída para o mar, a única alternativa para escoar os seus produtos é através do rio da Prata, que desemboca justamente da capital argentina.

Apesar disso, no ano seguinte, a isenção fiscal cai. O congresso paraguaio chama Francia, que havia se afastado da junta por discordar dos latifundiários, de volta. Na esfera dessas mudanças, elege-se um novo congresso com a maioria de “chacreros”. Assim, em 21 de outubro de 1813, ocorre uma nova declaração de independência do Paraguai. Para o executivo é escolhido um novo governo, no qual Francia e Yegros se revezavam no poder, com um ano para cada, começando com Francia. Ele decide bater de frente com Buenos Aires, não enviando representantes à Assembleia do Ano XIII. A resposta veio na forma de bloqueio econômico por parte dos portenhos.

José Gaspar Rodríguez Francia

Internamente, em 1814, Francia impõe altos impostos sobre os comerciantes e transforma a exportação em monopólio do Estado. Assim, a elite tanto de grandes proprietários de terra, como de comerciantes se viu prejudicada e alijada da política.

Outra medida sua foi a implementação de um Estado laico no Paraguai, ao limitar as atividades do Clero, acabar com a Inquisição (sim, ela ainda existia nas antigas colônias da Espanha) e estatizar as terras da Igreja para uma futura reforma agrária. Essa separação do Estado da Igreja era única na América Latina. Curioso, se lembrarmos que o presidente recém deposto, Fernando Lugo, foi bispo antes de assumir o cargo.

Francia se declarou Ditador Perpétuo em 1814 e governou o país até 1840, quando da sua morte. Com a eliminação da elite oligárquica e da Igreja, pode aumentar seus poderes, contando com o apoio dos pequenos proprietários. Seu governo deu início a uma política de isolamento com o restante da América, que culminou na Guerra do Paraguai.

Hoje, muito em virtude desse conflito, o Paraguai é um país subdesenvolvido, com graves problemas sociais. A instabilidade política também se dá, em grande parte, graças a isso. Por outro lado, o país por estar próxima ao Brasil e à Argentina, sofre em certa parte a influência de ambos, e costuma se prejudicado nessa equação. Durante a ditadura de Stroessner, por exemplo, foi construída a hidrelétrica de Itaipu, junto com o governo brasileiro. Pelo menos, Brasil e Argentina não se mostraram favoráveis à derrubada de Lugo. Resta saber se isto vai repercutir de alguma maneira positiva junto ao pobre povo paraguaio. 

Uma característica importante do Paraguai é a presença da etnia indígena dos guarani. Inclusive, o guarani ainda hoje, é um dos seus idiomas oficiais. É um dos raros países latinoamericanos que se orgulha das raízes indígenas e as inseriu no processo de construção da nação.

Bibliografia:
GUAZZELI. Cesar Augusto Barcellos. “A crise do sistema colonial e o processo de independência”. In: WASSERMAN. Cláudia. A História da América Latina: Cinco séculos. Porto Alegre, Editora da Universidade/UFRGS, 2000.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A grande aventura de Alexandre


Mosaico encontrado em Pompeia
representando Alexandre
e seu cavalo Bucéfalo
Hoje, 13 de junho, é data de aniversário de morte de Alexandre, o Grande. Como rei da Macedônia, conquistou uma grande faixa de terra que ia da Grécia até a Índia. Fundou diversas cidades com seu nome: “Alexandria”. Indubitavelmente deixou seu nome registrado na História. O papel do indivíduo na História já foi largamente debatido. É célebre a frase de um alemão de nome Karl Marx “os homens fazem a História, mas em condições que não foram por eles escolhidas”. Apesar de não ser fã do seu Marx, acho bastante interessante essa sua consideração.

Vamos então ao contexto: a Macedônia se localizava nos limites entre os territórios gregos e os persas, o que os levava a ter uma grande rivalidade contra estes últimos, uma vez que se viam como uma das cidades-estados da Grécia. Seu governo era dirigido por uma aristocracia local, que em 359 a.C. escolheu Felipe como seu rei. Ele exerceu domínio sobre a Grécia não apenas pela força militar, apesar de ter conquistado importantes cidades como Atenas. Seu controle sobre a região deve-se também à “liga de Corinto”, fundada em 337 a.C., que unia várias cidades-estados em torno da Macedônia contra os persas.

