quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A questão nuclear

Desde o início, quero deixar claro que sou contra o uso da energia nuclear e evidentemente, contra o uso, pesquisa e proliferação de armas nucleares. Portanto, tudo o que eu disser aqui será tendencioso. Não sou contra o uso da energia nuclear, mas acredito que existem outras possibilidades mais limpas e seguras, ainda que não consigam gerar tanta energia quanto a nuclear. Alguém poderia argumentar que isso reflete um medo da tecnologia moderna, uma espécie de hipocondria do mundo atual. As razões pelas quais sou contra pesquisas com armas nucleares me parecem óbvias e de desnecessária explicação. Contudo, entendo o uso de materiais radioativos pela medicina, até em situações banais como o raio-X. Nesse caso, o objetivo não é tirar vidas, mas salvá-las. Ainda destaco que sou formado em História e não em Física, por isso não tenho a capacidade de explicar o processo de fissão nuclear, sem enrolar os leitores, o que não pretendo fazer.
Tivemos nesse ano o acidente nuclear de Fukushima no Japão em virtude do abalo sísmico de março. No mesmo Japão, ontem (dia 10 de agosto), fizeram 66 anos do lançamento da bomba atômica em Nagasaki. Enquanto o Brasil quer ampliar as usinas de Angra, a Alemanha anunciou que vai desativar as suas. O assunto parece estar em pauta. 
Quero abordar dois eventos que envolvem armas nucleares e dois eventos que envolvem acidentes com energia nuclear. São eles: o bombardeio das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, a crise dos mísseis em Cuba e os acidentes de Three Miles Island, nos EUA e de Chernobyl, na antiga URSS.  Vou tentar trazer elementos culturais que ilustrem esses eventos.

·         As bombas atômicas de Hiroshima e Nahasaki foram lançadas respectivamente dias 6 e 10 de agosto de 1945. Consistiram em mais uma das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra. Nessa altura, a Alemanha e a Itália, outras potências do Eixo já haviam se rendido, o conflito estava praticamente no fim. Mesmo assim, o governo dos EUA, do presidente Truman decidiu pelo bombardeio.

O cogumelo formado pela explosão da bomba atômica em Hiroxima
O Japão, através do seu imperador Hiroito, capitulou em 2 de setembro. Segundo o próprio governo americano, o objetivo não era apressar o final da guerra, mas impedir que mais soldados americanos morressem. O front oriental também foi bastante penoso e complicado, com disputas no Pacífico ilha a ilha. A rigor, o Japão não era fascista durante a guerra, nem antes dela. Tinha sim o objetivo expansionista na região. A união do Japão com alemães  e italianos se deve a questões táticas, principalmente pela disputa colonialista entre o país asiático e os EUA e URSS pelo controle de regiões do Pacífico.
Muitos autores, contudo, apontam que a bomba foi lançada para intimidar a URSS e impedir que esta também atacasse o Japão e reivindicasse a sua participação, como ocorreu na Europa. O resultado foi cerca de 100 mil mortos e 100 mil feridos em cada um dos bombardeios, sem contar as vítimas posteriores da radiação.
Logo após a Segunda Guerra, o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema Rosa de Hiroxima, musicado pelo grupo Secos & Molhados, do qual Ney Matogrosso era o vocalista. Abaixo, o poema:

Rosa de Hiroxima
Vinícius de Morais
Pensem nas crianças mudas telepáticas
Pensem nas meninas cegas inexatas,
Pensem nas mulheres rotas alteradas,
Pensem nas feridas como rosas cálidas,
Mas não se esqueçam da rosa da rosa,
Da rosa de Hiroxima a rosa hereditária,
A rosa radioativa estúpida e inválida,
A rosa com cirrose a anti-rosa atômica,
Sem cor nem perfume sem rosa sem nada.

Assista ao vídeo da música interpretado pelo Secos & Molhados: 


·         A crise dos mísseis em Cuba aconteceu em 1962, auge da Guerra Fria. Este é o nome que se dá ao conflito não declarado entre URSS e EUA, que foi do término da Segunda Guerra Mundial até o final do regime soviético. Para além de um conflito ideológico entre capitalismo e socialismo, a Guerra Fria foi uma disputa entre potências por áreas de influência. 
As armas nucleares tiveram importante papel nessa disputa, uma vez que ambos as possuíam, o que equilibrava a disputa, ainda que os soviéticos só tenham desenvolvido a bomba quatro anos depois dos norte-americanos, em 1949. E ainda que os dois se envolvessem em conflitos periféricos, como o Vietnã, nenhum dos dois queria de fato o embate direto, tampouco “apertar o botão”, sob sério risco de extinção da humanidade.
Foto aérea dos mísseis soviéticos em Cuba

Um dos momentos mais tensos da Guerra Fria foi justamente a crise dos mísseis em Cuba. Em 1962, os russos instalaram mísseis nesse país como resposta ao fato de no ano anterior, os EUA terem colocado o mesmo tipo de armamento na Turquia, próximo à URSS. Sempre lembrando que em Cuba ocorreu uma revolução em 1959, que depôs o ditador aliado dos americanos, e que em 1961 houve uma tentativa de invasão ao território cubano por parte destes. No mesmo ano, Fidel Castro adotou o socialismo no país. 
O presidente dos EUA na época, John Kennedt

Foram treze dias de impasse entre o líder soviético Nikita Kruschev e o presidente norte-americano John Kennedy. Ao fim, os mísseis soviéticos foram retirados de Cuba e os americanos fizeram o mesmo com os da Turquia. O medo de uma guerra nuclear era algo latente naqueles anos 60.
O líder soviético da época, Nikita Kruschev.

