quarta-feira, 6 de junho de 2012

God Save the Queen – A Coroa Inglesa


God Save the Queen: em 1977
os Sex Pistols resolveram "avacalhar"
com o jubileu de prata de rainha
Nessa semana celebra-se o jubileu de diamante da rainha da Inglaterra, Elizabeth II que está no cargo há sessenta anos. Hoje tida como uma figura meramente ilustrativa, o monarca inglês já foi o chefe absoluto do Estado. E a história da Inglaterra se confunde com a história da sua monarquia.

A história do poder nas mãos do rei pode ser contada desde o período medieval. A invasão normanda comandada por Guilherme, o bastardo, de 1066, que, com a batalha de Hastings dominou a ilha, deu início a uma monarquia centralizada, sobretudo a partir do governo de Henrique I em 1110.

O problema é que a nobreza inglesa era muito forte, como ficou evidente na assinatura da “Carta Magna” em 1215, pelo rei João Sem Terra (sim, as alcunhas são um show a parte: bastardo, sem terra, tudo muito polido, muito inglês...). Ela limitava o poder real, criando o “Grande Conselho”, que no futuro viria a ser o “Parlamento”. O monarca só foi restaurar sua força em 1272, com o rei Eduardo I, que contava com o apoio tanto dos nobres como da Igreja.

No século XIV, a Inglaterra já era o Estado cristão mais maduro e estável, o que garantiu certo sucesso na Guerra dos Cem Anos, contra os franceses. Esta, aliás, atendeu as demandas de uma nobreza local belicosa e agressiva.

O poder da nobreza na Inglaterra só decaiu na Guerra das Rosas, entre 1455 e 1485. Foi um conflito entre duas famílias, York e Lancaster, disputando o trono inglês. Contudo, ao final do embate, uma terceira dinastia acabou se prevalecendo: a dos Tudor.

Rei Henrique VIII: muitos
casamentos, mas pouca
competência administrativa
Teve início com Henrique VIII, o mesmo que brigou com o papa Clemente VII por questões matrimoniais e acabou criando uma igreja própria, a Anglicana. Mas seu reinado foi importante por outros motivos: ao mesmo tempo em que aumentou seu poder, fazendo inclusive uso do parlamento para isso, a representatividade da Inglaterra no plano internacional decaiu muito, sobretudo com o crescimento da Espanha e de Portugal.

A situação só foi começar a reverter com o reinado de uma filha sua, Elizabeth I, de 1558 a 1603. Os antecessores dessa rainha, Eduardo VI e Maria Tudor, a sanguinária (as belas alcunhas ainda), enfrentaram governos muito conflituosos. Esta última ensaiou um retorno ao catolicismo. Elizabeth I conseguiu se impor sobre toda a Grã-Bretanha, que incluía a Irlanda.

Rainha Elizabeth II:
a consolidação
do poder real
e da Inglaterra como
"senhora dos mares".
No entanto, seu maior êxito foi contra a Espanha pelo controle marítimo. A pirataria dos corsários (ladrões do mar contratados pela Coroa Inglesa) sobre os navios espanhóis que circulavam pela costa da América foi corroendo parte da frota do rei hispânico, Felipe II, assim como parte de suas finanças. A vitória dos ingleses sobre a “Invencível Armada”, que em 1588, além de repelir a tentativa de invasão espanhola sobre a ilha, ainda afundou a frota espanhola. Assim, a Inglaterra se tornou a nova senhora dos mares.

Com base nisso, o poder inglês no plano mundial cresceu muito e sua monarquia deveria se consolidar. Mas não foi o que ocorreu. Como Elizabeth I não deixou descendentes, após sua morte teve início a dinastia Stuart. Esta era originária da Escócia, o que vinculava de vez este território com a Inglaterra. Foi uma dinastia sobretudo instável, que tentou impor a realeza absolutismo, dando pouca ênfase para os parlamentos, o que a prejudicou. Tanto Jaime I, como Carlos I se mostraram um tanto quanto ineptos para a tarefa de governar e lidar com a nobreza.

Foram justamente estes governos personalistas que entraram em confronto com aquela que deveria ser aliada dos monarcas: a nobreza. Sobretudo pela pequena nobreza, e pela nobreza que enriquecia com o comércio, conhecida como gentry. A eclosão de uma guerra civil, antecedida por uma derrota inglesa perante os escoceses na tentativa de lhes impor o anglicanismo escancarou a fragilidade da monarquia inglesa.

