quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A Guerra da Coreia


Mapa dos duas Coreias
Em 17 de dezembro desse ano morreu o então líder do governo norte-coreano, Kim Jong-il. Governou sob ditadura desde a morte de seu pai e terá seu filho como sucessor. A região é marcada pelo confronto entre a Coreia do Norte e a do Sul, que teve início com a chamada Guerra da Coreia.
Este confronto “fratricida” começou pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial e deve ser entendido no contexto da Guerra Fria. Estamos falando da longa disputa por áreas de influência entre EUA e URSS que se estendeu até a década de 90. O temor norte-americano de uma expansão do comunismo levou este país a intervir em diversas regiões do mundo onde os comunistas tinham adeptos.
Durante a Segunda Guerra, a Coreia foi invadida pelo Japão, com a resistência local de uma guerrilha armada. Após o conflito, em 6 de setembro de 1945, foi proclamada a República Popular da Coreia, com um governo assumidamente comunista, sob o comando de Kim Il Sung, pai do ditador recentemente morto.
Kim Jong Il
Dois dias depois, os EUA responderam, atacando o sul do país e colocando Syngmann Rhee, de forma ditatorial, no poder da região. Dividiam-se assim, as duas Coreias, delimitadas pelo paralelo 38.
A partir de 1950, o governo sul-coreano, apoiado pelos americanos, passou a realizar provocações à Coreia do Norte, como algumas incursões militares, que rebateu, atacando o sul em 25 de junho do mesmo ano. O Conselho de Segurança da ONU decidiu aceitar que os EUA enviassem tropas, em nome da própria ONU, para conter a invasão sofrida pela Coreia do Sul.
Em pouco tempo, os norte-coreanos foram obrigados a recuar. Porém, no início de outubro do mesmo ano, o general Mac Arthur, comandante das forças da ONU, ordenou o avanço rumo à Coreia do Norte. As tropas chegaram até Pyongyang, a capital norte-coreana e se preparavam para passar da fronteira com a China. Recordando que nesse período a China também era comunista. O comunismo, mais do que a própria URSS, era visto como um perigo aos olhos dos EUA.
Os chineses, então, se viram obrigados a forçar os americanos a recuar. Na volta ao sul, os americanos iam destruindo o que encontravam, jogando napalm, uma arma química. As duas Coreias foram praticamente destruídas. O conflito só foi terminar em 1953, com a assinatura de um cessar-fogo e com o afastamento do general Mac Arthur por parte do presidente americano, Harry Truman.
Como saldo da guerra, morreram entre 3 e 4 milhões de coreanos e cerca de 50 mil americanos. Tanto a Coreia do Norte como a Coreia do Sul acabaram tendo regimes ditatoriais. O norte socialista, comandado por Kim Il Sung e o sul capitalista, sob o poder de Syngmann Rhee.
A Guerra da Coreia ainda foi importância para despertar para o mundo a força da China. Quando esta interveio no norte, causou um certo temor aos EUA. Os chineses reapareciam como potência após a Segunda Guerra Mundial, entrando também no contexto da Guerra Fria.
Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
VICENTINI, Paulo. Da Guerra Fria à Crise (1945-1990). Porto Alegre, Editora da Universidade, 1990.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Robin Hood e a monarquia medieval inglesa


