quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Guerra das ilhas Malvinas (ou Falkland?)

Mapa indicando a localização das
Malvinas
Em 1982 a Argentina vivia sob pesada ditadura militar, que chegou a matar 30 mil pessoas. O regime autoritário instalado em março 1976, contudo, vinha enfrentando oposição: uma crise econômica se instalara no país trazendo desemprego, inflação, quebra de bancos e empresas e recessão econômica. Enfim, é claro que esse quadro gerou descontentamento.
Em abril desse ano, o presidente ditador argentino, Leopoldo Fortunato Galtieri encontrou uma “solução mágica”: unir o país em torno de algo. Esse “algo” seria as ilhas Malvinas. Alvo de disputa entre as coroas espanhola e inglesa, este território foi tomado da Argentina, recém emancipada, pela Inglaterra em 1833. Os britânicos passam a chamar a região de ilhas Falkland. Esta era, portanto, uma antiga reivindicação nacionalista dos argentinos.
No dia 2 de abril, o exército argentino desembarcou nas Malvinas, ocupando a ilha. Tudo parecia ir bem, mas faltou “combinar com os russos”, ou nesse caso, com os ingleses. Eles não pretendiam abrir mão da soberania da região e numa estratégia semelhante a de Galtieri, a primeira-ministra Margareth Thatcher  decidiu enviar tropas para intervir na região. Claro que investida inglesa pode ser vista como uma forma de neocolonialismo.
Bandeira das Malvinas.
Observem a bandeira do Reino Unido acima à esquerda.

A Argentina esperava apoio dos EUA, afinal, os americanos eram beneficiados pela ditadura do nosso país vizinho. Mas não foi isso o que aconteceu. A Argentina ficou sozinha na disputa e não foi páreo para os soldados de Sua Majestade. A guerra foi relativamente breve, durou dois meses, o suficiente para matar cerca de 700 argentinos. Jovens que foram mandados por um grupo de generais para um território inóspito lutar por sua pátria. Que é o que geralmente acontece numa guerra. Até hoje a guerra, assim como todo o período da ditadura, é um trauma do povo desse país.
Leopoldo Galtieri, ditador
argentino em 1982.

Margareth Tatcher passando
a revista nas tropas inglesas que foram
às Malvinas (ou Falkland).

A derrota na guerra apressou o fim da ditadura. Em junho de 1982, Galtieri renunciou e no final do ano seguinte ocorreram eleições diretas para presidente.
A disputa entre Inglaterra e Argentina, porém, não terminou em 1982. Por exemplo: na Copa do Mundo de 1986 o jogo entre os dois países foi marcado por essa rivalidade (além de dois do Maradona: um golaço e outro com a mão). Recentemente tivemos ecos da Guerra das Malvinas. Em 2012 completam trinta anos do conflito. Os ingleses descobriram petróleo nas Ilhas Falkland, o nome que dão as Malvinas, nos anos 90. No início do mês de fevereiro, mandaram uma poderosa frota naval, o que para a Argentina significa a militarização britânica do Atlântico Sul. O principal navio de guerra inglês está na região. Até o príncipe William chegou ao arquipélago. Essa situação gerou um certo desconforto diplomático. A Argentina já recorreu à ONU, reclamando dos abusos da Inglaterra. Como se vê, a questão das Malvinas, ou Falkland ainda não está resolvida.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sepé Tiaraju