Busto de Alexandre
Mas Felipe foi assassinado no ano seguinte. Seu filho, Alexandre, o sucedeu tanto no trono da Macedônia como na liderança da liga de Corinto. Em dois anos de poder coquistou partes da Grécia que ainda estavam sob domínio do rei persa, Dario. Em 332 a.C., tomou Sídon e Tiro dos rivais persas. Continuou com o expansionismo macedônico e, no ano seguinte, invadiu o Egito. Volta a atacar os persas e os derrota de vez em outubro de 331 a.C., conquistando Babilônia, Susa e Persepólis, a capital do império.

Mesmo após vencer os antigos inimigos, Alexandre não esmaeceu. Seguiu com seu exército em direção à Índia, onde chegou em 325 a.C. Dali, retornou para a Babilônia em 323 a.C., ano da sua morte. Quando morreu, planejava uma nova expedição militar rumo à Arábia.
Os domínios de Alexandre foram divididos entre seus generais, que disputaram o poder entre eles. Antípatro ficou com a Macedônia; Lisímaco, com a Trácia; a Ptolomeu coube o Egito, dando início a uma dinastia real que só acabou com Cleópatra, quando os romanos invadiram a região; e Antígono, o Zarolho (que beleza de apelido) obteve a Magna-Frígia e Lícia-Panfília. O Zarolho ainda tentou retomar a grandeza das conquistas de Alexandre, mas sem consegui-lo.
Mapa das conquistas de Alexandre (em tom mais claro)

Uma das razões do sucesso de Alexandre foi a sua habilidade em manter as culturas locais dos povos conquistados, combinando-as com a grega. Expandiu a Grécia com suas conquistas, ampliando o mundo grego, dando origem ao helenismo. Contudo, não conseguiu construir um sistema político estável, tanto que suas conquistas se esfacelaram após sua morte, nem trouxe maiores alterações na economia.

Alexandre, a rigor, apesar da expansão, não chegou a manter um Império. Entendo mais como uma aventura com consequências para Ásia, Egito e Grécia. Ou seja, em vida, Alexandre fez muita fumaça, mas pouco fogo. Suas conquistas não mudaram muito o panorama político e econômico de sua época.

As consequências de seus atos foram mais importantes do que os atos em si. Sua expansão decretou o fim do Período Clássico da História Grega e deu início ao Período Helenístico, marcado pela relação entre gregos e aqueles considerados “bárbaros”. Ou antes, pela influência exercida pela cultura grega sobre povos que eram considerados “bárbaros”.

Recentemente, em 2004, Oliver Stone filmou “Alexandre”, que é uma porcaria. Parece que esse diretor nunca mais acertou depois de “Platoon” e “JFK”. Ninguém gostou do filme ruim, longo e chato. A obra ainda traz uma polêmica desnecessária: a da relação de Alexandre com outros homens.

Na Grécia, conforme o francês Michel Foucault, a homossexualidade não existia. Pelo menos com essa palavra. Ela provavelmente foi criada a partir do século XIX, como uma maneira de regrar as relações sexuais. Para os gregos, as relações carnais com outros homens não eram mal vistas, não eram entendidas como um problema. A passividade do homem adulto não era aceita, mas a relação entre um sábio e um aprendiz era vista como parte de um processo entre um mestre e seu pupilo. Acho que Oliver Stone, ao apresentar as relações de Alexandre com outros homens como se fossem um “problema”, ou uma “polêmica” escorrega feio no anacronismo e no preconceito.

Bibliografia:
MOSSÉ, Claude. e SCHNAPP-GOURBEILLON. Annie. Síntese de História Grega. Lisboa, Edições Asa, Lisboa, 1994.
MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Várias edições.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade II – o uso dos prazeres. Rio de Janeiro, Graal editora.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

God Save the Queen – A Coroa Inglesa


God Save the Queen: em 1977
os Sex Pistols resolveram "avacalhar"
com o jubileu de prata de rainha
Nessa semana celebra-se o jubileu de diamante da rainha da Inglaterra, Elizabeth II que está no cargo há sessenta anos. Hoje tida como uma figura meramente ilustrativa, o monarca inglês já foi o chefe absoluto do Estado. E a história da Inglaterra se confunde com a história da sua monarquia.