Imagem de Robin Hood
do século XVII
A figura de Robin Hood é bastante conhecida: a história do aristocrata que rouba dos ricos para repassar aos pobres já foi contada e recontada por diversas canções na Idade Média e por Hollywood no século XX. A lenda do nobre ladrão tem paralelo em diversas outras culturas e sociedades, buscando sempre ajudar aos mais necessitados. Isso não faz dele um revolucionário, mas em teoria alguém que busca restabelecer a justiça.
Por estas palavras, entenda-se manter os velhos costumes. E na Inglaterra do século XIII, os velhos costumes significam tanto uma monarquia forte como uma nobreza não muito poderosa. Foi justamente o período em que se passa a lenda de Robin Hood: o final do século XII e início do XIII,
A centralização do poder nas mãos dos reis na Inglaterra foi cedo. A invasão normanda em 1066 possibilitou esse fato político. Assim, foi criado o cargo dos sheriffs, funcionários reais, que presidiam os tribunais dos condados,que correspondiam às divisões do reino.
O grande vilão das histórias de Robin Hood, é, não por acaso, o sheriff de Nottingham, local onde a história se passa. Segunda esta lenda, a autoridade estaria abusando de seu poder junto aos camponeses locais. Além disso, Robin Hood lutaria contra o rei João I, irmão de Ricardo I, que havia partido para a Terceira Cruzada entre 1189 e 1192.
Conforme a lenda, Robin Hood lutou pelo o que seria justo. Segundo este ponto de vista, o justo seria o poder voltar para Ricardo I e os excessos do o sheriff de Nottingham terminarem. A bem da verdade, Robin Hood não estaria defendendo somente os mais pobres, mas também uma nobreza que estava bastante alijada do poder.
Tanto é que em 1215, o rei João I foi obrigado a assinar a Carta Magna, contrato que limitava os poderes monárquicos. Assim foram criados os Parlamentos e o governo inglês passou a ser controlado tanto pela Coroa, como pela nobreza, como pela burguesia comercial que vinha surgindo.
Percebe-se que a Inglaterra já vinha em crise política desde que Ricardo I partira para as Cruzadas. A assinatura da Carta Magna e a criação dos Parlamentos ajudaram a por fim nessa crise, mas criaram um absolutismo fraco durante o período medieval.
Quanto a Robin Hood, se ele existiu mesmo, é algo que não vem ao caso. O importante é perceber sua figura como um ladrão herói. Sim, porque em princípio, ele lutava pelo que seria justo, pelos mais necessitados, mas, sobretudo, para evitar o abuso ou o excesso do poder tanto do sheriff de Nottingham, como do rei João I. Assim, Robin Hood não é um simples bandido. Ele é bom, pois dá aos pobres, mas também por ter uma origem nobre, por fazer tudo isso por um ideal. Ou seja, seus atos como bandidos só são válidos e justificáveis, pois ele é um nobre.
Não deixa de ser curioso que o herói de um período anterior a assinatura da Carta Magna seja um nobre, justamente a ordem social que se favoreceu com este documento.
Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Bandidos. Rio de Janeiro, Editora Forense-Universitária, 1975.
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, Edusc, 2005.
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo, Ed. Brasiliense,1985.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