Dessa maneira, o Parlamento se opôs a Carlos I e delegou o comando das suas tropas a Oliver Cromwell, que, saindo vitorioso, impôs uma ditadura republicana entre os anos de 1645 e 1658. O rei acabou sendo decapitado. Após a morte de Cromwell, houve um curto retorno do absolutismo monárquico com a restauração dos Stuart no poder através de Carlos II. Contudo, como este tentou resgatar a centralização e o controle quase total do Estado, teve forte oposição interna. Seu sucessor, Jaime II, foi facilmente derrubado pela nobreza insatisfeita com a redução dos poderes do Parlamento e pela burguesia ascendente em 1688. Já não era mais possível aos ingleses retroceder: o absolutismo monárquico tinha ido por água abaixo, um rei autoritário não era mais tolerado naquela altura da história inglesa.

Com esse movimento, conhecido como Revolução Gloriosa, o absolutismo inglês teve seu final. Mas não foi o fim da monarquia nesse país. O Parlamento convocou Guilherme, da dinastia holandesa de Orange, para ser o próximo rei. Mas com poderes extremamente limitados. Ele foi obrigado a jurar a Bill of Rigths, que confiava o controle do Estado ao Parlamento.

Por isso que hoje a figura da rainha é meramente de chefe de Estado e não de governo. A monarquia permanece como se fosse uma decoração sem muita utilidade e que provoca despesas para os cofres públicos. Mesmo assim, grande parte da população inglesa adora a família real e tudo o que envolve a vida de seus membros.

Diversas homenagens já foram feitas para a rainha Elizabeth II. Para mim, a melhor de todas veio da banda punk inglesa “Sex Pistols”, com a música “God Save the Queen”, homônima do Hino Nacional Britânico. Lançada em 1977 durante o Jubileu de Prata, nos vinte e cinco anos de seu reinado, a letra diz: “God Save the Queen/ her fascist regime”, Deus salve a rainha/seu regime fascista”. A música era tão violenta e provocativa, que chegou a ser proibida nas rádios da BBC. Ela parecia, naquele momento, traduzir o sentimento de insatisfação de uma parcela da população inglesa, mais pobre, que assistia “bestializada” aos festejos enquanto passava por necessidades econômicas decorrentes da crise do capitalismo de meados dos anos 70. O niilismo da canção era tão grande que no final diz “there is no future for you...no future for me”, não há futuro para ti, não há futuro para mim.

Seria interessante saber como, na atual crise, os ingleses viram o Jubileu de Diamante. Pena que não tem nenhum Sex Pistols para meter o pé na porta e reclamar de tudo... Escuta em a música aí embaixo:


Bibliografia:
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru (SP), Edusc, 2005.
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo, Ed. Brasiliense,1985.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A luta no Zaire