A história do poder nas mãos do rei pode ser contada desde o período medieval. A invasão normanda comandada por Guilherme, o bastardo, de 1066, que, com a batalha de Hastings dominou a ilha, deu início a uma monarquia centralizada, sobretudo a partir do governo de Henrique I em 1110.

O problema é que a nobreza inglesa era muito forte, como ficou evidente na assinatura da “Carta Magna” em 1215, pelo rei João Sem Terra (sim, as alcunhas são um show a parte: bastardo, sem terra, tudo muito polido, muito inglês...). Ela limitava o poder real, criando o “Grande Conselho”, que no futuro viria a ser o “Parlamento”. O monarca só foi restaurar sua força em 1272, com o rei Eduardo I, que contava com o apoio tanto dos nobres como da Igreja.

No século XIV, a Inglaterra já era o Estado cristão mais maduro e estável, o que garantiu certo sucesso na Guerra dos Cem Anos, contra os franceses. Esta, aliás, atendeu as demandas de uma nobreza local belicosa e agressiva.

O poder da nobreza na Inglaterra só decaiu na Guerra das Rosas, entre 1455 e 1485. Foi um conflito entre duas famílias, York e Lancaster, disputando o trono inglês. Contudo, ao final do embate, uma terceira dinastia acabou se prevalecendo: a dos Tudor.

Rei Henrique VIII: muitos
casamentos, mas pouca
competência administrativa
Teve início com Henrique VIII, o mesmo que brigou com o papa Clemente VII por questões matrimoniais e acabou criando uma igreja própria, a Anglicana. Mas seu reinado foi importante por outros motivos: ao mesmo tempo em que aumentou seu poder, fazendo inclusive uso do parlamento para isso, a representatividade da Inglaterra no plano internacional decaiu muito, sobretudo com o crescimento da Espanha e de Portugal.

A situação só foi começar a reverter com o reinado de uma filha sua, Elizabeth I, de 1558 a 1603. Os antecessores dessa rainha, Eduardo VI e Maria Tudor, a sanguinária (as belas alcunhas ainda), enfrentaram governos muito conflituosos. Esta última ensaiou um retorno ao catolicismo. Elizabeth I conseguiu se impor sobre toda a Grã-Bretanha, que incluía a Irlanda.

Rainha Elizabeth II:
a consolidação
do poder real
e da Inglaterra como
"senhora dos mares".
No entanto, seu maior êxito foi contra a Espanha pelo controle marítimo. A pirataria dos corsários (ladrões do mar contratados pela Coroa Inglesa) sobre os navios espanhóis que circulavam pela costa da América foi corroendo parte da frota do rei hispânico, Felipe II, assim como parte de suas finanças. A vitória dos ingleses sobre a “Invencível Armada”, que em 1588, além de repelir a tentativa de invasão espanhola sobre a ilha, ainda afundou a frota espanhola. Assim, a Inglaterra se tornou a nova senhora dos mares.

Com base nisso, o poder inglês no plano mundial cresceu muito e sua monarquia deveria se consolidar. Mas não foi o que ocorreu. Como Elizabeth I não deixou descendentes, após sua morte teve início a dinastia Stuart. Esta era originária da Escócia, o que vinculava de vez este território com a Inglaterra. Foi uma dinastia sobretudo instável, que tentou impor a realeza absolutismo, dando pouca ênfase para os parlamentos, o que a prejudicou. Tanto Jaime I, como Carlos I se mostraram um tanto quanto ineptos para a tarefa de governar e lidar com a nobreza.

Foram justamente estes governos personalistas que entraram em confronto com aquela que deveria ser aliada dos monarcas: a nobreza. Sobretudo pela pequena nobreza, e pela nobreza que enriquecia com o comércio, conhecida como gentry. A eclosão de uma guerra civil, antecedida por uma derrota inglesa perante os escoceses na tentativa de lhes impor o anglicanismo escancarou a fragilidade da monarquia inglesa.