Ruínas de São Miguel, da qual
Sepé Tiaraju era membro
Hoje, 7 de fevereiro de 2012, completam-se 256 anos da morte de Sepé Tiaraju, guarani da redução São Miguel. Muitos já ouviram falar nesse nome, que inclusive figura no Panteão dos heróis estaduais e nacionais, mas poucos sabem quem realmente ele foi. Ou melhor, poucos sabem o que ele realmente fez. Talvez, por conta da própria mitologia criada em torno dele, talvez devido ao pouco caso que damos aos indígenas no nosso país.
Para entender sua história é preciso voltar no tempo para 1750, quando os monarcas de Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri, que se propunha a pôr um fim nas disputas entre as fronteiras dos dois reinos na América. Lembrem que nessa época as regiões que hoje correspondem ao continente americano eram colônias dos países europeus. Dessa maneira, os espanhóis cediam, entre outras possessões, como o Mato Grosso e o Amazonas, o território que correspondia às sete missões orientais, a saber: São Borja, São Miguel, Santo Ângelo, São João, São Lourenço, São Nicolau e São Luís.
Na realidade, estas sete faziam parte de um conjunto de trinta povos guarani-jesuítas. Estes eram uma iniciativa da Igreja junto aos índios, buscando a catequese dos mesmos, ampliando o número de fiéis do cristianismo. Esta iniciativa junto às populações guaranis das regiões que hoje correspondem ao Paraguai, nordeste da Argentina (província de Missiones) e sul do Brasil começou em meados do século XVII e já estava bem consolidada em 1750, sob os domínios do rei espanhol. Logo, os guaranis viviam ali havia muito tempo.
Contudo, de acordo com o Tratado de Madri, esses índios eram obrigados a transmigrar para outra margem do rio Uruguai. Com isso, aconteceu um problema: os reis de Portugal e Espanha “se esqueceram” de perguntar aos guaranis se esses queriam a mudança. Claro, pois num sistema absolutista não se costuma consultar a população antes de tomar alguma resolução. O rei decide e tem a jurisprudência para isso.
Mapa da região.
Os índios deveriam
se mudar de onde hoje é o
Rio Grande do Sul para o
atual território argentino
cruzando o rio Uruguai

Assim que chegaram as ordens de translado, os indígenas tentaram negociar. Solicitaram às autoridades espanholas que este acordo não fosse cumprido, mas claro que não foram ouvidos. Assim, em fevereiro de1753 foram enviadas, pelos ibéricos, comissões demarcadoras para o território missioneiro, para delimitar as novas fronteiras. Qual não terá sido a surpresa quando foram impedidos de passar adiante por um grupo de indígenas em São Miguel. Segundo os relatos, eles eram liderados justamente por Sepé Tiaraju.
Em abril de 1754, novo incidente. As tropas portuguesas se encontravam no forte de Rio Pardo, onde hoje existe a cidade homônima. Um grupo de guaranis se aproximou para espionar. Quando descobertos, foram convidados a entrar no forte. Era uma armadilha, pois as portas se fecharam e os guaranis se viram presos. Os portugueses queriam de volta alguns cavalos que haviam sido roubados. O líder dessa expedição indígena, Sepé Tiaraju, se prontificou para buscá-los. Mesmo escoltado por doze portugueses, conseguiu fugir deles.
Em virtude desse tipo de fato e pela insistência dos guaranis em não abandonar suas terras, as Coroas de Portugal e Espanha decidiram enviar seus exércitos rumo ao território das missões. Os indígenas foram considerados rebeldes. A primeira expedição, organizada em duas colunas separadas, uma de cada monarquia, fracassou. Enviada em setembro de 1754, não resistiu ao mau tempo da região.
Uma segunda expedição, dessa vez com lusos e espanhóis aliados, foi montada e enviada em janeiro de 1756. Assim como a anterior enfrentou diversos obstáculos como escaramuças e ataques rápidos, no estilo guerrilha, montados pelos guaranis. Foi num desses, em 7 de fevereiro que Sepé Tiaraju tombou, morto por um tiro pelo então governador de Montevidéu, José Joaquim de Viana.
Três dias depois, os guaranis conheceriam uma pesada derrota. Cerca de mil e quinhentos indígenas morreram em um dos principais confrontos da resistência e revolta. Apesar de outros pequenos conflitos, os exércitos de Portugal e Espanha entraram no território das missões em maio de 1756.
Mesmo assim, não conseguiram fazer com que todos os guaranis se mudassem para outra margem do rio Uruguai. A “guerra” se mostrou até certo ponto inútil, pois em 1759, o Tratado de Madri foi anulado pelo Tratado de El Pardo. As missões só seriam parte de Portugal quando, em 1801, foi assinado o Tratado de Badajós.
Fique atento ao sul do Brasil e às mudanças entre as fronteiras

Já é mais que hora de darmos o devido lugar aos indígenas na História das Américas. Eles devem ser vistos como agentes e não somente como vítimas, ou como obstáculos à civilização. Estas duas formas de compreendê-los são preconceituosas. É como se os indígenas não tivessem ação, como se sempre ficassem à mercê dos europeus. Parece que eventos como o conflito desencadeado após a assinatura do Tratado de Madri e as ações de Sepé vêm na oposição desse tipo de visão. Este é o índio que aparece e age na História, se movimenta e se adapta aos novos tempos.
Só muito recentemente que a História Indígena virou matéria obrigatória das escolas, o que é um disparate, pois deveria fazer parte do currículo há muito tempo. Os índios também fazem parte da construção da nação brasileira. Recentemente os indígenas vêm realizando importantes conquistas, como, por exemplo, vagas próprias nas universidades. Mas ainda há muito que se fazer, sobretudo nas questões dos direitos à terra. Engraçado que a questão da terra é um problema desde que os europeus chegaram por aqui...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

