quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O presidente João Goulart, um dia falou na TV Que a gente ia ter muita grana Para fazer o que bem entender


Na década de 80, com o fim da repressão, várias bandas de rock fizeram sucesso com letras irreverentes e desbocadas. Entre elas Cascavelletes, Ultraje a Rigor e Camisa de Vênus. É desta última a canção “Simca Chambord”. Este é o nome de um automóvel de luxo produzido no Brasil nos anos 60. A letra usa o carro para tratar do golpe civil-militar sobre o governo de João Goulart, o Jango em 1964.
O Simca Chambord
Vamos nos situar no período histórico. Após Jânio Quadros renunciar em agosto de 1961, Goulart assumiu a presidência, mas num regime parlamentarista, com poderes limitados, estratégia oposicionista para restringir seu poder. Em janeiro de 1963, um plebiscito decidiu pela volta do presidencialismo.
Contudo, Jango vivia uma situação delicada. A dívida externa e a inflação vinham crescendo muito, uma herança maldita do governo de Juscelino Kubitscheck. Para completar o quadro, sua ligação com o PTB e movimentos populares não agradava aos EUA (lembremos que era o período da Guerra Fria), o que complicava as relações internacionais do Brasil.
A principal iniciativa de Jango foi a tentativa de implementar as reformas de base. Estas eram reformas como a bancária, a universitária, a agrária, a eleitoral e a fiscal. Além disso, tomou medidas como a extensão da Previdência Social aos trabalhadores rurais e a lei de remessa de lucros, que limitava a saída de capital do país.
A rigor, durante todo o período, Goulart governou numa encruzilhada: de um lado uma direita de tradição golpista, que sempre esteve disposta a romper com a democracia em nome de seus interesses econômicos. Do outro, uma esquerda que se radicalizava e pretendia lutar pelas reformas de base a qualquer preço. Vamos então para uma análise da música:
Um dia me pai chegou em casa,/nos idos de 63/E da porta ele gritou orgulhoso,/Agora chegou/a nossa vez/Eu vou ser o maior, comprei um Simca Chambord: em 1963 o país vivia em crise econômica. A relação com os EUA não era boa, por isso, a dívida externa não era negociada. A inflação crescia. Dificilmente uma família de classe média compraria um Simca Chambord, um carro caro. Provavelmente, o automóvel se refira às mudanças, ou tentativas de mudanças feitas pelo governo de Jango.
Jango no comício da Central do Brasil
O presidente João Goulart,/um dia falou na TV/Que a gente ia ter muita grana/Para fazer o que bem entender/Eu vi um futuro melhor,/no painel do meu Simca Chambord: “muita grana”, pode se referir às reformas de base e às mudanças sociais que estavam sendo orquestradas. O dia que o presidente João Goulart falou na TV foi 13 de março de 1964, o famoso comício da Central do Brasil.
Ele aglutinou diversas lideranças de esquerda, como Miguel Arraes, governador de Pernambuco; José Serra, presidente da UNE; Leonel Brizola e o próprio Jango. No seu discurso, o presidente defendeu as reformas de base em prol dos trabalhadores, sobretudo a reforma agrária sem indenizações prévias.
Esse fato acabou desagradando muito os setores conservadores, que reagiram organizando a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Outros episódios complicariam a situação de Jango: a anistia para marinheiros que haviam se revoltado e um almoço com sargentos. Ambos desagradaram a cúpula das Forças Armadas.
Mas eis que de repente, foi dado um alerta/Ninguém saía de casa e as ruas/ficaram desertas/Eu me senti tão só, dentro do/Simca Chambord/Tudo isso aconteceu há mais de vinte/anos/Vieram jipes e tanques que/mudaram os nossos planos:a referência é direta ao golpe. Em 31 de março, tropas do Exército comandadas por Olímpio Mourão Filho, saíram de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro com o intuito de prender e depor Jango.
Em primeiro de abril, o governo Goulart foi derrubado. As elites econômicas festejavam. O golpe foi civil e militar, pois além do Exército, recebeu o apoio de empresários, como donos de empresas de comunicação (basta ver os editoriais de grandes jornais nos dias seguintes ao golpe), e dos governadores da Guanabara, Carlos Lacerda; de São Paulo, Ademar de Barros; de Minas Gerais, Magalhães Pinto e do Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti. Este último estado, que havia resistido contra o golpe em 1961, não demonstrou o mesmo apoio desta vez.
Eles fizeram pior/Acabaram com o Simca Chambord: Vieram mais de vinte anos de ditadura. Quem acabou perdendo foi a democracia e o próprio povo brasileiro. O Simca Chambord parou de ser produzido nos anos 70. Mas o que acabou mesmo foram as liberdades individuais e as tentativas de reformas sociais. O pior que o golpe fez foi jogar o país em duas décadas de ditadura.
Este post é uma homenagem ao meu primo Nelson Burd, fã da banda, da música e do Jango. Confira abaixo a música do "Camisa de Vênus":