Dessa maneira, o Parlamento se opôs a Carlos I e delegou o comando das suas tropas a Oliver Cromwell, que, saindo vitorioso, impôs uma ditadura republicana entre os anos de 1645 e 1658. O rei acabou sendo decapitado. Após a morte de Cromwell, houve um curto retorno do absolutismo monárquico com a restauração dos Stuart no poder através de Carlos II. Contudo, como este tentou resgatar a centralização e o controle quase total do Estado, teve forte oposição interna. Seu sucessor, Jaime II, foi facilmente derrubado pela nobreza insatisfeita com a redução dos poderes do Parlamento e pela burguesia ascendente em 1688. Já não era mais possível aos ingleses retroceder: o absolutismo monárquico tinha ido por água abaixo, um rei autoritário não era mais tolerado naquela altura da história inglesa.

Com esse movimento, conhecido como Revolução Gloriosa, o absolutismo inglês teve seu final. Mas não foi o fim da monarquia nesse país. O Parlamento convocou Guilherme, da dinastia holandesa de Orange, para ser o próximo rei. Mas com poderes extremamente limitados. Ele foi obrigado a jurar a Bill of Rigths, que confiava o controle do Estado ao Parlamento.

Por isso que hoje a figura da rainha é meramente de chefe de Estado e não de governo. A monarquia permanece como se fosse uma decoração sem muita utilidade e que provoca despesas para os cofres públicos. Mesmo assim, grande parte da população inglesa adora a família real e tudo o que envolve a vida de seus membros.

Diversas homenagens já foram feitas para a rainha Elizabeth II. Para mim, a melhor de todas veio da banda punk inglesa “Sex Pistols”, com a música “God Save the Queen”, homônima do Hino Nacional Britânico. Lançada em 1977 durante o Jubileu de Prata, nos vinte e cinco anos de seu reinado, a letra diz: “God Save the Queen/ her fascist regime”, Deus salve a rainha/seu regime fascista”. A música era tão violenta e provocativa, que chegou a ser proibida nas rádios da BBC. Ela parecia, naquele momento, traduzir o sentimento de insatisfação de uma parcela da população inglesa, mais pobre, que assistia “bestializada” aos festejos enquanto passava por necessidades econômicas decorrentes da crise do capitalismo de meados dos anos 70. O niilismo da canção era tão grande que no final diz “there is no future for you...no future for me”, não há futuro para ti, não há futuro para mim.

Seria interessante saber como, na atual crise, os ingleses viram o Jubileu de Diamante. Pena que não tem nenhum Sex Pistols para meter o pé na porta e reclamar de tudo... Escuta em a música aí embaixo:


Bibliografia:
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru (SP), Edusc, 2005.
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo, Ed. Brasiliense,1985.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A luta no Zaire


