quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

“Tanto Mar” – A Revolução dos Cravos


Semana passada o cantor e compositor Chico Buarque esteve fazendo shows em Porto Alegre. Infelizmente não pude ir. Mas pelo menos, isso me motivou a escutar algumas das suas canções. Uma das mais conhecidas é “Tanto Mar”. De cunho político, como muitas outras de sua obra, ela traz um episódio da história recente de Portugal.
O ditador português Salazar
Como muitas outras de suas obras, foi censurada. A letra exalta o fim da ditadura em Portugal, com a Revolução dos Cravos em 1974. Os lusos viviam sob um governo autoritário e extremamente católico desde 1926. Em 1933, António de Oliveira Salazar assumiu o governo e ali permaneceu até 1968. Salazar não foi um simples ditador. Ele era um simpatizante declarado dos regimes nazista e fascista. Talvez esteja para Portugal, assim como Franco estava para a Espanha. Em seu lugar assumiu Marcello Caetano, que deu continuidade ao regime ditatorial.
Uma das principais marcas da ditadura portuguesa, além é claro da repressão à oposição com prisões, torturas, mortes e censura à imprensa, foi a manutenção do Império Colonial Português, com as suas possessões na África e Ásia, como em Angola e no Timor. A rigor, desde 1961, as colônias portuguesas lutavam pela sua independência. Detalhe que a esta altura, a grande maioria das nações africanas já haviam se libertado do domínio europeu.
Até que em 25 de abril de 1974, parte do próprio Exército português derrubou Marcello Caetano com o apoio da população. Os soldados recebiam flores do público no dia da queda do ditador, daí o nome “Revolução dos Cravos”. O fim do regime autoritário em Portugal foi relativamente pacífico, não ocorreu nenhuma guerra civil.
Soldados portugueses no 24 de abril de 1974, com as flores nos fuzis
Tanto os setores do Exército que se levantaram contra Caetano, como o povo português, estavam fartos do regime ditatorial e dos gastos econômicos e humanos em manter as colônias na África e Ásia. O ditador Marcello Caetano praticamente não resistiu. Detalhe: ele fugiu para o Rio de Janeiro. Não esqueçamos que em 1974, o Brasil ainda vivia sob ditadura.
Não é a toa que Chico Buarque compôs “Tanto Mar” no ano seguinte. Ao comemorar o fim da ditadura sobre nossos irmãos lusitanos, ele pede o fim da ditadura na nossa terra brasileira. O primeiro verso fala: Sei que estás em festa, pá/ Fico contente/ E enquanto estou ausente/Guarda um cravo para mim. E no último: Lá faz primavera, pá/ Cá estou doente/ Manda urgentemente/ Algum cheirinho de alecrim. Ou seja, pede para que os ares da liberdade, melhor falando, “os cravos” cheguem no Brasil também.
No entanto, não foi fácil o processo de instalação da democracia em Portugal. Depois de 25 de abril de 1974, houve seis governos provisórios, até que em 25 de novembro de 1975, um regime democrático liberal foi instaurado.  Ao final, Mario Soares, do Partido Socialista, acabou se elegendo Primeiro-Ministro em 1976. Contudo, era o representante de uma Social-Democracia, apoiado pela burguesia e por alguns setores conservadores. Setores mais esquerdista tentaram assumir o poder, mas fracassaram. De qualquer modo, era uma organização política de esquerda, setor que havia se fortalecido. Por outro lado, uma tentativa de revolução com uma finalidade socialista se transformou numa revolução burguesa.
O principal resultado da Revolução dos Cravos, além do fim da ditadura portuguesa foi a independência das suas colônias. Quando Chico Buarque lançou “Tanto Mar” em 1975, só pode veiculá-la em Portugal. No Brasil, a música foi editada somente em 1978, com uma letra que faz um balanço da revolução pacífica. Veja a letra de 1978. Nela podemos perceber a derrota do projeto socialista para a Portugal e a esperança do cantor de que um dia a ditadura no Brasil chegasse ao fim, o que só aconteceria em 1984:
Tanto Mar
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
 
Confira as duas versões da música de Chico Buarque junto com uma entrevista com o compositor:


Bibliografia:
MAXWELL, Kenneth. O império derrotado: revolução e democracia em Portugal. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
Secco, Lincoln. A Revolução dos Cravos. São Paulo, Alameda Casa Editorial, 2004.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Os 18 do Forte de Copacabana