Bibliografia:
FERREIRA, Jorge. “O Governo Goulart e o golpe civilmilitar de 1964”. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003 (Col. “O Brasil Republicano”, vol. 3),

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Revoluções


“You say you want a revolution Well, you know We all want to change the world”, ou “você diz que quer uma revolução. Bem, você sabe, nós todos queremos mudar o mundo”. É o início da canção “Revolution”, do conjunto musical The Beatles. Creditada a dupla Lennon/McCartney, foi lançada no famoso “Álbum Branco”. Apesar disso, sua versão original está num single que saiu como o lado de “Hey Jude” (não esqueça que estamos falando de discos de vinil).
Lennon, aniversariante
do mês de outubro
Uma das canções mais políticas do grupo britânico, “Revolution” foi composta por John Lennon, aniversariante do último domingo, 9 de outubro, apesar do registro como “Lennon/McCartney”. Caso estivesse vivo, completaria 71 anos. O ano de lançamento de “Revolution” é 1968, o que é bastante sintomático. Recapitulando algumas coisas que aconteciam nesse período: Guerra do Vientã, movimento hippie, maio de 68...
A música, em geral, fala sobre revolução, sobre como fazê-la, e como participar de uma. Na canção, Lennon busca dar a sua visão sobre revolução. Detalhe: a versão do single para a do “Álbum Branco”, tem uma diferença no tema do uso ou não da violência.
Outubro também é o mês da Revolução Russa, mais especificamente da “revolução bolchevique”. Se revolução significa uma alteração nas bases da sociedade, foram duas as revoluções que de fato marcaram e alteraram mais a humanidade: a Russa e a Francesa. Ambas mudaram política e ideologicamente toda a sua época e tudo o que viria depois.
A Revolução Francesa, ocorrida em 1789, determinou o fim do Antigo Regime. Neste, o sistema político era o Absolutismo, e a sociedade era de ordens, ou estados. Os nobres e o clero eram parcelas privilegiadas, isentas de tributos. Por isso, o principal grupo revolucionário foi a burguesia. Foi ela que ao final, “tomou as rédeas” da França. Independente disso, foi uma revolução social de massas, com imensa participação da população mais miserável. Esta foi um fator importantíssimo na derrubada do regime anterior, o que se fez através da violência.
Logo, foi uma revolução burguesa, que instaurou os ideias desta classe na França, tais quais, igualdade perante a lei e liberdade de comércio.
Queda da Bastilha, marco inicial da Revolução
Francesa em 14 de julho de 1789.
Ela influenciou o resto do mundo, com repercussões que iam desde a emancipação da América Latina até alterações profundas em quase toda a Europa. Ainda deu as bases para toda a política do século XIX, inaugurou a Idade Contemporânea e deu início ao conceito atual de nação.
Muito entendem que a Revolução Russa, ocorrida em 1917, foi contra o czarismo. Não está errado. Contudo, foi mais que isso: foi uma revolução contra a velha sociedade e os velhos sistemas políticos. Os principais grupos revolucionários foram o campesinato, o proletariado e os soldados russos envolvidos na Primeira Guerra. E a bem da verdade, a Revolução bolchevique de outubro se deu contra o governo provisório dos mencheviques instalado na primeira fase, no início do ano. A Revolução Russa, assim como a Francesa se deu com a luta pela derrubada do poder.
Lenin, um dos líderes da Revolução Russa
Foi, portanto, uma revolução socialista, por implementar este regime no Rússia. Foi a primeira vez que doutrina elaborada por Karl Marx e Friederich Engels foi posta em prática.
Ela influenciou toda a política do século XX, na medida em que fortaleceu as esquerdas em todo mundo. Em decorrência disso, determinou todas as relações internacionais desse período, sobretudo após o fim da Segunda Guerra. Ainda antecedeu outras revoluções socialistas como veio ocorrer na China e em Cuba (esta optou pelo socialismo posteriormente).