Final do combate entre Ali e Foreman,
com este último nocauteado
Em 1974 ocorreu uma das mais espetaculares lutas de boxe da História. Os maiores pugilistas peso-pesados da época, Mohamed Ali e George Foreman se confrontaram em Kinshasa no então Zaire sob os olhos de milhões de telespectadores. O Zaire, hoje conhecido como República Democrática do Congo era governado de forma ditatorial por Mobutu, que não foi ao evento ocorrido em um estádio local com medo de ser morto.
Congo foi o nome que os colonizadores belgas deram para a região. Em 1886, após a Conferência de Berlim, que dividiu o continente africano entre as nações europeias (sim, a África foi dividida arbitrariamente entre os europeus), o Congo se tornou propriedade privada do rei da Bélgica, Leopoldo II. Os belgas investiram um alto capital, explorando minérios e grandes plantações para fabricação de borracha através de monopólios da metrópole geralmente assumidos por indústrias.
Trabalhadores africanos - vindos
de Ruanda -
numa mina no Congo nos anos 20
 A colonização do Congo pela Bélgica deve ser inserida no contexto do “imperialismo”, ou seja, a expansão europeia em direção à África e Ásia, retomando as piores características da colonização da América. Assim como no resto do continente, o domínio dos belgas sobre o Congo também foi marcado por atrocidades e pela violência perante as populações nativas.
Estas eram submetidas a um “paternalismo excludente” que as mantinham inferiorizadas perante os europeus. Por exemplo: aos africanos não era permitido que estudassem além do nível primário, que corresponderia ao nosso Ensino Fundamental. Também lhes era proibido frequentar os mesmo círculos sociais que os belgas.
A situação do Congo só foi mudar nos anos 50 do século XX. Ao mesmo tempo em que a Bélgica começava a pensar na possibilidade de independência, os congoleses começam com seus movimentos nacionalistas. Havia dois principais: o ABAKO, liderado por Joseph Kasavube e o Movimento Nacional Congolês (MNC), liderado por Patrice Lumumba. Este último tinha uma ideia de um país unificado, ao contrário do ABAKO que previa uma separação entre as etnias locais.
Patrice Lumumba
Em 1959 os belgas abandonaram o Congo e a sua emancipação foi declarada no ano seguinte. As eleições no novo país escolhem Kasavubu como presidente e Lumumba como primeiro-ministro. Mas as diversas etnias aliadas às diferenças de desenvolvimento de cada região geraram uma violenta guerra civil. Surgem movimentos separatistas como o de Moises Tschombé, aliado de transnacionais europeias, que proclama a independência da província de Katanga.
O conflito teve repercussão no poder do país. Lumumba foi derrubado em setembro de 1960, sendo assassinado no ano seguinte. O caos se instala. No ano seguinte, a ONU reintegra Katanga e Tschombé foge. Mas quando as forças de paz deixam o Congo ele volta e assume e como primeiro-ministro.
Em 1965, Mobutu, que havia sido o responsável pela prisão e morte de Lumumba, dá um golpe de estado, assume a presidência e centraliza o poder. O nome do país é mudado de Congo para Zaire, uma denominação anterior ao domínio belga. No entanto, a nova nação continuava dependendo do capital internacional ligado aos interesses econômicos ocidentais, tal qual na época colonial.
Claro que a luta entre Ali e Foreman foi em parte patrocinada por Mobutu na expectativa de aumentar sua popularidade. Soma-se a isso a defesa dos direitos dos afrodescendentes nos EUA contra o segregacionismo racial, a qual Ali apoiava. Não esquecer que o cinturão de campeão dos pesos-pesados lhe foi retirado por ter se recusado a ir ao Vietnã, “lutar contra os vietcongues”. Conforme Ali: "Nenhum vietcongue me chamou de crioulo, porque eu lutaria contra ele?". Ele foi o desafiante de Foreman e o luta ser na África também está ligado ao combate contra o racismo da parte de Mohamed Ali.
Mobutu
A luta está registrado no documentário “Quando éramos reis” (no original When we were kings) do diretor Leon Gast, lançado somente em 1996. Nele pode-se perceber, além da atmosfera da luta, a situação social de miséria do povo do Zaire. As cicatrizes do regime imperialista belga pode ser notada também, quando, por exemplo, George Foreman desembarca do avião com dois pastores alemães, cães que eram usados pelas forças militares dos colonizadores para oprimir manifestações da população nativa.
Mobutu exerceu um governo extremamente personalista, institucionalizando a política nacional em torno de si. De certo modo ele tirou o país do caos depois da guerra civil dos anos 60, mas com um regime ditatorial. Em síntese, o governo era monopólio dele. A ditadura de Mobutu ainda durou longos anos. Ele só foi cair em 1996, quando a Aliança das Forças Democráticas para a Libertação do Zaire, uma milícia liderada por Laurent Kabila avançou pelo país até Kinshasa, destituindo Mobutu. O país trocou novamente de nome para República Democrática do Congo, mas as mudanças foram pequenas. O controle da mineração, principal fonte de produção nacional, apenas passou das mãos de empresas europeias para norte-americanas. Apesar do território congolês ter recursos minerais e naturais em abundância, grande parte de sua população vive na miséria. Veja o trailler do filme "Quando éramos reis":

Bibliografia:

VISENTINI, Paulo Fagundes. RIBEIRO, Luiz Dario. PEREIRA, Analucia Danilevicz. Breve história da África. Porto Alegre, Leitura XXI, 2007.

Mazrui. Ali A. Mazrui e Wondji. Christophe. História geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília, UNESCO, 2010. Disponível para download.
LINHARES, Maria Yeda. A luta contra a metrópole (Ásia e África). São Paulo, Brasiliense, 1981.