“Tanto Mar” – A Revolução dos Cravos


Semana passada o cantor e compositor Chico Buarque esteve fazendo shows em Porto Alegre. Infelizmente não pude ir. Mas pelo menos, isso me motivou a escutar algumas das suas canções. Uma das mais conhecidas é “Tanto Mar”. De cunho político, como muitas outras de sua obra, ela traz um episódio da história recente de Portugal.
O ditador português Salazar
Como muitas outras de suas obras, foi censurada. A letra exalta o fim da ditadura em Portugal, com a Revolução dos Cravos em 1974. Os lusos viviam sob um governo autoritário e extremamente católico desde 1926. Em 1933, António de Oliveira Salazar assumiu o governo e ali permaneceu até 1968. Salazar não foi um simples ditador. Ele era um simpatizante declarado dos regimes nazista e fascista. Talvez esteja para Portugal, assim como Franco estava para a Espanha. Em seu lugar assumiu Marcello Caetano, que deu continuidade ao regime ditatorial.
Uma das principais marcas da ditadura portuguesa, além é claro da repressão à oposição com prisões, torturas, mortes e censura à imprensa, foi a manutenção do Império Colonial Português, com as suas possessões na África e Ásia, como em Angola e no Timor. A rigor, desde 1961, as colônias portuguesas lutavam pela sua independência. Detalhe que a esta altura, a grande maioria das nações africanas já haviam se libertado do domínio europeu.
Até que em 25 de abril de 1974, parte do próprio Exército português derrubou Marcello Caetano com o apoio da população. Os soldados recebiam flores do público no dia da queda do ditador, daí o nome “Revolução dos Cravos”. O fim do regime autoritário em Portugal foi relativamente pacífico, não ocorreu nenhuma guerra civil.
Soldados portugueses no 24 de abril de 1974, com as flores nos fuzis
Tanto os setores do Exército que se levantaram contra Caetano, como o povo português, estavam fartos do regime ditatorial e dos gastos econômicos e humanos em manter as colônias na África e Ásia. O ditador Marcello Caetano praticamente não resistiu. Detalhe: ele fugiu para o Rio de Janeiro. Não esqueçamos que em 1974, o Brasil ainda vivia sob ditadura.
Não é a toa que Chico Buarque compôs “Tanto Mar” no ano seguinte. Ao comemorar o fim da ditadura sobre nossos irmãos lusitanos, ele pede o fim da ditadura na nossa terra brasileira. O primeiro verso fala: Sei que estás em festa, pá/ Fico contente/ E enquanto estou ausente/Guarda um cravo para mim. E no último: Lá faz primavera, pá/ Cá estou doente/ Manda urgentemente/ Algum cheirinho de alecrim. Ou seja, pede para que os ares da liberdade, melhor falando, “os cravos” cheguem no Brasil também.
No entanto, não foi fácil o processo de instalação da democracia em Portugal. Depois de 25 de abril de 1974, houve seis governos provisórios, até que em 25 de novembro de 1975, um regime democrático liberal foi instaurado.  Ao final, Mario Soares, do Partido Socialista, acabou se elegendo Primeiro-Ministro em 1976. Contudo, era o representante de uma Social-Democracia, apoiado pela burguesia e por alguns setores conservadores. Setores mais esquerdista tentaram assumir o poder, mas fracassaram. De qualquer modo, era uma organização política de esquerda, setor que havia se fortalecido. Por outro lado, uma tentativa de revolução com uma finalidade socialista se transformou numa revolução burguesa.
O principal resultado da Revolução dos Cravos, além do fim da ditadura portuguesa foi a independência das suas colônias. Quando Chico Buarque lançou “Tanto Mar” em 1975, só pode veiculá-la em Portugal. No Brasil, a música foi editada somente em 1978, com uma letra que faz um balanço da revolução pacífica. Veja a letra de 1978. Nela podemos perceber a derrota do projeto socialista para a Portugal e a esperança do cantor de que um dia a ditadura no Brasil chegasse ao fim, o que só aconteceria em 1984:
Tanto Mar
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
 
Confira as duas versões da música de Chico Buarque junto com uma entrevista com o compositor:


Bibliografia:
MAXWELL, Kenneth. O império derrotado: revolução e democracia em Portugal. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
Secco, Lincoln. A Revolução dos Cravos. São Paulo, Alameda Casa Editorial, 2004.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Os 18 do Forte de Copacabana