Abaixo, vídeo com a música "Revolution", na versão do single:

Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era das Revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991.São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

“Civilização ou barbárie”? O massacre de Canudos

Mapa da localização
de Canudos
Em 1897, a república brasileira ainda era uma criança. Proclamada oito anos antes, até então, só havia contado com presidente militares. O então presidente Prudente de Moraes foi o primeiro civil a assumir o cargo. Era um momento delicado e de rixas políticas. De um lado havia uma elite política dos grandes estados, favoráveis a uma autonomia destes. Do outro, republicanos mais “jacobinos”, membros de uma classe média carioca, aliados dos militares, defensores de um executivo forte e capaz de combater os monarquistas.
Foi nesse contexto que em, 5 de outubro do ano em questão, ocorreu o fim daquilo que se conhece como “Guerra de Canudos”. Vamos, então, retornar ao ano de 1828, quando em Quixeramobim, no Ceará, nasceu Antônio Conselheiro. Filho de um comerciante que foi à falência, estudou latim e francês, tornou-se caixeiro-viajante, mas, um belo dia, eis que sua mulher foge com um militar. Após esse triste fato, passou a peregrinar pelo sertão, até se fixar em uma fazenda abandonada chamada Belo Monte, no norte da Bahia, em 1893.
O lugar recebeu o nome de Arraial dos Canudos. Em pouco tempo, já abrigava entre 20 e 30 mil pessoas, atraindo a população sertaneja. Segundo as autoridades da época, porém, Conselheiro “perturbava as consciências”. Isso porque ele declarava não acreditar na República, pois esta não representaria a vontade de Deus, e era favorável à volta da família real.
Em 1896, um pequeno incidente foi o bastante para Canudos ser atacado. O fato, que não tem comprovações, foi aparentemente banal. Comerciantes de Juazeiro não teriam entregado uma encomenda de madeira para Conselheiro; por causa disso, os membros do Arraial teriam supostamente “assaltado” a cidade. Os “jacobinos” viram ali uma ação para a volta da Monarquia e pressionaram o governo para intervir militarmente no local.
As primeiras expedições todas fracassaram. O ataque inicial a Canudos, em novembro de 1896, contou com 116 homens. Seguiu-se outra tentativa de reprimir o Arraial, em janeiro de 1897, com 619 soldados. A terceira expedição foi realizada em fevereiro de 1897, contando com mil e trezentos militares; teve o mesmo resultado das anteriores. Cento e dezesseis soldados morreram nesta última intervenção.
Moradores de Canudos prisioneiros
do Exército
Por fim, a quarta expedição juntou cerca de dez mil homens, havendo uma grande mobilização de forças. Liderados por Artur Oscar, os militares entraram em Canudos no dia 5 de outubro, após um cerco que vinha desde agosto. Quando o Exército entrou no Arraial, degolou homens, mulheres e crianças, numa das maiores chacinas da História brasileira.
A “Guerra de Canudos” está muito bem documentada em Os Sertões, de Euclides da Cunha. Este foi o enviado do jornal O Estado de São Paulo para realizar a cobertura do conflito. As reportagens, juntamente com outros textos, acabaram virando o livro. Euclides foi “testemunha ocular da história”, conferindo de perto o que ocorreu no Arraial de Canudos.
Primeira edição
de "Os Sertões"
Apesar de importante, o livro é um calhamaço de intermináveis páginas, e por vezes, sua leitura é maçante. A obra se divide em três partes. “A Terra”, em que descreve a geografia física e a natureza inóspita do sertão nordestino. “O Homem”, em que descreve o habitante dessa região: “O sertanejo, é, antes de tudo, um forte”, descreve Euclides da Cunha. Porém, apesar disso, acreditava que o homem do sertão era degenerado pela mestiçagem, numa perspectiva fortemente racista. Segundo as palavras do autor, o sertanejo era um “Hércules-Quasímodo”, combinação do herói grego com o “Corcunda de Notre-Dame”. Tal ideia foi baseada nas teorias de Nina Rodrigues, médico introdutor das propostas de Cesare Lombroso no Brasil. Em síntese, entendia que havia raças superiores às outras e a miscigenação racial fazia mal ao país. Pode-se perceber que era uma concepção de mundo (e de ciência) bastante preconceituosa.
Por fim, a terceira parte era “A Luta”, na qual é narrado o confronto do Exército brasileiro com os homens de Canudos, durante a quarta expedição. Segundo Euclides da Cunha, “Canudos não se rendeu. Resistiu até o esgotamento completo”. Para ele, Canudos era um empecilho à construção da nacionalidade brasileira e à formação desta nação. Isso porque enxergava ali “um foco de restauração da monarquia”. Mais do que isso: para ele, Canudos significa o atraso diante do desenvolvimento do país. O autor estava muito imbuído da ideia positivista de “ordem e progresso”. Apesar disso, parece ter ficado chocado com o que foi encontrado em termos de morte e destruição no dia 5 de outubro de 1897.
Positivismo é uma doutrina elaborada por Augusto Comte que prevê um executivo forte, a harmonia entre as classes e, segunda as palavras do seu criador “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”. O positivismo esteve em moda nos primeiros anos da República brasileira, principalmente junto aos governos militares de Deodoro e Floriano, e no Rio Grande do Sul durante a República Velha.
Euclides da Cunha
Para o Euclides e para o governo, a luta contra Canudos significaria luta da civilização contra a barbárie. Hoje, pode-se perguntar quem era a civilização e quem era a barbárie. Será que os homens “ilustrados” da capital federal que promoveram o massacre podem ser considerados como “civilizados”? Por que estes homens não tiveram a capacidade de entender aqueles pobres sertanejos?
A rigor, Canudos combinou o conteúdo religioso com carência social. De um lado, as crenças católicas bastante fortes no nordeste, o que também pode ser conferido no caso do “Padre Cícero”, anos mais tarde. Do outro, infindável miséria, fome e exploração de grande parcela da população local. Talvez, os sertanejos tenham buscado e encontrado em Canudos uma esperança de vida melhor. Mesmo assim, não se deve pensar em Canudos como uma sociedade igualitária nos moldes de um comunismo. Tal ideia é completamente fora de propósito e fora do tempo e do espaço (para não dizer “fora da casinha” também).
Única foto de  Conselheiro, já morto

