quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os Muckers – messianismo em Sapiranga


O Brasil, da segunda metade do século XIX até meados do XX, foi um terreno fértil para movimentos milenaristas, como Canudos (veja a postagem http://historiaeavida.blogspot.com/2011/10/civilizacao-ou-barbarie-o-massacre-de.html) ou o Contestado. No Rio Grande do Sul, não foi diferente. O mais conhecido movimento foi o dos Muckers, que ocorreu do final da década de 1860 até 1874, em Sapiranga, quando este município ainda fazia parte de São Leopoldo.
Quando os imigrantes alemães chegaram ao Brasil, receberam terras e incentivos do governo. Mesmo assim, havia problemas quanto a questão das heranças. As partilhas acabavam gerando propriedades muito pequenas. Além disso, como o Brasil era um império católico, os imigrantes luteranos acabavam sendo prejudicados, pois todos os registros de batismo, casamento e óbito deveriam estar registrados nas Igrejas, não reconhecendo, portanto, a herança de quem não fosse católico.
Nesse contexto, existiam disputas veladas entre imigrantes germânicos luteranos e católicos, moradores do meio rural e do meio urbano, como comerciantes. Foi nesse contexto e nas bordas entre estes conflitos que surgiram as figuras do casal Jacobina e João Jacob Maurer.
João Jacob era um curandeiro local, conhecido como “Wunderdoktor”, que recebia os doentes em sua casa. A sua esposa, Jacobina, dizia ter visões, e passou a interpretar a Bíblia (ainda que muito provavelmente fosse analfabeta) e a fazer profecias. Muitos dos que frequentavam o lar dos Maurer em busca de curas passaram a ver Jacobina como Messias, uma reencarnação de Cristo, que viria salvar aquelas pobres almas.
Por volta de 1872, os seguidores de Jacobina passaram a se instalar no Morro Ferrabrás, isolando-se do restante da comunidade. Tal comunidade não era muito bem vista pelos membros de uma elite econômica local e causavam problemas para as autoridades. O casal chegou a ficar preso por quarenta e cinco dias em 1873.
O grupo em questão ficou pejorativamente conhecido pelos demais como muckers, palavra alemã que desgina um “falso beato”, ou alguém que parece ser santo, mas na verdade não é de confiança. O termo ainda era usado na Alemanha para designar os membros de uma ala “purista” do luteranismo, os pietistas.
É importante frisar que entre os Muckers havia tanto protestantes como católicos. Foi um movimento social religioso milenarista, que via em Jacobina o seu Messias. Ao mesmo tempo, foi depreciado tanto pelas autoridades eclesiásticas, como por pastores luteranos. Mesmo assim, a mensagem de Jacobina atingiu uma ampla gama da sociedade: tanto pobres quanto pessoas mais abastadas se identificaram com suas ideias.  
Entretanto, com o tempo, o grupo se tornava cada mais separado e cada vez mais se opunha aos outros imigrantes, ou descendentes de imigrantes alemães. Em contrapartida, esta comunidade passou a hostilizar os Muckers cada vez mais. Com isso, os ânimos se acirraram e as normas do grupo ficaram mais rígidas.
Em 1874, os seguidores do casal Maurer teriam praticados atos violentos contra moradores das redondezas. O atentado contra uma autoridade local, o assassinato de um órfão cuja tutela um mucker havia perdido, e vários incêndios a casas, galpões e vendas foram os crimes que lhes foram atribuídos.
No início de agosto de 1874, os Muckers foram massacrados e Jacobina foi morta por uma intervenção militar brasileira. Cerca de cento e cinquenta pessoas foram mortas. O grupo heterogêneo, composto de homens e mulheres; adultos, idosos e crianças ainda resistiu com táticas de guerrilha, apesar da desproporção das forças em combate.
O atual secretário da Cultura do Rio Grande do Sul, Luiz Antonio de Assis Brasil, escreveu o romance “Videiras de Cristal”, que narra a história de Jacobina e seus seguidores. Existem dois filmes sobre o tema: Os Muckers, de 1978, com Paulo César Pereio e José Lewgoy e A Paixão de Jacobina, de 2002, com direção de Fábio Barreto.
Bibliografia:
KÜHN, Fábio. Breve história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Leitura XXI, 2004.