Foto atual do Forte
Por todo o Brasil existem clubes de futebol com uma torcida pequena, mas bastante aguerrida. Um bom exemplo disso é a do Cruzeiro de Porto Alegre, que foi apelidada de 18 do Forte. De onde veio esse apelido? Suas origens remontam ao período conhecido como República Velha.
Quando estudamos a República Velha, sobretudo os anos 20 verificamos a existência de um fenômeno político conhecido como Tenentismo. No que ele consistiu? O tenentismo não chegou a ser uma ideologia, ficando mais no plano de um movimento contra a forma como as oligarquias controlavam o país.  É importante lembrar que, quando falamos em República Velha, falamos do poder nas mãos de poucas famílias ricas, sobretudo dos estados de São Paulo e Minas Gerais, e de eleições fraudulentas. Ainda estamos falando de um período no qual o café se destacou como principal produto do Brasil. Engraçado como o próprio termo que se refere ao período já é pejorativo. Claro, pois foi criado num período posterior, no qual se pretendia depreciar o que passou.
Sendo assim, os tenentistas diziam pretender moralizar a política nacional, ou ainda, salvar as instituições republicanas. Mas quem eram os seus representantes? A resposta não é muito difícil: principalmente os tenentes, oficiais medianos do Exército, geralmente jovens assim como alguns capitães.  A maioria deles era oriunda da classe média.
Epitácio Pessoa
A próxima questão: é como eclodiu este movimento? Tudo começou no famoso ano de 1922. Recordem-se que tivemos então a Semana da Arte Moderna e a fundação do PCB. No mesmo ano, houve eleições para presidência da República. O então presidente, Epitácio Pessoa indicou Artur Bernardes para ser seu sucessor, seguindo a política “café-com-leite” de uma alternância entre mineiros e paulistas no cargo. Contudo, as oligarquias dissidentes, lideradas pelo Rio Grande do Sul lançaram a candidatura de Nilo Peçanha.
Artur Bernardes
A campanha contra Artur Bernardes foi muito violenta. Entre os fatos nela ocorridos, houve a divulgação de duas supostas cartas suas contra o Exército, que depois foram comprovadas falsas. Em 1922, ocorreu o fechamento do Clube Militar, por este ter protestado contra o uso de tropas do Exército numa questão da política local de Pernambuco.
O movimento tenentista teve seu início justamente com o episódio dos 18 do Forte, em cinco de julho de 1922, no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, então capital federal. Os militares dessa guarnição se rebelaram e dispararam seus canhões contra alvos estratégicos. As forças do governo contra-atacaram, mas os amotinados diziam que só reconheceriam as ordens no marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente e pai do Capitão Euclides Hermes da Fonseca, uma das lideranças no forte.
No dia seguinte, dois navios de guerra se posicionaram em frente ao Forte de Copacabana. Acuados por forças de terra e mar, a maioria dos rebeldes desistiu e se rendeu. Contudo, permaneceram ainda 17 homens, sob o comando dos tenentes Siqueira Campos e Newton Prado. Entre eles estava Eduardo Gomes, que viria a ser candidato à presidência da República em 1945 e 1950 pela UDN, derrotado em ambas as eleições. A estes se uniu o civil Otávio Correa.
Os revoltosos então partiram para um dos episódios mais heróicos do movimento tenentista: saíram a pé caminhando pela Avenida Atlântica na direção das tropas legalistas, na famosa "Marcha dos Dezoito do Forte". Após um tiroteio e um combate de arma branca, os dezoito foram evidentemente derrotados. Dois tenentes foram mortos: Newton Prado e Mário Carpenter, que acabaram sendo tranformados em mártires do movimento.
Alguns dos 18 revoltosos do Forte de Copacabana
marchando nas rua da  então capital

Este fato acabou repercutindo nacionalmente e ajudou na propagação do movimento tenentista. A insatisfação com o governo de Epitácio Pessoa cresceu, o mesmo se verificou durante a presidência de Artur Bernardes. Contudo, em resposta, as oligarquias se uniram novamente e ficaram mais fortalecidas. Esse esquema só viria se romper na eleição de 1929, que culminou na Revolução de 30, da qual os tenentistas fizeram parte. Tanto que os governadores (na época chamados de presidentes de estado) foram substituídos pela figura do tenente-interventor. Mais tarde, os antigos tenentistas continuaram participando da História política do país, inclusive no golpe de 1964.
No meu tempo de estudante (não que eu não estude mais, digo estudante secundarista – atual Ensino Médio), achava este o episódio mais curioso da História da República, ou melhor, com o nome mais curioso. Nome melhor que esse, só mesmo “Noite das Garrafadas”, mas aí estamos falando de Império e já é outro assunto.
Bibliografia
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
LANNA JÚNIOR, Mário Cléber Martins. “Tenentismo e crises políticas  na Primeira República”. In: FERREIRA, Jorge. e DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil Republicano. Vol.1 O tempo do liberalismo excludente. Da proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.
SODRÉ, Nelson Werneck. O tenentismo. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1985.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Zumbi


