quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Conquista do México pelos espanhóis – Por quem cara-pálida?


Localização do império Asteca
Em 1519, os espanhóis chegavam onde hoje é o México, habitado na época pelos astecas. Hernan Cortez, comandante do exército do rei, derrotou os nativos com apenas cerca de quatrocentos homens. Como foi possível uma derrota de um exército de um reino que controlava boa parte das cercanias de Tenochtitlan, a principal cidade asteca, atual Cidade do México nessas condições?
Para começar é importante entender o que os espanhóis foram fazer ali. É necessário inserir a “Conquista do México” no âmbito do mercantilismo, a faceta econômica do Antigo Regime. Entre as características do mercantilismo estão o colonialismo, que conferia poder para aquele Estado que tivesse o maior número de colônias e territórios a serem explorados. Outra característica do mercantilismo era o metalismo, para o qual a riqueza de um reino se mediria através da quantidade de metais preciosos que este arrecadasse. E já se sabia que o México tinha ouro em boa quantidade, pois já havia ocorrido contato entre espanhóis e astecas desde 1517.
Imagem de um guerreiro asteca
Tendo em vista isso, vamos afastar algumas ideias do senso comum. Alguns supõem que os europeus eram superiores aos americanos, o que denota um forte racismo. Outros podem imaginar que os espanhóis tinham vantagem com os cavalos e armas de fogo. Na realidade, esse número era inexpressivo. Talvez tenha havido um assombro inicial, um certo fator psicológico, pelo desconhecimento dos astecas a respeito de tais elementos. Mas com certeza, não foi um fator decisivo. As epidemias, por exemplo, foram muito mais devastadoras.
Ainda existe um pensamento que supõe que os astecas acreditavam que os espanhóis eram deuses. Alguns afirmam que houve uma coincidência entre a data do desembarque de Cortez com o ano que segundo o calendário asteca ocorreria o retorno de um deus bondoso que havia partido. Mas os primeiros episódios de violência por parte dos espanhóis desfizeram essa crença dos habitantes da América. Pensar que os astecas se renderam aos europeus por acreditar que estes eram deuses pode ser cair em uma ideia preconceituosa de que não se deram conta do que estava acontecendo. Uma hipótese é que esta foi uma versão elaborada após a Conquista, pelos próprios astecas para justificar a derrota.
Cortez, na realidade, se utilizou da astúcia e da diplomacia. Os astecas, antes da chegada dos espanhóis, subjugavam uma série de povos locais como os tlaxcaltecas e os huejotzincanos. Os espanhóis conseguiram se unir a estes rivais para poder vencê-los, através do trabalho de intérpretes, homens que já circulavam entre o mundo espanhol e o indígena. A maioria dos guerreiros no episódio da queda do império Asteca era composta de outros nativos da América. Foi uma guerra civil indígena que resultou na dominação espanhola.
É importante destacar que os indígenas da aliança antiasteca não foram meros instrumentos dos espanhóis. Viviam em um regime terrível pela cobrança de tributos em espécie e em trabalho. Estavam agindo de acordo com o próprio interesse, para se livrar da dominação asteca. Não imaginavam que o pior talvez ainda estivesse por vir.
Um interessante documento a respeito da Conquista do México são as cartas que Hernan Cortez escreveu ao monarca espanhol. Nelas conta ao rei Carlos V não só como se deu a vitória sobre os astecas, mas também traça um panorama dos primeiros anos de colonização hispânica na América.
Imagem de Cortez
Bibliografia:
WACHTEL, Natan. “Os Índios e a Conquista Espanhola”. in: BETHELL, Leslie. História da América Latina - América Latina Colonial – V.1. São Paulo, Edusp, 1997.
RESTALL, Matthew. Sete Mitos da Conquista Espanhola. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O sequestro do embaixador americano – a luta armada contra a ditadura