DICKIE, Maria Amélia Schmidt. “O movimento mucker, o demônio, a irracionalidade e o espírito”. In: PICCOLO, Helga Iracema Landgraf e PADOIN, Maria Medianeira. Império - Coleção História Geral do Rio Grande do Sul. Passo Fundo, Méritos, 2006, v. 2.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Independência da Líbia

Semana passada as imagens da morte do ex-ditador líbio, Kadafi, rodaram o mundo. Ele esteve no comando do país desde 1969. Mas vamos verificar o que se passou na Líbia antes disso.
Até 1911, a Líbia fazia parte do Império Otomano. Com a ruína deste, a Itália passou a controlar a região, sendo mais uma colônia africana dos países europeus. Contudo, o domínio italiano se desfez após a Primeira Guerra Mundial, quando o povo local recuperou a autoridade sobre a região, com exceção de parte do litoral.
Durante a Segunda Guerra, em 1939, a Itália retomou o poder sobre a Líbia, não sem resistência da população. Ocorre que a maioria dos italianos vivia em meios urbanos, o que dificultava o controle sobre a terra.
O rei Idris, com o então vice-presidente
dos EUA, Richard Nixon
Com o desembarque das tropas aliadas, dos EUA e da Inglaterra, no norte da África em 1941, o domínio italiano sobre a região caiu em 1942, mesmo com a ajuda dos alemães. Ao final da Segunda Guerra, a Líbia fica com tutela da Inglaterra. Ou melhor, duas das grandes regiões que formam o país ficaram sob domínio britânico: a Cirenaica e a Tripolitânia. Fazzan estava sob a autoridade da França.
Depois do conflito, estava na ordem do dia, a emancipação das antigas colônias européias. Surgiu na ONU, a ideia de que na Líbia fosse aplicado um sistema no qual o seu território seria administrado por outra nação, mas sob o mandato da ONU.
O rei Idris, com Nasser, presidente
do Egito
Evidentemente que os líbios rejeitaram essa proposta. Os grupos locais queriam a independência, mesmo que não confiassem muito na futura relação entre as três principais regiões, Cirenaica, Tripolitânia e Fazzan. Em 1949, a ONU aprovou uma resolução apoiando a independência.
O país se torna independe em 1951 e o rei Idris ascende ao poder. Ele fazia parte da ordem sanusita, ligada à região da Cirenaica, que ajudou os aliados na expulsão dos italianos durante a Segunda Guerra. Por muito tempo, EUA e Grã-Bretanha mantiveram bases militares no país.
Até que em 1969, o rei Idris é derrubado por uma coligação entre intelectuais e militares oficiais e Kadafi assume a presidência do país, só saindo de lá em 2011.
Bibliografia:
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pânico em Wall Street


É curioso notar o pouco caso dado aos protestos na atual ocupação próxima da bolsa de valores de Nova Iorque. Tanto os investidores como parte da mídia parecem dar pouca importância ao que está ocorrendo. Entretanto, o valor simbólico desses protestos é inegável. Wall Street continua sendo um núcleo do que ainda se entende por “capitalismo liberal”, ainda que o processo de globalização tenha descentralizado a economia mundial.
Jornal do dia seguinte à quebra da bolsa
Parece que algumas pessoas só têm medo de uma coisa: crise. E só quando ela afeta o setor financeiro, como ocorreu em 24 de outubro de 1929, quando ocorreu a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, momento em que o mundo capitalista conheceria uma crise sem precedentes.
Mas, para compreender esse fenômeno, é importante recuar um pouco no tempo. Nos Estados Unidos, após a Primeira Guerra, se daria um triunfo do liberalismo, o laissez-faire, ou ainda a crença de que a economia deveria andar sozinha, sem a intervenção do governo. Logo após o final da Guerra, os EUA experimentavam um crescimento espetacular. Com a vitória da Entente, o lado dos americanos, e com a Europa destruída, os Estados Unidos puderam assumir a dianteira da economia mundial.
Desta maneira, exportava seus produtos para os europeus que estavam com suas indústrias destruídas. Tudo isso gerou um grande crescimento na economia americana, acompanhada de alto consumismo e produção industrial, o chamado American Way of Life, uma época de riqueza e prosperidade, um espécie de belle époque para os americanos. Porém, essa ascensão econômica não duraria para sempre. O raciocínio para compreender a crise não é fácil e as causas são muitas e interligadas.
Um dos efeitos da crise: fila de famintos e desempregados
em frente a um cartaz louvando o "American Way of Life".
Ocorre que a exportação para a Europa iria terminar um dia, pois a economia europeia se restabeleceria. Logo, a superprodução, ou o excesso de produtos fabricados, começou a gerar sobras de produtos. Para poder vender o excesso, as empresas baixavam os preços. A redução de preços levava as empresas a demitir funcionários para manter o lucro. Com o desemprego em alta, o consumo diminuía, o que levava a nova queda de preços e novas demissões, acarretando, ainda, diversas falências de empresas.