Final do combate entre Ali e Foreman,
com este último nocauteado
Em 1974 ocorreu uma das mais espetaculares lutas de boxe da História. Os maiores pugilistas peso-pesados da época, Mohamed Ali e George Foreman se confrontaram em Kinshasa no então Zaire sob os olhos de milhões de telespectadores. O Zaire, hoje conhecido como República Democrática do Congo era governado de forma ditatorial por Mobutu, que não foi ao evento ocorrido em um estádio local com medo de ser morto.
Congo foi o nome que os colonizadores belgas deram para a região. Em 1886, após a Conferência de Berlim, que dividiu o continente africano entre as nações europeias (sim, a África foi dividida arbitrariamente entre os europeus), o Congo se tornou propriedade privada do rei da Bélgica, Leopoldo II. Os belgas investiram um alto capital, explorando minérios e grandes plantações para fabricação de borracha através de monopólios da metrópole geralmente assumidos por indústrias.
Trabalhadores africanos - vindos
de Ruanda -
numa mina no Congo nos anos 20
 A colonização do Congo pela Bélgica deve ser inserida no contexto do “imperialismo”, ou seja, a expansão europeia em direção à África e Ásia, retomando as piores características da colonização da América. Assim como no resto do continente, o domínio dos belgas sobre o Congo também foi marcado por atrocidades e pela violência perante as populações nativas.
Estas eram submetidas a um “paternalismo excludente” que as mantinham inferiorizadas perante os europeus. Por exemplo: aos africanos não era permitido que estudassem além do nível primário, que corresponderia ao nosso Ensino Fundamental. Também lhes era proibido frequentar os mesmo círculos sociais que os belgas.
A situação do Congo só foi mudar nos anos 50 do século XX. Ao mesmo tempo em que a Bélgica começava a pensar na possibilidade de independência, os congoleses começam com seus movimentos nacionalistas. Havia dois principais: o ABAKO, liderado por Joseph Kasavube e o Movimento Nacional Congolês (MNC), liderado por Patrice Lumumba. Este último tinha uma ideia de um país unificado, ao contrário do ABAKO que previa uma separação entre as etnias locais.
Patrice Lumumba
Em 1959 os belgas abandonaram o Congo e a sua emancipação foi declarada no ano seguinte. As eleições no novo país escolhem Kasavubu como presidente e Lumumba como primeiro-ministro. Mas as diversas etnias aliadas às diferenças de desenvolvimento de cada região geraram uma violenta guerra civil. Surgem movimentos separatistas como o de Moises Tschombé, aliado de transnacionais europeias, que proclama a independência da província de Katanga.
O conflito teve repercussão no poder do país. Lumumba foi derrubado em setembro de 1960, sendo assassinado no ano seguinte. O caos se instala. No ano seguinte, a ONU reintegra Katanga e Tschombé foge. Mas quando as forças de paz deixam o Congo ele volta e assume e como primeiro-ministro.
Em 1965, Mobutu, que havia sido o responsável pela prisão e morte de Lumumba, dá um golpe de estado, assume a presidência e centraliza o poder. O nome do país é mudado de Congo para Zaire, uma denominação anterior ao domínio belga. No entanto, a nova nação continuava dependendo do capital internacional ligado aos interesses econômicos ocidentais, tal qual na época colonial.
Claro que a luta entre Ali e Foreman foi em parte patrocinada por Mobutu na expectativa de aumentar sua popularidade. Soma-se a isso a defesa dos direitos dos afrodescendentes nos EUA contra o segregacionismo racial, a qual Ali apoiava. Não esquecer que o cinturão de campeão dos pesos-pesados lhe foi retirado por ter se recusado a ir ao Vietnã, “lutar contra os vietcongues”. Conforme Ali: "Nenhum vietcongue me chamou de crioulo, porque eu lutaria contra ele?". Ele foi o desafiante de Foreman e o luta ser na África também está ligado ao combate contra o racismo da parte de Mohamed Ali.
Mobutu
A luta está registrado no documentário “Quando éramos reis” (no original When we were kings) do diretor Leon Gast, lançado somente em 1996. Nele pode-se perceber, além da atmosfera da luta, a situação social de miséria do povo do Zaire. As cicatrizes do regime imperialista belga pode ser notada também, quando, por exemplo, George Foreman desembarca do avião com dois pastores alemães, cães que eram usados pelas forças militares dos colonizadores para oprimir manifestações da população nativa.
Mobutu exerceu um governo extremamente personalista, institucionalizando a política nacional em torno de si. De certo modo ele tirou o país do caos depois da guerra civil dos anos 60, mas com um regime ditatorial. Em síntese, o governo era monopólio dele. A ditadura de Mobutu ainda durou longos anos. Ele só foi cair em 1996, quando a Aliança das Forças Democráticas para a Libertação do Zaire, uma milícia liderada por Laurent Kabila avançou pelo país até Kinshasa, destituindo Mobutu. O país trocou novamente de nome para República Democrática do Congo, mas as mudanças foram pequenas. O controle da mineração, principal fonte de produção nacional, apenas passou das mãos de empresas europeias para norte-americanas. Apesar do território congolês ter recursos minerais e naturais em abundância, grande parte de sua população vive na miséria. Veja o trailler do filme "Quando éramos reis":

Bibliografia:

VISENTINI, Paulo Fagundes. RIBEIRO, Luiz Dario. PEREIRA, Analucia Danilevicz. Breve história da África. Porto Alegre, Leitura XXI, 2007.