Em 1969, o Brasil vivia sob forte ditadura militar desde o golpe de 1964. Um ano antes, o AI-5 restringiu muito as liberdades individuais no país. Os EUA apoiavam o governo autoritário brasileiro, assim como em outros países da América Latina. Em oposição a esta situação, se formaram diversos grupos de luta armada com tendência política marxista.
Estes movimentos guerrilheiros tiveram início em 1967 e acirraram suas ações após 68. Estas eram geralmente urbanas, com exceções como o Araguaia e a guerrilha de Lamarca. Na maioria das vezes, consistiam em desapropriações, ou seja, assaltos a bancos, com o objetivo de conseguir dinheiro para financiar a continuação da luta armada.
Foi nesse contexto que em 4 de setembro de 1969, dois desses grupos,o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro) e a ALN (Ação Libertadora Nacional) sequestraram o embaixador estadunidense no Brasil, Charles Elbrick. A data não foi escolhida à toa. Um dos objetivos era marcar o 7 de setembro, o “dia da pátria”, mostrar que havia algo de errado com o país.
O raptado tampouco foi escolhido à toa. Vivia-se em plena Guerra Fria e os EUA representavam o bloco capitalista, sendo a grande potência ocidental. Os guerrilheiros divulgaram um manifesto lido ao vivo no Jornal Nacional, exigindo a libertação de quinze companheiros, presos políticos, e denunciando o regime autoritário que prendia, torturava e matava.
Treze dos quinze presos soltos em troca de Elbrick. Entre eles, José Dirceu (o segundo de pé da esquerda para direita) e Flávio Tavares (o último agachado da esquerda para direita)
Os quinze prisioneiros foram soltos e postos em um avião em direção ao México. O embaixador foi libertado em 6 setembro. Os sequestradores foram presos pela ditadura e posteriormente trocados após o sequestro de um embaixador alemão. Entre eles estavam o deputado federal Fernando Gabeira e o jornalista e ex-ministro da comunicação social, Franklin Martins, que inclusive escreveu o manifesto.
Foto atual de Gabeira
O filme “O que é isso companheiro?” de Bruno Barreto, baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, narra essa história. No livro, Gabeira relata o rapto em apenas um capítulo, mas o filme é todo sobre a ação do sequestro. Porém, temos que estar atentos para algumas questões do filme. Talvez no intuito de colocar alguma dramaticidade na obra, ele mostra alguns guerrilheiros como extremistas, ou os “malvados” da história. O que não aparece no livro. O mesmo acontece nos órgãos de repressão, com torturadores com crises de consciências, como o “bom moço” da história.
A História, com “H” maiúsculo, não tem heróis ou vilões, mocinhos ou bandidos, não é um filme de faroeste. Existem sim vítimas e algozes, mas todos estes têm a sua ação e participação nos fatos. Entendo que isto possa ser um recurso do cinema, ou do roteiro para contar uma História.
Cartaz do filme
Mas qual será o sentido da leitura que o filme “O que é isso companheiro?” faz da História? Não será demonstrar que “olha só, do lado da guerrilha eles também eram maus. Eles eram terroristas”? E desse ponto para justificar a repressão, prisões, torturas e mortes pode ser um passo pequeno.
Não existe nenhum problema em se assistir a esse filme na busca de se entender o período. Porém temos que estar atentos para estes detalhes que podem passar em branco numa visão mais descompromissada.
Bibliografia:
FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992.

ROLLEMBERG, Denise. “Esquerdas revolucionárias e luta armada”, in Jorge Ferreira e Lucília de Almeida Neves (orgs.). O Brasil Republicano. O tempo da ditadura. Regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Vol. 4. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.

GABEIRA, Fernando. O que é isso companheiro? São Paulo, Companhia das Letras, 2010.

 O que é isso companheiro? Bruno Barreto. Colúmbia Pictures. Brasil, 1997. DVD. Colorido. 


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A Independência do Vietnã – “Bote fé no velhinho”

Giap, em foto atual
O “velhinho” em questão no título é Vo Nguyen Giap, que no último dia 25 de agosto fez cem anos. É considerado um herói da independência vietnamita, junto com Ho Chi Min, antes dos soldados americanos terem sido “chamados ao Vietnã, lutar com os vietcongs”.