Na realidade, a Quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque foi o estouro da crise que já vinha sendo gerada e do círculo vicioso exposto acima. Desde meados dos anos 20 que apenas os grandes proprietários vinham se beneficiando. A agricultura americana estava quebrada e os salários não estavam mais subindo. Quando a crise atingiu a elite, podemos imaginar como estava a camada mais baixa da sociedade.
Como a economia liberal da época era mundial, a crise econômica também encontrou proporções mundiais, pois a economia era interligada. Os EUA vendiam e compravam da América Latina e da Europa, por exemplo, formando algo como uma corrente. Se um elo dessa corrente se rompesse, os demais elos também se veriam prejudicados. Assim a economia mundial entrou nesse círculo vicioso de desemprego e falências. Essa época de desemprego e falências de empresas é conhecida como Grande Depressão.
Essa situação gerou um quadro bastante pesado de miséria. Os que pertenciam à “classe média” empobreceram. Os que já eram pobres viram sua situação piorar.
Ao mesmo tempo, antes e durante a crise e a Grande Depressão se assistia nos EUA, um aumento na repressão aos movimentos de esquerda como, por exemplo, anarquistas e comunistas, um crescimento da Ku Klux Klan, do racismo e da discriminação em geral, acompanhada de um maior rigor religioso e da famosa Lei Seca, que proibiu a venda e consumo de álcool no país.
Muitos acreditam que é nos momentos de crise, difíceis, que a criatividade humana mais desponta. Talvez seja uma maneira de se adaptar e encarar a situação. De qualquer maneira, isso acabou refletindo nos filmes e músicas. É notável a repercussão no jazz, estilo tipicamente norte-americano. Com raízes na música africana, francesa, inglesa, o jazz foi no seu início uma música feita por negros, que faziam parte da camada mais baixa da sociedade e sofriam forte preconceito nos anos trinta.
É fato que as vendas dos discos despencaram com a crise e a Depressão. Os artistas passaram a ganhar menos nas suas apresentações. Mesmo assim, o jazz não deixou de ser ouvido e tocado. Nos anos 30, passou sobretudo a ser uma música “dançante”, apresentada pelas big bands, orquestras de jazz. Parecia ser uma forma de amenizar as dificuldades. Muitos negros continuaram tocando como forma de sobreviver. Mas foi só a partir de 1935, com uma vertente mais pop, denominada swing, que o jazz voltou a prosperar. Nesse meio tempo, o jazz estourou para fora dos EUA, tendo relativo sucesso na Europa.
            Mesmo não sendo um grande entendedor de economia, creio que existem diferenças entre a crise atual, que começou em 2008 e a de 29. Primeiro que a Crise de 29 começou a partir da produção e acabou afetando a circulação de mercadorias e a totalidade da economia. Hoje, a crise parece ser virtual, baseada na especulação, ainda que os efeitos sejam muito sentidos juntos à população.
Além disso, porque em 1929 o auxílio do governo à economia só veio em 1933, com o New Deal implantado pelo presidente Roosevelt. O auxílio não veio somente aos bancos, e aos empresários, como também à população mais necessitada. Hoje, o auxílio tem vindo tão somente aos bancos quebrados, dando pouca importância para a penúria do povo. Os cortes para o socorro aos bancos têm sido justamente realizados nos meios sociais, o que tem levado muita gente protestar em Wall Street e no resto do mundo neste mês.
Abaixo, a big band de Duke Ellington, um dos grandes expoentes do jazz nos anos 30:
Bibliografia:
DROZ e ROWLEY. História do século XX. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1988.
HOBSBAWN, Eric. História social do jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
BILLARD, François. A vida cotidiana no mundo do jazz: Estados Unidos: das origens à década de 50. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O presidente João Goulart, um dia falou na TV Que a gente ia ter muita grana Para fazer o que bem entender


Na década de 80, com o fim da repressão, várias bandas de rock fizeram sucesso com letras irreverentes e desbocadas. Entre elas Cascavelletes, Ultraje a Rigor e Camisa de Vênus. É desta última a canção “Simca Chambord”. Este é o nome de um automóvel de luxo produzido no Brasil nos anos 60. A letra usa o carro para tratar do golpe civil-militar sobre o governo de João Goulart, o Jango em 1964.