Mazrui. Ali A. Mazrui e Wondji. Christophe. História geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília, UNESCO, 2010. Disponível para download.
LINHARES, Maria Yeda. A luta contra a metrópole (Ásia e África). São Paulo, Brasiliense, 1981.

terça-feira, 8 de maio de 2012

“... um sandinista especialista em granada de mão”


Já me referi aqui à banda britânica The Clash. Muitas de suas músicas têm um forte cunho político. Em 1980 foi lançado o álbum “Sandinista!”. O título homenageia o movimento guerrilheiro nicaraguense. Aqui no rock gaúcho The Clash e a Nicarágua também tiveram sua influência: Jimi Joe compôs e Os Replicantes gravaram “Sandina”. É a história de um cara abandonado pela mulher que foi lutar ao lado do sandinismo na Nicarágua. A letra é uma preciosidade, escute a versão de Jimi Joe:

Sábado todo/eu chorei de mágoa/ minha garota/foi pra Manágua.
A Nicarágua (que tem em Manágua a sua capital), assim como grande parte da América Central foi por muito tempo um “quintal” dos EUA. Desde o início do século XX os ianques implementaram a política do “big stick” sobre o continente, que se baseava no direito de usar a força para intervir em conflitos ou posições que lhes fossem contrárias. A relação dos EUA com a América Central se assemelha muito com o neocolonialismo, ou imperialismo britânico sobre Ásia e África. Assim, em 1912 o exército norte-americano invade o país em contrapartida de uma rebelião popular.
Sandino
Em 1927, a Nicarágua é novamente vítima de um ataque de Washington. Mas dessa vez, os nicaraguenses resistiram. Liderados por Augusto Cesar Sandino, um camponês pobre, montam uma guerrilha que trava as pretensões americanas e das elites que comandavam o país. Lutando contra o governo do então presidente Jose Maria Moncada, que era apoiado pelos EUA, Sandino obteve importantes vitórias militares. Em princípio defendiam um nacionalismo e contra a intervenção estrangeira, com o tempo contaram inclusive com o apoio das esquerdas. A luta da guerrilha durou até 1934 quando Sandino foi morto a mando de Anastácio Somoza García, apelidado de Tacho.
Este último viria a ser o próximo presidente do país, em 1937. Passou a perseguir os guerrilheiros, desarticulando a oposição. A reorganização sandinista só voltou na virada da década de 50 para 60, com as propostas de um sistema social igualitário, reforma agrária e o direito de todos as trabalho. Se formava a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). Mas a família Somoza mantinha o poder através de Anastácio Somoza Debayle, Tachito, filho de Tacho. A repressão aos sandinistas é mais uma vez muito violenta, sobretudo pela Guarda Nacional, espécie de exército defensor do governo.
A oligarquia Somoza governava a Nicarágua, tal quais outras oligarquias controlavam a América Central com o apoio americano. Mas o governo de Jimmy Carter eleito em 1976 tentou mudar esse panorama, buscando uma política de “direitos humanos”, se opondo a ditaduras para afastar a face de “império americano” que Nixon e outros antecessores haviam construído. Parou de enviar armas para a Nicarágua e cortou o apoio oficial por não ver em Somoza um bom aliado na América Central.