A emancipação desse país deve ser vista no contexto do fim dos impérios coloniais europeus na África e na Ásia. A principal potência imperialista desde meados do século XIX era a Inglaterra, mas outros países como Bélgica e França também tinham suas colônias. O Vietnã estava submetido a esta última.

Ocorre que após a Segunda Guerra Mundial, esses impérios começaram ruir. Depois desse conflito, a Europa ficou muito debilitada, arrasada, e mesmo as nações vencedoras não conseguiam mais manter suas colônias sob controle. A bobagem da ideia do “homem branco” ser superior aos demais caía por terra. A guerra mostrou que os europeus podiam ser derrotados e que o racismo poderia levar a humanidade a situações catastróficas.

Soma-se isso, ao surgimento do sentimento nacionalista em muitas dessas regiões da Ásia e África, sem desconsiderar que estes povos sempre quiseram estar livres do domínio europeu. Agora, com a Europa enfraquecida no pós-guerra parecia o momento ideal. A vitória da URSS na Segunda Guerra também é um aspecto considerável. Além da propagação dos ideais socialistas pelas regiões então colonizadas, ela deu início a uma nova concepção de mundo, com a Guerra Fria. A disputa entre soviéticos e americanos relegava o resto da Europa a um segundo  plano no cenário internacional.

A França após a guerra encontrava em situação lastimável. Havia sido invadida pelos nazistas. Sua economia foi arrasada e sua população sentia-se humilhada. O Vietnã fazia parte da Indochina, que englobava ainda a região dos atuais Laos e Camboja, ou seja, era uma área construída arbitrariamente pelo império colonial francês. Em 1945, no final da Segunda Guerra, contudo, o norte era dominado pela China e o sul pelos ingleses.

               
Ao retomar o controle da região, a França prometeu desocupá-la em até cinco anos e reconheceu o Estado do Vietnã como membro da Federação Indochinesa e da União Francesa. Entretanto, de maneira unilateral e arbitrária, os franceses criaram no sul do Vietnã, a República da Conchinchina (sim, ela existiu de verdade). Assim, tentaria manter o controle sobre a região, retomando a velha “Indochina Francesa”, à qual o governo vietnamita liderado pelo comunista Ho Chi Minh se opunha.

Giap e Ho Chi Minh
Em vista disso, em 1946, a França bombardeou a cidade de Haiphong, no norte. Em resposta, o governo vietnamita atacou Hanói, cidade com grande número de europeus, entrou na clandestinidade e a “Guerra da Indochina” teve seu início. A luta pela libertação do Vietnã só foi terminar em 1954. Os franceses, com o apoio dos ingleses tentaram reconquistar o país, mas foram derrotados pela população local.

Os vietnamitas fizeram largo uso das táticas de guerrilha já nesse confronto contra os europeus. Nesse momento se revelou a capacidade militar e estratégica de Vo Nguyen Giap. Em 1954, ele foi o líder da vitória sobre os franceses em Dien Bien Phu, uma fortaleza dos europeus estrategicamente localizada. Este foi um considerado um vexame para os franceses, que não admitiriam ser derrotados pelos vietnamitas de uma forma tão pesada.  

No mesmo ano, a França se viu obrigada a assinar um acordo que punha fim na sua dominação sobre o Vietnã e na guerra. Surgiram então, dois países: o Vietnã do Norte, sob o governo de Ho Chi Minh, apoiado pelo bloco socialista; e o Vietnã do Sul, sob a influência dos EUA. Não é preciso ser um gênio para descobrir no que isso resultou: na Guerra do Vietnã.
 
O importante é entender as independências dos antigos impérios colônias, não apenas pelo prisma dos europeus, mas também pelo ponto de vista dos asiáticos e africanos. É a melhor maneira de escapar do eurocentrismo e de não cair em ciladas preconceituosas que ignorem as ações desses povos excluídos.

Vo Nguyen Giap teve papel importante nessa guerra também e até hoje é referenciado como um dos heróis nacionais. Detalhe: antes de se envolver com o conflito, era professor de História. A ideia dessa postagem veio do meu amigo Emanuel Kern. Valeu cara, baita assunto!

Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
LINHARES, Maria Yedda. A luta contra a metrópole (Ásia e África).