O Simca Chambord
Vamos nos situar no período histórico. Após Jânio Quadros renunciar em agosto de 1961, Goulart assumiu a presidência, mas num regime parlamentarista, com poderes limitados, estratégia oposicionista para restringir seu poder. Em janeiro de 1963, um plebiscito decidiu pela volta do presidencialismo.
Contudo, Jango vivia uma situação delicada. A dívida externa e a inflação vinham crescendo muito, uma herança maldita do governo de Juscelino Kubitscheck. Para completar o quadro, sua ligação com o PTB e movimentos populares não agradava aos EUA (lembremos que era o período da Guerra Fria), o que complicava as relações internacionais do Brasil.
A principal iniciativa de Jango foi a tentativa de implementar as reformas de base. Estas eram reformas como a bancária, a universitária, a agrária, a eleitoral e a fiscal. Além disso, tomou medidas como a extensão da Previdência Social aos trabalhadores rurais e a lei de remessa de lucros, que limitava a saída de capital do país.
A rigor, durante todo o período, Goulart governou numa encruzilhada: de um lado uma direita de tradição golpista, que sempre esteve disposta a romper com a democracia em nome de seus interesses econômicos. Do outro, uma esquerda que se radicalizava e pretendia lutar pelas reformas de base a qualquer preço. Vamos então para uma análise da música:
Um dia me pai chegou em casa,/nos idos de 63/E da porta ele gritou orgulhoso,/Agora chegou/a nossa vez/Eu vou ser o maior, comprei um Simca Chambord: em 1963 o país vivia em crise econômica. A relação com os EUA não era boa, por isso, a dívida externa não era negociada. A inflação crescia. Dificilmente uma família de classe média compraria um Simca Chambord, um carro caro. Provavelmente, o automóvel se refira às mudanças, ou tentativas de mudanças feitas pelo governo de Jango.
Jango no comício da Central do Brasil
O presidente João Goulart,/um dia falou na TV/Que a gente ia ter muita grana/Para fazer o que bem entender/Eu vi um futuro melhor,/no painel do meu Simca Chambord: “muita grana”, pode se referir às reformas de base e às mudanças sociais que estavam sendo orquestradas. O dia que o presidente João Goulart falou na TV foi 13 de março de 1964, o famoso comício da Central do Brasil.
Ele aglutinou diversas lideranças de esquerda, como Miguel Arraes, governador de Pernambuco; José Serra, presidente da UNE; Leonel Brizola e o próprio Jango. No seu discurso, o presidente defendeu as reformas de base em prol dos trabalhadores, sobretudo a reforma agrária sem indenizações prévias.
Esse fato acabou desagradando muito os setores conservadores, que reagiram organizando a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Outros episódios complicariam a situação de Jango: a anistia para marinheiros que haviam se revoltado e um almoço com sargentos. Ambos desagradaram a cúpula das Forças Armadas.
Mas eis que de repente, foi dado um alerta/Ninguém saía de casa e as ruas/ficaram desertas/Eu me senti tão só, dentro do/Simca Chambord/Tudo isso aconteceu há mais de vinte/anos/Vieram jipes e tanques que/mudaram os nossos planos:a referência é direta ao golpe. Em 31 de março, tropas do Exército comandadas por Olímpio Mourão Filho, saíram de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro com o intuito de prender e depor Jango.
Em primeiro de abril, o governo Goulart foi derrubado. As elites econômicas festejavam. O golpe foi civil e militar, pois além do Exército, recebeu o apoio de empresários, como donos de empresas de comunicação (basta ver os editoriais de grandes jornais nos dias seguintes ao golpe), e dos governadores da Guanabara, Carlos Lacerda; de São Paulo, Ademar de Barros; de Minas Gerais, Magalhães Pinto e do Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti. Este último estado, que havia resistido contra o golpe em 1961, não demonstrou o mesmo apoio desta vez.
Eles fizeram pior/Acabaram com o Simca Chambord: Vieram mais de vinte anos de ditadura. Quem acabou perdendo foi a democracia e o próprio povo brasileiro. O Simca Chambord parou de ser produzido nos anos 70. Mas o que acabou mesmo foram as liberdades individuais e as tentativas de reformas sociais. O pior que o golpe fez foi jogar o país em duas décadas de ditadura.
Este post é uma homenagem ao meu primo Nelson Burd, fã da banda, da música e do Jango. Confira abaixo a música do "Camisa de Vênus":

Bibliografia:
FERREIRA, Jorge. “O Governo Goulart e o golpe civilmilitar de 1964”. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003 (Col. “O Brasil Republicano”, vol. 3),