Um detalhe sórdido: a degola que os soldados promoveram lá foi “importada” do Rio Grande do Sul, prática bastante conhecida por estas bandas durante a “Revolução Federalista”. Um detalhe triste: em 1909, Euclides da Cunha descobre que sua mulher o traía com um tenente do Exército. Tenta matá-lo, mas acaba sendo morto pelo militar.
Bibliografia:
HERMAN, Jacqueline. “Religião e política no alvorecer da República: os movimentos de Juazeiro, Canudos e Contestado”. In: FERREIRA, Jorge. e DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil Republicano. Vol.1 O tempo do liberalismo excludente. Da proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1956. (existem diversas edições)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Casablanca



Casablanca é sem dúvida um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos. Dirigido por Michael Curtiz, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, o filme conta a história de Rick e Ilsa durante a Segunda Guerra Mundial. Casablanca, cidade do Marrocos fazia parte da rota de fuga para a América no período. Ali, Rick possui um bar. Um dia Ilsa e seu marido, Laszlo entram lá. “De todos os bares em todas as cidades do mundo e ela entra no meu!”, reclama Rick. Ele e Ilsa tiveram um romance em Paris, pouco antes da invasão alemã. Ocorre que a garota desiste de Rick para estar ao lado de Laszlo. E Rick possuía dois vistos de saída de Casablanca, o que possibilitaria o casal deixar o lugar para ir a América.
Apresentados os personagens e a história, vamos a uma análise de vários aspectos do filme:
·         A Segunda Guerra em Casablanca: É importante destacar que o filme foi gravado em 1942, durante a guerra. A obra foi produzida no “calor da hora”, o que lhe confere um forte aspecto político. Devemos nos perguntar o que Casablanca nos conta sobre o período. A posição dos nazistas e dos alemães como vilões da história é algo muito revelador. No princípio da Segunda Guerra e mesmo hoje em dia, alguns filmes não mostram o povo alemão como responsável pelo regime nazista. Talvez seja espécie de “política de boa vizinhança” de Hollywood. Em 1942, porém isso não seria possível, dada a situação que a Europa e o mundo se encontravam. A “culpa” ou não do povo alemão pelo regime de Hitler é algo que nos levaria a uma longa discussão. Porém não devemos esquecer que ele foi eleito chanceler e que teve grande apoio popular. Também não devemos esquecer que instalou uma ditadura totalitária, em que toda a forma de oposição era perseguida e assassinada. Como lutar contra um regime assim?