“O Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”

Nos últimos dias, tem se discutindo muito a vinda de imigrantes haitianos para o Brasil. Fugindo da miséria de um dos países mais pobres do mundo, eles buscam por aqui um abrigo. Um terremoto em 2010 expôs as mazelas do país, que sofreu por anos com a ditadura da família Duvalier. Poucos sabem, contudo, que o Haiti foi o primeiro país das Américas a abolir a escravidão, em decorrência de uma revolta de escravos.
Localizado no oeste da ilha “La Española”, era colônia francesa desde a primeira metade do século XVII. Sob o nome de Saint-Domingues, na região eram cultivados produtos tropicais, como o açúcar, sob o sistema de plantation, com mão-de-obra escrava e grandes propriedades de terra.
Os escravos, em sua maior parte vindos da África Equatorial, e a chegada destes era enorme. Dadas as condições de vida destes, a mortalidade também era bastante elevada. Os escravos africanos formavam a imensa maioria da população, representando 88% dela em 1789. Havia ainda brancos ricos e pobres, além de mulatos e negros livres, conhecidos como afranchis. Claro que os escravos eram excluídos da sociedade local.
Com a Revolução Francesa em 1789, os brancos de Saint-Domingues foram chamados para participar da assembleia dos Estados Gerais. Aos afranchis, este direito foi negado. Os mulatos e negros livres se rebelaram, mas fracassaram nessa tentativa.
Contudo, em 1791 começou a rebelião escrava liderada por Toussaint-Louverture e a colônia francesa pediu apoio dos afranchis, lhes dando igualdade de direitos junto aos brancos. Era uma revolta dos africanos após muitos anos de exploração e de muitas vítimas da ganância dos europeus.
Toussaint-Louverture
A situação da França piorou com a tentativa de invasão de Saint-Domingues pela Inglaterra. Como se não bastasse, os espanhóis também queriam a parte ocidental da ilha. Os franceses enviaram, em 1792, o girondino Santhonax, com seis mil soldados. Como a situação não tinha retorno, os franceses aboliram a escravidão na sua colônia em 1794 e pediram aos ex-escravos que os auxiliassem na luta contra espanhóis e ingleses.
Sob a liderança de Toussaint-Louverture, os negros aliados dos franceses vencem os espanhóis em 1796 e os ingleses em 1798. O ex-escravo ascende à condição de governador-geral, tomando medidas para recuperar a economia arrasada pelo conflito. Mas, na França, a maré vinha contrária à liberdade dos negros.
Napoleão assumiu o poder em 1799 e pretendia retomar o controle sobre as colônias, principalmente Saint-Domingues. São enviados 60 mil homens para a região.  Toussaint-Louverture é derrubado e preso. A escravidão é restabelecida. Os negros tinham sido traídos. Parece que o ideal de “liberdade, igualdade e fraternidade” valia somente para a Europa.
Mas a rebelião continuava. Dessa vez o líder era o também ex-escravo Jean-Jacques Dessalines. Na revolta morrem 50 mil franceses, até que em primeiro de janeiro de 1804 eles capitulam e Dessalines proclama a república do Haiti. Ele confiscou as terras dos grandes proprietários e os haitianos acabaram eliminando o poder dos brancos, dando início à primeira república controlada por negros na História.
Dessalines