Lutar pela revolução... ela me deixou/me trocou/ por um sandinista especialista/ em granada de mão.
Durante os anos setenta, cansados da manutenção dos Somoza no poder a população passa a aderir aos sandinistas, apesar das perseguições da Guarda Nacional. Em 1978 os guerrilheiros realizam um ataque ao Palácio Nacional que com vinte e cinco pessoas fazem 1500 reféns. No ano seguinte, as ações aumentam e se dá a “Revolução Sandinista”.
No início do ano, os guerrilheiros conquistam importantes cidades no norte do país. Na Semana Santa, Estelí uma das maiores cai nas mãos dos sandinistas. A FSLN conquistava importantes posições no país e ganhava amplo apoio da população. Sua combinação de marxismo com nacionalismo anti-imperialista e Teologia da Libertação mobilizava as massas. Não esquecendo que o marxismo está ligado à luta revolucionário pelo comunismo e a Teologia da Libertação é um movimento católico que combina religião com a luta contra injustiças sociais.
Bandeira dos sandinistas
Mesmo que os EUA não apoiassem oficialmente Somoza, mercenários americanos faziam parte das forças paramilitares que reprimiam a revolta. Destaca-se também empréstimo do FMI para a Nicarágua no período. Os sandinistas, por sua vez recebiam apoio estrangeiro, como da Costa Rica, Venezuela e Cuba. Os meses de junho e julho foram decisivos. Na capital Manágua, foram montadas barricadas da população contra o governo. Uma greve geral foi declarada e o país parou. Os sandinistas já haviam controlado a maior parte da Nicarágua. Assim, Somoza renuncia e foge em 17 de julho de 1979. Seu líder no Legislativo esboça uma reação, dizendo que iria assumir o governo, mas também foge. Os sandinistas haviam vencido a revolução.
Forma-se uma Junta Provisória para o governo, que enfrenta inúmeros problemas econômicos, porque a luta havia consumido muito dinheiro e país deveria ser reconstruído, o que envolveria altos gastos. Mesmo com o apoio financeiro de Cuba e da URSS, interessada em ter na Nicarágua um aliado, os anos que se seguiram foram difíceis.
Mapa da Nicarágua
Como se não bastasse, o fim do governo Carter e o início da era Reagan nos EUA marcou o retorno de uma política conservadora e agressiva por parte dos ianques para com países que adotassem posições que lhes fossem contrárias. Dessa maneira em 1981 teve o início de “operações encobertas” da CIA contra a Nicarágua. A mais conhecida foi o caso dos “Contras”, grupo paramilitar formado por ex-membros da Guarda Nacional, que a partir de Honduras atacaram o país, sem conseguir se estabelecer ali, porém causando danos à população. Em 1983, os americanos impuseram um bloqueio naval ao país.
A rigor a preocupação com a Nicarágua não se devia a importância do país. Economicamente e militarmente, esta nação da América Central era irrelevante. Mas sua influência sobre outros países como o Panamá, Guatemala e El Salvador, junto do apoio dado pela URSS, mesmo que os sandinistas não fossem simples “clientes de Moscou”, deixava os americanos em alerta. Ainda que a Nicarágua não fosse Cuba e a FSLN não tivesse Fidel Castro como líder, os EUA pretendiam reassumir sua condição de controle sobre a situação.
Em 1990, contudo, os sandinistas perderam a eleição através de Daniel Ortega. A queda da URSS resultou no fim da ajuda econômica, que junto do desgaste provocado pelo conflito motivado pelo governo Reagan, tirou a esquerda do poder. Hoje, a FSLN é um dos principais partidos nicaraguenses.
Acompanhe a letra de “Sandina” na íntegra e escute a versão dos “Replicantes”:
Sábado todo
Eu chorei de mágoa
Minha garota
Foi pra Manágua

Lutar pela revolução
Lutar pela revolução
Todo mundo vai embora
Todo mundo tem sua hora

Ela me deixou
Ela me trocou
Por um sandinista especialista
Em granada de
mão

 
Bibliografia:
MAREGA, Marisa. A Nicarágua Sandinista.  São Paulo, editora brasiliense, 1981.
SCHILLIG, Voltaire. EUA x América Latina: as etapas da dominação. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
VICENTINI, Paulo. Da Guerra Fria à Crise (1945-1990). Porto Alegre, Editora da Universidade, 1990.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Os “bons”, os “maus” e a Guerra de Secessão


Cartaz do filme
"Três homens em conflito"
A Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana gerou vários filmes e livros. Um dos meus preferidos é “Três Homens em Conflito” (The good, the bad and the ugly, em inglês; ou “O bom, o mau e o feio, em livre tradução – o título original é em italiano: Il buono, il brutto, Il cattivo), que usa a guerra como pano de fundo. O filme do ano de 1966, dirigido por Sergio Leone com Clint Eastwood é excelente. Homenagem ao “western spaghetti”, traz o sangue e sujeira dos protagonistas na medida exata do que procura retratar.
A Guerra Civil nos teve várias causas. A imediata coube à pretensão da União de abolir a escravidão. Enquanto em 1861 o sul ainda era escravista, o norte dos EUA deixou de sê-lo na virada do século XVIII para o XIX. Mas para entender o porquê disso é preciso entender a estrutura dos estados do sul e no norte desse país.
Escravos trabalhando
numa plantação no sul
dos EUA
A economia sulista era basicamente agrária, voltada para o cultivo do tabaco, do algodão, mas também de gêneros alimentícios como o milho. Com grandes propriedades de terra e mão de obra escrava oriunda da África, o sul dos EUA era muito semelhante ao Brasil. Já o norte era dominado por uma burguesia industrial e nessa região já vigorava a mão de obra assalariada.
Dessa maneira, as contradições eram imensas: o sul, representado por estados como a Georgia, Louisiana e Texas; tinha interesses muito diversos do norte. Para além da escravidão havia outros problemas como a discussão do futuro das terras do oeste americano, que estavam sendo desbravadas e ainda eram um tanto desconhecidas. É nesse cenário que se desenrola “Três Homens em Conflito”. A elite sulista pleiteava que fossem terras baratas, para que pudessem ser compradas pelos grandes proprietários. Já a elite do norte queria que fossem caras, pois os capitalistas temiam que seus operários debandassem para o oeste.
No mapa acima, estados sulistas (escravistas) em rosa e nortistas (abolicionistas) em azul no ano
de 1861, quando começa a Guerra de Secessão