·         Invasão da França: A Segunda Guerra começa oficialmente em setembro de 1939, quando a Alemanha invade a Polônia. A expansão nazista foi bem rápida e em junho de 1940, já havia chegado à França. A Segunda Guerra foi um dos maiores vexames da história francesa. Em princípio, o governo francês colocou seus soldados na fronteira com a Alemanha, na chamada “linha Maginot”. Contudo, essa estratégia revelou-se errada, já que os nazistas atacaram a França pela Bélgica, que havia sido conquistada, chegando facilmente até Paris em 14 de junho de 1940. No dia 22, a França assinou a rendição. O país foi dividido: o norte ocupado pelos nazistas e no sul se instalou a França de Vichy.

·         França de Vichy: O norte da França, incluindo Paris, era alemão, ao qual ainda foram anexados os territórios da Alsácia e Lorena. Ao sul, se instalou um governo fascista e colaboracionista, liderado pelo general Pétain. Conhecido como França de Vichy, por ter essa cidade como capital, teve o apoio da Igreja, da direita e da elite francesa favorável ao nazismo. Em outras palavras, a França de Vichy não passava de um “Estado fantoche” do III Reich.

·         A resistência: Na realidade, durante o conflito e a ocupação, a resistência teve pouca importância militar, com exceção da Iugoslávia. Ela só deu as caras, a rigor, no início da invasão e final do conflito, auxiliando os aliados. Durante a guerra, se viu obrigada a permanecer escondida, fugindo, ou realizando ações esparsas. Foi um mito construído após a guerra, pelos novos governos, que boa parte dos membros havia participado da resistência. Era necessário que houvesse heróis depois de um período tão conturbado. O próprio general De Gaulle, líder da resistência francesa, afirmou que “a resistência foi um blefe que deu certo”. E aqui o filme escorrega num erro: as duas cartas que possibilitariam Laszlo e Ilsa deixar Casablanca eram assinadas por De Gaulle. Que não tinha nenhuma autoridade sobre a França de Vichy, afinal, De Gaulle, era o líder da oposição francesa ao III Reich e estava exilado na Inglaterra.

·         A guerra na África (Marrocos): A cidade de Casablanca fica no Marrocos, país do norte da África. A região era dominada pela França desde 1926, após uma disputa contra a Espanha. É importante relacionar este controle do Marrocos pela França com o imperialismo, ou neocolonialismo, que consistia em uma expansão européia rumo a Ásia e a África em busca matéria-prima e mercado consumidor para a indústria. Após 1940, o Marrocos fica sob a administração de Vichy. A França, agora colaboracionista, perdeu sua força imperialista perante os dominados devido à invasão, mas ainda assim tinha o controle sobre parte dessas regiões, como era o caso do Marrocos. Curioso que em novembro de 1942, as tropas dos Estados Unidos que lutaram contra o nazi-fascismo na África, desembarcaram justamente no Marrocos e na Argélia.

Bogart em Casablanca
·         E a população durante a guerra: É interessante perceber a posição das pessoas na cidade de Casablanca perante a guerra. Rick, por exemplo, é um americano que havia vendido armas para Etiópia, quando esta foi invadida por Mussolini, além de lutar na Guerra Civil Espanhola contra Franco. Ainda teve que fugir de Paris depois da invasão nazista. Mesmo assim, em Casablanca, se declarava politicamente neutro. Mas pra mim, o personagem mais interessante é o chefe da polícia local, o inspetor Renault. Corrupto e imoral, parece representar bem a maior parte da população durante a guerra e durante um regime de exceção: é necessário “dançar conforme a música”, se adaptar. Assim, Renault se mostra de início colaborador dos nazistas. Mas não deixa de ser amigo de Rick e de realizar apostas no seu bar, ainda que isso fosse ilegal.
Ou seja: a maioria das pessoas é obrigada a se encaixar na nova realidade, mas isso não significa que concordem totalmente com o que ocorre.
É um filme que vale muito a pena ser visto. Quem ainda não assistiu, corre para alugar, ou para baixar. Além de possibilitar bons trabalhos em aula com os alunos.