Dessalines foi assassinado em 1806, deixando o país num caos. O Haiti teve uma série de governantes nos anos seguintes, inclusive se dividindo em dois territórios entre 1806 e 1820. As maiores disputas de poder eram entre negros e mulatos, que acabaram se distinguindo em duas classes sociais distintas. Um ditado popular local resume bem isso: “negro rico é mulato, mulato pobre é negro”. Os mulatos se tornaram uma classe social privilegiada.
Ou seja: ainda havia uma elite local. Elite essa que se preocupava com a capital Porto Príncipe e outras regiões urbanas. A massa miserável continuou carecendo de assistência. As medidas de Dessalines não duraram o tempo suficiente e outros governantes como Boyer (1820-1843) adotavam medidas favoráveis aos mulatos. Alguns presidentes com políticas voltadas aos negros também se destacam, mas por menos tempo.
De qualquer maneira, a Revolução Haitiana, como é chamado o processo de independência local assustou grande parte das elites da América espanhola e portuguesa. Surgia o medo de uma revolta escrava de proporções tão grandes. Isso levou os poderosos locais, como na Argentina, México e Brasil, a manter a população pobre a margem dos processos de emancipação. O objetivo era fazer a independência antes que o povo a fizesse.
Nos últimos anos, as ditaduras de “Papa Doc” e “Baby Doc”, da família Duvalier, com o apoio dos EUA, pioraram muito a situação do Haiti. Hoje ele é o país mais pobre da América, necessitando de auxílio contínuo. Mas até que ponto seria interessante às grandes potências auxiliar o Haiti?
Mapa do Haiti, dividindo
a ilha com a República Dominicana

Lamentavelmente a independência do Haiti quase nunca faz parte dos currículos escolares. Parece que é mais importante se reportar a processos que ocorrem na Europa do que numa nação americana composta por negros. O ensino de História tem muitas deficiências ainda. Não abordar a revolução haitiana é apenas uma delas. Ao mesmo tempo, é difícil encontrar bibliografia sobre o assunto no Brasil.
Parece que a música do Caetano Veloso faz cada vez mais sentido: Pense no Haiti, reze pelo Haiti/O Haiti é aqui/O Haiti não é aqui. É de se perguntar, se diante das respostas que alguns brasileiros dão para negar asilo aos haitianos, se o Haiti de 1780 é aqui. Se anos após a abolição da escravidão e após a ditadura militar o Brasil ainda poderia se negar a aceitar refugiados.
Será ainda vivemos no século XIX? Quando a elite fazia de tudo para que o Haiti não fosse aqui? Não o Haiti miserável com profundas desigualdades sociais que conhecemos hoje, mas o Haiti que libertou os escravos e deu um exemplo para a América em 1806. Para alguns, o Haiti de “Papa Doc” é melhor do que o de Dessalines.

Bibliografia:
GRONDIN, Marcelo. Haiti: cultura, poder e desenvolvimento. São Paulo, editora brasiliense, 1985.
GUAZZELLI, Cesar Augusto Barcellos. “A crise do sistema colonial e o processo de independência”. In: WASSERMAN, Claudia. (coord.) História da América Latina: Cinco Séculos (temas e problemas). Porto Alegre, Editora da Universidade/UFRGS, 1996.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A “traição” de Calabar e as invasões holandesas

O período mais longo e destacado de ocupação estrangeira do atual território brasileiro foi o das invasões holandesas entre 1630 e 1654, mais especificamente, Pernambuco. Nesta época, é bom lembrar que éramos colônia de Portugal. As relações da nossa metrópole com a Holanda eram boas, principalmente no campo econômico até 1580. Neste ano, por uma questão sucessória, o rei espanhol assumiu o trono lusitano. E os Países Baixos e a Espanha tinham um ferrenho conflito.
O Brasil estava, como é possível perceber, sob domínio espanhol, conhecido como União Ibérica. Houve uma primeira tentativa de invasão holandesa, fracassada em Salvador em 1624. Mas seis anos depois, os holandeses conquistaram Olinda. Até 1637, os batavos haviam tomado a região entre o rio São Francisco e o atual Ceará.
Maurício de Nassau
Entre 1637 e 1644, o poder holandês na região se consolidou, principalmente pelas medidas tomadas pelo administrador Maurício de Nassau. Ele vendeu a crédito os engenhos dos que haviam abandonado a região, incentivou a produção de mandioca - principal alimento da maior parte da população - implementou melhorias urbanas em Recife e foi tolerante com a diversidade religiosa local, composta de católicos, protestantes e judeus.
Uma pergunta possível de ser feita é: qual o interesse holandês no nordeste? Simples: o açúcar. Este era um dos principais produtos da economia no século XVII. Para o controle da produção açucareira, do transporte e venda na Europa, surgiu a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Criada com capital do Estado e de particulares, ela ainda gerenciava a venda de escravos. Importante destacar que os holandeses não acabaram com a escravidão africana no Brasil.
Em laranja, região dominada
pelos holandeses
 A reconquista se deu entre 1645 e 1654. A essa altura, Portugal estava livre da Espanha, desde 1640. Entre os principais articuladores dessa rebelião contra os holandeses estavam Fernandes Vieira, Henrique Dias e Felipe Camarão (sim, os mesmos que dão nomes a ruas localizadas no coração do bairro Bom Fim em Porto Alegre). O primeiro era português cristão-novo (judeu convertido), o segundo era negro e o terceiro era indígena. 
Henrique Dias
Felipe Camarão