Outra questão relevante era a dos impostos sobre as importações: enquanto os sulistas pretendiam que fossem baixos, para que conseguissem adquirir produtos industrializados com maior facilidade, os nortistas exigiam que fossem elevados para evitar concorrência com seus produtos.
Abraham Lincoln
Em 1860 Abraham Lincoln foi eleito presidente dos Estados Unidos com a plataforma de abolir a escravidão. Descontentes com essa situação, os sulistas tentaram a separação, ou a secessão. Sob o nome de Estados Confederados da América, estes projetavam uma nação independente, o que foi rechaçado e impedido pelo norte, que pretendia manter a União. Assim, o norte invadiu o sul, para que não houvesse separação.
A Guerra durou longos quatro anos e consumiu a vida de cerca de 618 mil pessoas. A tragédia dos combatentes é mostrada no filme em diversas cenas, como as na prisão da União para os confederados, ou como na disputa inútil de uma ponte que garantiria uma melhor posição estratégica. O cansaço do comandante do acampamento nortista demonstra que quem faz e morre nas guerras são os homens simples, e que em geral não querem lutá-la, enquanto os políticos apenas dão inicio a elas e generais reúnem suas as massas e dão as suas ordens de dentro dos gabinetes. A cena do cemitério repleto de cruzes também dá uma ideia do horror que foi esta guerra fratricida.
Imagem representando batalha
da Guerra Civil Americana
Enquanto o norte era liderado por Lincoln, o presidente confederado era Jefferson Davis. A guerra começou em 12 de abril de 1861 e terminou em 18 de abril de 1865, quando o general confederado Joseph Johnston se rendeu. O norte havia ganho o conflito. Ao fim a guerra, ainda contabilizou outra morte: a do presidente Abraham Lincoln, assassinado por um sulista.
A vitória da União colocou o sul novamente no mapa do país. A escravidão foi abolida, mas isso não significou o fim da exclusão dos negros pela sociedade americana. Pelo contrário, o racismo ainda hoje é uma mácula muito presente no sul dos Estados Unidos.
No filme, três homens procuram um tesouro pertencente aos confederados. No caminho até ele, veem de perto o conflito. É uma obra imperdível em todos os sentidos. Pela bela trilha sonora de Ennio Moricone, pela história contada, pela filmagem, pelos personagens. O bom, o mau e o feio parecem debater sobre o caráter humano, mas de forma simples e singela. Além disso, o filme é um faroeste e não tem como um faroeste ser ruim. Como se não bastasse é um filme de guerra. E também não tem como um filme de guerra ser ruim.
Destaco ainda que, como em toda a história, não existem os “bons” e os “maus”. Claro que se tivesse que escolher um lado, eu apoio o norte. A escravidão africana como mão de obra na América foi um dos fatos mais hediondos da história moderna e contemporânea, que até hoje nos causa repulsa. O tratamento dado aos escravos era o pior possível e até hoje sentimos as consequências da escravidão na sociedade americana. Contudo, ambos os lados cometeram abusos e excessos. A guerra sempre é violenta das duas partes. Por exemplo: os nortistas arrasaram, saquearam e queimaram no mínimo duas grandes cidades do sul, Atalanta e Richmond. Assim, como no filme o “bom”, representado pelo “homem sem nome” do ator Clint Eastwood também comete atos que a nosso ver parecem imorais.
Veja abaixo, o trailer do filme "Três homens em conflito":
 

Bibliografia:
EISENBERG, Peter. A Guerra Civil Americana. São Paulo, editora brasiliense, 1985.
KARNAL, Leandro; Fernandes, Luiz Estevam; Morais, Marcus Vinicius de; Purdy, Sean. História dos Estados Unidos: das Origens ao Século XXI. São Paulo, Editora Contexto, 2007.
SCHNEIDER, Steven Jay. (editor geral). 1001 filmes para ver antes de morrer. Rio de Janeiro, editora Sextante, 2010.
TRÊS HOMENS EM CONFLITO.Il buono, il brutto, il cattivo. Sergio Leono. Itália/Espanha: 1966.Fox-Microservice. DVD. 161 min., colorido.