Trailer do filme:
Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
VICENTIZI, Paulo Fagundes. Segunda Guerra Mundial: história e relações internacionais, 1931-1925. Porto Alegre, Ed. da Universidade/UFRGS, 1989.
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
CASABLANCA. Michael Curtis. Warner Bros. EUA: 1942. DVD. (102 min), p&b.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Porto Alegre – “leal e valerosa” ao Império

Brasão de Porto Alegre
Quem conhece o brasão da cidade de Porto Alegre, sabe que sobre ele constam os dizeres “Leal e valerosa cidade de Porto Alegre”. Isso se deve aos fatos ocorridos entre 1835 e 1845 no Rio Grande do Sul, mais especificamente no período conhecido como Revolução Farroupilha. Mas Porto Alegre não ganhou este título devido ao seu papel em favor dos Farrapos. Muito antes pelo contrário: pelo seu apoio ao Império.
Em 20 de setembro de 1835 começou a Guerra dos Farrapos. Suas causas estiveram ligadas ao descontentamento das elites gaúchas quanto a não tributação do charque do Prata por parte do governo brasileiro. Ainda havia insatisfação em relação à centralidade do poder Imperial. Os presidentes da província, indicados pelo Rio de Janeiro, nem sempre eram do agrado dos rio-grandenses.
Não esqueçam que desde 1831, com a volta de D. Pedro I para Portugal, o Brasil vivia no Período Regencial, até que D. Pedro II, com seis anos, pudesse assumir a monarquia. Ainda que o Ato Adicional de 1834 desse maior autonomia às províncias, a situação de oposição ao Império por parte da elite do Rio Grande do Sul havia chegado num ponto irreversível, no qual o diálogo seria pelas armas.
Cabe destacar que os líderes da revolta eram pecuaristas, estancieiros e charqueadores, membros da elite local. Contudo, é importante perceber que não foram todos os sul-rio-grandenses que aderiram à rebelião. Havia, principalmente nos grandes centros urbanos, apoiadores do Império. Assim, a província ficou dividida entre farroupilhas e imperiais. Não é à toa que as cidades escolhidas como capitais pelos rebeldes eram ligadas ao meio rural, como Piratini.
Entre os “grandes centros urbanos” estava Porto Alegre, se é que se pode chamar assim uma cidade com cerca de 20 mil habitantes. Pois o conflito teve início justamente após a invasão desta pelos Farrapos, que derrubaram o presidente da província, Fernandes Braga, em 20 de setembro de 1835. Para se ter uma ideia, a cidade foi invadida pela ponte da Azenha sobre o Arroio Dilúvio. Foi ali que se deu o primeiro combate de farroupilhas contra imperiais. Porém, no ano seguinte, os legalistas tomaram a cidade de volta.
Foto atual da Ponte da Azenha, onde teriam ocorrido os primeiros combates do conflito e por onde os rebeldes teriam entrado em Porto Alegre

Bento Gonçalves
De 1836, até 1838, os rebeldes, liderados por Bento Gonçalves investiram sem sucesso contra Porto Alegre. A resistência da cidade frente às tropas farroupilhas lhe valeu o título de “leal e valerosa”. Porto Alegre se tornou um ponto estratégico para os imperiais, inclusive para a economia local. Durante toda a Guerra dos Farrapos, a cidade permaneceu por muito mais tempo nas mãos dos imperiais. Os únicos meses em que Porto Alegre esteve sob comando dos farroupilhas, foi dominada, sem consentimento da população.
Foi dali que o barão de Caxias partiu em 1843 para derrotar os rebeldes. Caxias havia sido indicado pelo governo central para dar uma solução no conflito farroupilha. Sua ofensiva culminou em uma série de derrotas dos farrapos, que levaram os rebeldes a decadência. Em 1845, foi assinada a paz de Ponche Verde, no qual os revoltosos entregaram as armas. Como compensação os líderes foram anistiados e as dívidas dos farrapos, perdoadas.
Caxias em 1877

Bibliografia:
KÜHN, Fábio. Breve história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Leitura XXI, 2004.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1990.

PADOIN. Maria Medianeira. “A Revolução Farroupilha”.  In.: PICCOLO, Helga Iracema Landgraf. Império. Passo Fundo, Méritos, 2006. v.2. Coleção História Geral do Rio Grande do Sul.

GUAZELLI. Cesar Augusto Barcellos. “O Rio Grande de São Pedro na primeira metade do século XIX: Estados-nações e regiões províncias no rio da Prata”.  In: GRIJÓ, Luiz Alberto et. all. Capítulos de história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2004.