Este fato é um dos argumentos para aqueles que defendem que o Brasil era uma “união das três raças”. Mas na realidade, os portugueses tinham forte apoio dos senhores de engenho local. Negros escravos, índios, cristãos-novos, mestiços, pobres sempre foram grupos a margem da sociedade colonial.  Porém, me parece que ao lutar do lado dos lusitanos, estavam tentando se inserir nesta sociedade, prestando serviços ao rei português para que no futuro fossem, de alguma maneira, recompensados.
Outra figura destacada nesse período é a de Calabar, conhecido como “o grande traidor”. Ele era um português que no primeiro momento da invasão, entre 1630 e 1637 cooperou com os holandeses, por ser um conhecedor do terreno. Contudo, foi preso e morto pelos lusos. A rigor não foi só ele que apoiou os holandeses, caso contrário, eles não dominariam o nordeste brasileiro por vinte e quatro anos. Boa parte da população local os ajudava, principalmente aqueles excluídos na sociedade colonial portuguesa.
Um interessante retrato desse período é a peça “Calabar”, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Nela, é retratada a história da “traição” e a morte por execução do personagem-título. Criada em plena ditadura militar, a obra pode também ser entendida como uma crítica ao regime. 
Capa de "Calabar", disco censurado
Nela, Calabar deixa de ser o traidor, para se tornar quase um herói. Podemos aproximar esta proposta da peça com o momento histórico que vivíamos nos anos 70, imaginando quem a ditadura transformava em traidor, e quem eram os heróis. Me parece que a relação crítica com a construção de uma imagem negativa por parte dos militares daqueles que se  opunham à ditadura é evidente. Gostaria de destacar a música Fado Tropical, presente em “Calabar”. Vamos analisar alguns trechos da música:
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

Conforme o pai do Chico, Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, Portugal pretendia recriar seu país na terra brasileira, “o imenso Portugal”. Ainda para Sérgio, os batavos teriam errado em não ter o mesmo objetivo. “Esta terra”, segundo os lusitanos deveria fazer parte do império colonial português. Deve-se levar em conta que no início dos anos 70, Portugal também sob ditadura. A ironia em falar que “esta terra ainda vai cumprir seu ideal” é facilmente percebida.

Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo...(além da
sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...

O que nós herdamos afinal de Portugal? Mais uma vez, volto para Sérgio Buarque: o “homem cordial”. Não necessariamente um homem gentil, mas um homem que tem pouco apreço pelo ritualismo social. Ou seja, as relações sociais no Brasil sempre foram intimistas, familiares. Isso acaba se refletindo na gestão pública sempre tão conectada com os interesses particulares, para o mal e para o bem. É a mistura entre o particular e o público. Detalhe: a palavra “sífilis” foi cortada do disco original nos anos 70 pela censura imposta pela ditadura. Analisando nosso país nos dias de hoje parece que herdamos muita coisa além da sífilis...
O que as invasões holandesas têm a ver com isso? Bem, de alguma forma, a administração de Maurício de Nassau foi pretensamente racional, escapando dessa ideia do “homem cordial”. Os holandeses tinham objetivos econômicos no nordeste brasileiro, como o comércio do açúcar e de escravos. Tanto que o controle da região era feito pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, uma empresa voltada para o capitalismo comercial.
Creio que não existe “se” em história. Assim como não existe o “se” no passado, ou o “se” nas nossas vidas. Se minha avó tivesse barba, ela seria meu avô... simples. O “se” em História é um artifício pra vender revista ruim. Mas, vamos abrir uma exceção e fazer um exercício de imaginação: o que seria da região “se” os holandeses permanecerem?
A resposta pode estar no Suriname. Uma metrópole é sempre uma metrópole. Mas muitos holandeses saíram dali para fundar Nova Iorque, alguns podem argumentar. Sim, mas em Nova Iorque não havia nada para se explorar, não havia o açúcar e a venda de escravos para a região era em menor número. Foi outra maneira de colonizar, mais pela necessidade de se encontrar uma terra habitável e expansão de territórios do que pelo sistema mercantilista vigente nas relações econômicas do momento.
Por fim, quero destacar uma das falas de uma personagem da peça “Calabar”, Bárbara, que de certa forma pode ser uma resposta à pergunta acima: “um dia este país há de ser independente. Dos holandeses, dos espanhóis, portugueses... Um dia, todos os países poderão ser independentes, seja lá do que for. Mas isso requer muito traidor. Muito Calabar.”. A dominação é sempre a mesma, não importa quem estiver dominando, portugueses, holandeses, espanhóis.
Mais do que uma peça histórica, Calabar é um libelo pela liberdade. A sugestão de que termos como “culpa” e “traição” podem ser relativizados. Para existir a liberdade, existiram sujeitos apontados como “traidores” e “culpados”. Tudo depende da posição que nos colocamos para observar. A associação com o contexto histórico da ditadura militar é mais uma vez bastante clara.
Deixo vocês com a música do Chico Buarque, “Fado Tropical”. Não prestem atenção nas figuras, apenas na música, OK?
Bibliografia:
Fausto, Boris. História Concisa do Brasil. Edusp, São Paulo, 2006.
Holanda, Chico Buarque de. Calabar: o elogio da traição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1974.
Holanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. (A primeira edição da obra é de 1936)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um “ano novo” de mudança: A Revolução Cubana