Foto atual do Forte
Por todo o Brasil existem clubes de futebol com uma torcida pequena, mas bastante aguerrida. Um bom exemplo disso é a do Cruzeiro de Porto Alegre, que foi apelidada de 18 do Forte. De onde veio esse apelido? Suas origens remontam ao período conhecido como República Velha.
Quando estudamos a República Velha, sobretudo os anos 20 verificamos a existência de um fenômeno político conhecido como Tenentismo. No que ele consistiu? O tenentismo não chegou a ser uma ideologia, ficando mais no plano de um movimento contra a forma como as oligarquias controlavam o país.  É importante lembrar que, quando falamos em República Velha, falamos do poder nas mãos de poucas famílias ricas, sobretudo dos estados de São Paulo e Minas Gerais, e de eleições fraudulentas. Ainda estamos falando de um período no qual o café se destacou como principal produto do Brasil. Engraçado como o próprio termo que se refere ao período já é pejorativo. Claro, pois foi criado num período posterior, no qual se pretendia depreciar o que passou.
Sendo assim, os tenentistas diziam pretender moralizar a política nacional, ou ainda, salvar as instituições republicanas. Mas quem eram os seus representantes? A resposta não é muito difícil: principalmente os tenentes, oficiais medianos do Exército, geralmente jovens assim como alguns capitães.  A maioria deles era oriunda da classe média.
Epitácio Pessoa
A próxima questão: é como eclodiu este movimento? Tudo começou no famoso ano de 1922. Recordem-se que tivemos então a Semana da Arte Moderna e a fundação do PCB. No mesmo ano, houve eleições para presidência da República. O então presidente, Epitácio Pessoa indicou Artur Bernardes para ser seu sucessor, seguindo a política “café-com-leite” de uma alternância entre mineiros e paulistas no cargo. Contudo, as oligarquias dissidentes, lideradas pelo Rio Grande do Sul lançaram a candidatura de Nilo Peçanha.
Artur Bernardes
A campanha contra Artur Bernardes foi muito violenta. Entre os fatos nela ocorridos, houve a divulgação de duas supostas cartas suas contra o Exército, que depois foram comprovadas falsas. Em 1922, ocorreu o fechamento do Clube Militar, por este ter protestado contra o uso de tropas do Exército numa questão da política local de Pernambuco.
O movimento tenentista teve seu início justamente com o episódio dos 18 do Forte, em cinco de julho de 1922, no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, então capital federal. Os militares dessa guarnição se rebelaram e dispararam seus canhões contra alvos estratégicos. As forças do governo contra-atacaram, mas os amotinados diziam que só reconheceriam as ordens no marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente e pai do Capitão Euclides Hermes da Fonseca, uma das lideranças no forte.
No dia seguinte, dois navios de guerra se posicionaram em frente ao Forte de Copacabana. Acuados por forças de terra e mar, a maioria dos rebeldes desistiu e se rendeu. Contudo, permaneceram ainda 17 homens, sob o comando dos tenentes Siqueira Campos e Newton Prado. Entre eles estava Eduardo Gomes, que viria a ser candidato à presidência da República em 1945 e 1950 pela UDN, derrotado em ambas as eleições. A estes se uniu o civil Otávio Correa.
Os revoltosos então partiram para um dos episódios mais heróicos do movimento tenentista: saíram a pé caminhando pela Avenida Atlântica na direção das tropas legalistas, na famosa "Marcha dos Dezoito do Forte". Após um tiroteio e um combate de arma branca, os dezoito foram evidentemente derrotados. Dois tenentes foram mortos: Newton Prado e Mário Carpenter, que acabaram sendo tranformados em mártires do movimento.
Alguns dos 18 revoltosos do Forte de Copacabana
marchando nas rua da  então capital

Este fato acabou repercutindo nacionalmente e ajudou na propagação do movimento tenentista. A insatisfação com o governo de Epitácio Pessoa cresceu, o mesmo se verificou durante a presidência de Artur Bernardes. Contudo, em resposta, as oligarquias se uniram novamente e ficaram mais fortalecidas. Esse esquema só viria se romper na eleição de 1929, que culminou na Revolução de 30, da qual os tenentistas fizeram parte. Tanto que os governadores (na época chamados de presidentes de estado) foram substituídos pela figura do tenente-interventor. Mais tarde, os antigos tenentistas continuaram participando da História política do país, inclusive no golpe de 1964.
No meu tempo de estudante (não que eu não estude mais, digo estudante secundarista – atual Ensino Médio), achava este o episódio mais curioso da História da República, ou melhor, com o nome mais curioso. Nome melhor que esse, só mesmo “Noite das Garrafadas”, mas aí estamos falando de Império e já é outro assunto.
Bibliografia
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
LANNA JÚNIOR, Mário Cléber Martins. “Tenentismo e crises políticas  na Primeira República”. In: FERREIRA, Jorge. e DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil Republicano. Vol.1 O tempo do liberalismo excludente. Da proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.
SODRÉ, Nelson Werneck. O tenentismo. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1985.