Desde o início da colonização, Portugal adotou no Brasil a escravidão como mão-de-obra, primeiro a indígena e depois a africana. Ao que tudo indica, os europeus retomaram essa forma de trabalho que hoje nos causa repulsa, pois não tinham contingente populacional suficiente para emigrar em massa para a América.
Provavelmente, a opção pelos africanos foi principalmente econômica, dada a lucratividade do tráfico de escravos. É um erro dizer que os índios eram preguiçosos e indolentes. Eles não tinham a mesma noção de trabalho para produtividade, para excedente e para o retorno financeiro que os europeus. Trabalhavam pela sua subsistência. Houve diversos episódios de lutas dos indígenas contra o colonizador escravista.
Os africanos já conheciam o trabalho agrícola em larga escala, como o que foi implantada na América Portuguesa. Desde a década de 1570, a Coroa lusitana incentivou a vinda forçada de negros para o trabalho escravo nas terras brasileiras. Entretanto, eles não aceitaram passivamente esta condição. Houve diversas rebeliões e fugas de escravos. Talvez a forma mais conhecida de resistência africana no Brasil seja o quilombo.
Localização de Palmares
A grosso modo, quilombo era um lugar para onde os escravos fugitivos do trabalho forçado iam. O mais famoso e maior de todos os quilombos foi o de Palmares, localizado onde hoje é Alagoas. Sua origem, muito provavelmente está ligada a uma fuga em massa de escravos. Ele não foi apenas um grupo de pessoas, mas uma espécie de federação de comunidades. A principal era Macaco, mas também havia Subupira, Dambranganga, Tabogas, Osengas e outras.
Estima-se que Palmares tenha começado no início do século XVII e terminou em 1694, com o massacre e prisão de seus habitantes. O quilombo de Palmares resistiu quase cem anos aos ataques de portugueses e holandeses (não podemos esquecer que entre 1630 e 1654, a Holanda dominou boa parte do nordeste). Ali se formou uma sociedade complexa, diversificada e organizada. Não existiam somente negros, mas também índios e brancos perseguidos pela justiça.
Durante esses quase cem anos, Palmares teve diversos líderes, geralmente chamados internamente de “rei’, o que refletia a autoridades das suas lideranças baseada numa identidade que vinha da África. Um desses líderes foi Ganga Zumba, que em 1678 firmou um acordo com o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, se comprometendo a não expandir os limites do quilombo, na devolução dos escravos fugidos e na rejeição de novos membros. Em troca, os nascidos em Palmares seriam homens livres.
Esse acordo não deu certo pela oposição de Zumbi. Ele acabou sendo o último líder de Palmares. O bandeirante Domingos Jorge Velho foi contratado pelas autoridades locais para destruir o quilombo. Sua expedição conseguiu derrotar a comunidade de Macaco e aprisionar Zumbi. O líder da Palmares foi enforcado em 20 de novembro de 1695 e teve sua cabeça exposta ao público, para demonstrar aos escravos que Zumbi não era imortal, como alguns poderiam acreditar e para demonstrar o poder de Portugal.
Depois de Palmares, a Coroa passou a perseguir mais os quilombos e a controlar mais os cativos.  Surge a figura do capitão-do-mato, um caçador de escravos. Mesmo assim,ainda houve diversos casos de resistência escrava, revoltas e formação de novos quilombos durante todo o regime escravista.
Busto de Zumbi em Brasília
Com o tempo, Zumbi se tornou um símbolo da resistência escrava. Sua figura atualmente está ligada a diversos grupos de afirmação da população negra no Brasil. Ele até hoje é lembrado e no dia 20 de novembro, recordamos o Dia Nacional da Consciência Negra, quando se discute a inserção no negro na sociedade brasileira.
A rigor, deveríamos ter essa discussão diariamente, permanentemente. Trata-se de um grupo que sempre esteve à margem da sociedade, escravizado por mais de trezentos anos e que quando se viu livre, não recebeu nenhum tipo de assistência do governo.  Considero que examinar a situação do negro no Brasil é sempre importante. A história de Zumbi é uma excelente oportunidade para realizar este debate em sala de aula
Zumbi é lembrando com justiça pelos movimentos negros e em diversos momentos na cultura brasileira, como na espetacular música do grande Jorge Ben que tem o mesmo nome do último líder de Palmares.
 

Bibliografia:
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
REIS, João José. “Quilombos e revoltas escravas no Brasil”. Revista USP, São Paulo (28): 14-39, Dezembro/Fevereiro 95/96. – disponível para baixar na internet.