Viva la revolución: o exército rebelde
entre na cidade de Santa Clara
No ano-novo, costumamos fazer uma porção de promessas, pretendemos mudar as nossas vidas. Mas no dia seguinte, geralmente, tudo continua igual. Agora, houve um Réveillon que realmente mudou muita coisa: o de 1958 para 1959. Talvez tenha sido o mais importante da História. Nele ocorreu a Revolução Cubana, que levou Fidel Castro ao poder na ilha caribenha.
A Revolução Cubana derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista que vinha desde 1952. Era um governo corrupto, que fazia de Cuba um “quintal dos EUA”, ou ainda, um quintal da máfia norte-americana. Fidel Castro vinha lutando contra este regime desde 1953, quando tentou atacar um quartel do Exército junto de cerca de 160 homens. Chegou a ser preso, e montou uma guerrilha no ano de 1956 em Sierra Maestra, uma das províncias mais remotas do país.
Che Guevara e Fidel Castro
A ele se juntou Ernesto “Che” Guevara, argentino, que foi conquistar o resto de Cuba com 148 homens, que chegaram a 300, mas praticamente no fim do processo de queda de Batista. Algo unia Che e Fidel: ambos eram filhos de famílias ricas, o primeiro era médico, o segundo advogado (nenhum dos dois era professor de História); extremamente carismáticos e talentosos guerrilheiros. Esses fatos os transformavam em ícones da liberdade nos anos 60, em homens que lutavam pelas suas ideias. Deve-se destacar ainda a ação de outros revolucionários como Camilo Cienfuegos e Raul Castro.
Contudo, deve-se destacar que Cuba não aderiu imediatamente ao socialismo, como se pode imaginar. Para começar, apesar de ser uma ditadura, o regime de Fulgêncio Batista era tão frágil como corrupto e inapto, além de não ter grandes aprovações na sociedade cubana. A revolução contou tanto com apoio dos comunistas como da burguesia democrática local. Os rebeldes eram em sua maioria, anti-imperialistas, portanto, contra os EUA, e nacionalistas. Por exemplo, um dos lemas da Revolução Cubana era Patria o muerte, pátria ou morte. Ainda pretendiam realizar uma reforma agrária, o que evidencia o caráter popular do movimento.
Fulgêncio Batista
Em primeiro de janeiro de 1959, Fulgêncio Batista renunciava ao poder. Fidel Castro assumia o comando da ilha e colocava em prática algumas mudanças. A opção pela URSS só veio no início dos anos 60. Talvez tenham sido os EUA os principais responsáveis. Mesmo que Cuba não tivesse grande importância econômica para os norte-americanos, apesar do controle da máfia, eles não aceitariam este afronte num país tão próximo.
Aqui peço um rápido aparte: é muito boa a sequência de O Poderoso Chefão 2, assim como o filme inteiro é muito bom, na festa para virada de 1958 para 1959 em Cuba, quando nas primeiras horas do novo ano, Fulgêncio Batista renuncia. É significativa a cena em que o personagem de Al Pacino, Michael Corleone, sai do país, assim como tantos outros americanos, com o povo cubano na rua comemorando o sucesso da revolução em plena noite de Réveillon.
A revolução foi encarada pelos EUA como um desafio, uma ameaça a sua soberania na região. O governo americano tratou de isolar a ilha e foi hostil ao novo regime desde o começo. Um país pequeno como Cuba precisava de um apoio internacional e foi encontrá-lo na URSS. O socialismo foi uma escolha feita após o processo revolucionário e talvez, a única possível diante da situação que se apresentava.
Ao mesmo tempo, Cuba foi um modelo para tantas outras revoluções, ou tentativas de revolução. Se aqueles jovens barbudos conseguiram, nós também conseguimos, pensava a esquerda ao redor do mundo, principalmente na América Latina. A ideia de que seria possível derrubar um governo ditatorial que contava com o apoio dos EUA acalentou o sonho revolucionário por muitos anos e talvez ainda inspire a revolução na nossa América Latina.
Há que se destacar que o governo cubano seguiu o rumo de outra ditadura, dessa vez a de Fidel Castro. Só existe um partido oficial em Cuba: o comunista. Hoje, com o embargo imposto pelos EUA, os cubanos vivem uma tragédia particular: apesar de contar com bom sistema de saúde e uma boa educação, o país sem o apoio da URSS não consegue mais se manter. O governo, ainda ditatorial, está nas mãos de Raul Castro, irmão de Fidel. Uma provável abertura política ainda é incerta.
Infelizmente, Cuba parece uma caricatura do que já foi um dia. Não representa mais uma ameaça para os Estados Unidos e não tem mais a mesma força que tinha no pensamento das esquerdas. Ainda significa uma certa resistência ao “imperialismo ianque”, mas sob o custo de uma ditadura e de complicados problemas econômicos, forjados pela proibição que os americanos impõem sobre o comércio com a ilha.
Mapa de Cuba. Observe Sierra Maestra no sul da ilha
e a proximidade geográfica com os EUA.

A todos leitores do blog um bom ano novo e um feliz aniversário da Revolução Cubana. Que todos tenham um excelente 1959, ops, 2012!
Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A Guerra da Coreia


Mapa dos duas Coreias
Em 17 de dezembro desse ano morreu o então líder do governo norte-coreano, Kim Jong-il. Governou sob ditadura desde a morte de seu pai e terá seu filho como sucessor. A região é marcada pelo confronto entre a Coreia do Norte e a do Sul, que teve início com a chamada Guerra da Coreia.
Este confronto “fratricida” começou pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial e deve ser entendido no contexto da Guerra Fria. Estamos falando da longa disputa por áreas de influência entre EUA e URSS que se estendeu até a década de 90. O temor norte-americano de uma expansão do comunismo levou este país a intervir em diversas regiões do mundo onde os comunistas tinham adeptos.
Durante a Segunda Guerra, a Coreia foi invadida pelo Japão, com a resistência local de uma guerrilha armada. Após o conflito, em 6 de setembro de 1945, foi proclamada a República Popular da Coreia, com um governo assumidamente comunista, sob o comando de Kim Il Sung, pai do ditador recentemente morto.
Kim Jong Il
Dois dias depois, os EUA responderam, atacando o sul do país e colocando Syngmann Rhee, de forma ditatorial, no poder da região. Dividiam-se assim, as duas Coreias, delimitadas pelo paralelo 38.
A partir de 1950, o governo sul-coreano, apoiado pelos americanos, passou a realizar provocações à Coreia do Norte, como algumas incursões militares, que rebateu, atacando o sul em 25 de junho do mesmo ano. O Conselho de Segurança da ONU decidiu aceitar que os EUA enviassem tropas, em nome da própria ONU, para conter a invasão sofrida pela Coreia do Sul.
Em pouco tempo, os norte-coreanos foram obrigados a recuar. Porém, no início de outubro do mesmo ano, o general Mac Arthur, comandante das forças da ONU, ordenou o avanço rumo à Coreia do Norte. As tropas chegaram até Pyongyang, a capital norte-coreana e se preparavam para passar da fronteira com a China. Recordando que nesse período a China também era comunista. O comunismo, mais do que a própria URSS, era visto como um perigo aos olhos dos EUA.
Os chineses, então, se viram obrigados a forçar os americanos a recuar. Na volta ao sul, os americanos iam destruindo o que encontravam, jogando napalm, uma arma química. As duas Coreias foram praticamente destruídas. O conflito só foi terminar em 1953, com a assinatura de um cessar-fogo e com o afastamento do general Mac Arthur por parte do presidente americano, Harry Truman.
Como saldo da guerra, morreram entre 3 e 4 milhões de coreanos e cerca de 50 mil americanos. Tanto a Coreia do Norte como a Coreia do Sul acabaram tendo regimes ditatoriais. O norte socialista, comandado por Kim Il Sung e o sul capitalista, sob o poder de Syngmann Rhee.
A Guerra da Coreia ainda foi importância para despertar para o mundo a força da China. Quando esta interveio no norte, causou um certo temor aos EUA. Os chineses reapareciam como potência após a Segunda Guerra Mundial, entrando também no contexto da Guerra Fria.
Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
VICENTINI, Paulo. Da Guerra Fria à Crise (1945-1990). Porto Alegre, Editora da Universidade, 1990.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Robin Hood e a monarquia medieval inglesa


Imagem de Robin Hood
do século XVII
A figura de Robin Hood é bastante conhecida: a história do aristocrata que rouba dos ricos para repassar aos pobres já foi contada e recontada por diversas canções na Idade Média e por Hollywood no século XX. A lenda do nobre ladrão tem paralelo em diversas outras culturas e sociedades, buscando sempre ajudar aos mais necessitados. Isso não faz dele um revolucionário, mas em teoria alguém que busca restabelecer a justiça.
Por estas palavras, entenda-se manter os velhos costumes. E na Inglaterra do século XIII, os velhos costumes significam tanto uma monarquia forte como uma nobreza não muito poderosa. Foi justamente o período em que se passa a lenda de Robin Hood: o final do século XII e início do XIII,
A centralização do poder nas mãos dos reis na Inglaterra foi cedo. A invasão normanda em 1066 possibilitou esse fato político. Assim, foi criado o cargo dos sheriffs, funcionários reais, que presidiam os tribunais dos condados,que correspondiam às divisões do reino.
O grande vilão das histórias de Robin Hood, é, não por acaso, o sheriff de Nottingham, local onde a história se passa. Segunda esta lenda, a autoridade estaria abusando de seu poder junto aos camponeses locais. Além disso, Robin Hood lutaria contra o rei João I, irmão de Ricardo I, que havia partido para a Terceira Cruzada entre 1189 e 1192.
Conforme a lenda, Robin Hood lutou pelo o que seria justo. Segundo este ponto de vista, o justo seria o poder voltar para Ricardo I e os excessos do o sheriff de Nottingham terminarem. A bem da verdade, Robin Hood não estaria defendendo somente os mais pobres, mas também uma nobreza que estava bastante alijada do poder.
Tanto é que em 1215, o rei João I foi obrigado a assinar a Carta Magna, contrato que limitava os poderes monárquicos. Assim foram criados os Parlamentos e o governo inglês passou a ser controlado tanto pela Coroa, como pela nobreza, como pela burguesia comercial que vinha surgindo.
Percebe-se que a Inglaterra já vinha em crise política desde que Ricardo I partira para as Cruzadas. A assinatura da Carta Magna e a criação dos Parlamentos ajudaram a por fim nessa crise, mas criaram um absolutismo fraco durante o período medieval.
Quanto a Robin Hood, se ele existiu mesmo, é algo que não vem ao caso. O importante é perceber sua figura como um ladrão herói. Sim, porque em princípio, ele lutava pelo que seria justo, pelos mais necessitados, mas, sobretudo, para evitar o abuso ou o excesso do poder tanto do sheriff de Nottingham, como do rei João I. Assim, Robin Hood não é um simples bandido. Ele é bom, pois dá aos pobres, mas também por ter uma origem nobre, por fazer tudo isso por um ideal. Ou seja, seus atos como bandidos só são válidos e justificáveis, pois ele é um nobre.
Não deixa de ser curioso que o herói de um período anterior a assinatura da Carta Magna seja um nobre, justamente a ordem social que se favoreceu com este documento.
Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Bandidos. Rio de Janeiro, Editora Forense-Universitária, 1975.
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, Edusc, 2005.
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo, Ed. Brasiliense,1985.