Porém, por que não brincar com essa situação? É o que propõe a excelente comédia “Dr. Fantástico”, Dr. Strangelove no original, dirigida pelo genial Stanley Kubrick (tudo que esse cara fazia era bom) e estrelada por Peter Sellers (representando três papéis diferentes), o que já garante o filme. É a história de um general americano lunático que ordena o bombardeio atômico sobre os russos, o que pode ter consequências catastróficas para a humanidade. É uma obra imperdível que faz piada com um dos maiores temores da Guerra Fria: um conflito de armas nucleares.
Confira abaixo o trailer do filme:


·         Three Miles Island foi o acidente com energia nuclear mais sério da História do EUA. Ocorreu em 29 de março de 1979, durante o governo de Jimmy Carter em uma usina nuclear geradora de energia no estado da Pensilvânia, no norte da costa leste americana. Decorreu de uma falha nos equipamentos devido a erros humanos, o que gerou um vazamento. Os técnicos acabaram o controlando, entretanto água e gases com material radioativo escaparam. Os moradores da região foram imediatamente removidos e a dose de radiação que vazou nunca foi conhecida.

Já falei da aqui no blog ótima banda punk britânica The Clash, que trazia muitas vezes nas suas canções, conotações políticas. Uma de suas músicas mais clássicas é London Calling, do álbum homônimo. A canção fala de desastres e catástrofes, entre elas a nuclear. A letra diz: “Meltdown expected and the wheat is growing thin” e mais adiante: “A nuclear error but I have no fear”. A primeira frase, ou a palavra “Meltdown” se refere ao momento que o núcleo do reator atômico não é mais resfriado e os materiais radioativos derretem, liberando-os para o ambiente. O erro nuclear se refere justamente ao acidente de Three Miles Island. A música é de 1979, ano do fato em questão. Abaixo, assista ao vídeo oficial da canção:

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Chernobyl
foi o maior acidente de uma usina nuclear da humanidade. A usina de Chernobyl ficava na atual Ucrânia, próxima à Belarus, na época ambos os países faziam parte da URSS. A causa foi novamente falha humana, o que gerou o escapa de radiação. O acidente aconteceu em 26 de abril de 1986, época do governo de Mikhail Gorbatchov. Os soviéticos tentaram esconder o vazamento, o que se tornou impossível, pois a radiação se espalhou pela Europa e foi detectada por outras nações como a Suécia. 

Imagem atual da usina desativada
As pessoas que habitavam as imediações da usina foram as maiores vítimas. Segundo a ONU, cerca de 4 mil pessoas morreram devido ao acidente com a usina, mas o Greenpeace aponta para 100 mil. Com muito custo, os soviéticos conseguiram conter a radiação através do trabalho dos “liquidadores”, homens que construíram uma imensa barreira de aço e concreto em volta do reator. Evidente que muitos acabaram morrendo em decorrência da radiação. 

Tal qual The Clash, a banda punk brasileira Replicantes, da qual Wander Wildner fazia parte, abordou a questão da energia e das armas nucleares. Destaque para Chernobill que diz: “Eu não quero acordo nuclear, Eu não quero acidente nuclear, Eu não quero lixo nuclear, Eu não quero a bomba nuclear” e para Boy do subterrâneo, que imagina um apocalipse nuclear, com os seguintes versos: “Mas nossos filhos serão mutantes, Queria tudo como era antes, O sol nunca mais vai brilhar Aqui dentro do abrigo nuclear”.


Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do povo. Rio de Janeiro, Record, 1984. Primeira edição: 1945.
Dr. Fantástico. Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb. Stanley Kubrick. Columbia Pictures. Reino Unido: 1963. Local da distribuidora, Columbia Tristar Home Entertainment, DVD. (93 min.), p&b.
Jones/Strummer, THE CLASH. London Calling: CBS, Epic, Legacy, 1979.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

AGOSTO


Agosto parece ser o mês mais longo do ano. Tem trinta e um dias e nenhum feriado, enquanto o resto do tempo passa depressa, agosto parece que se arrasta. Como se não bastasse tem a má fama de ser o “mês do desgosto”. Dois importantes fatos da História do Brasil republicano endossam essa ideia: o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e a renúncia de Jânio Quadros em 1961. Nessa postagem quero me ater ao primeiro evento.
Getúlio Vargas havia sido presidente do Brasil entre 1930 e 1945, governando sob uma ditadura que se tornou mais ferrenha a partir de 1937. Em 1950 se elegeu presidente pelo voto popular, numa coalizão que unia inclusive setores da oposição. O PTB, seu partido, teve inclusive apoio de parte da UDN, seus maiores rivais, que agora pretendiam cargos nos ministérios.
Getúlio Vargas
Nesse segundo governo, seguiu uma linha nacionalista, buscando um sistema econômico independente do capital estrangeiro, definindo o Estado brasileiro como regulador e investidor nas principais áreas da economia. Ainda adotava uma política conhecida como “populista”. 
Apesar de geralmente assumir um caráter pejorativo, que liga o político a práticas demagogas, o populismo nem sempre pode ser considerado assim. Aqui não tenho o espaço necessário para explicá-lo, mas posso dar uma visão geral e breve. É antes um acordo entre o líder da nação e as classes populares. Ou seja, o governo dá para os trabalhadores aquelas necessidades e demandas, como por exemplo, férias remuneradas, salário mínimo, licença para gestantes, décimo terceiro, e estas o apóiam e dão seu voto. Não é uma simples manipulação, mas uma certa “troca de favores”.
Em meados de 1953, Vargas mudou seu ministério, retirando os membros da UDN e colocando homens como Jango e Osvaldo Aranha. A partir daí, o presidente começou a ser alvo de ataques frequentes e ferrenhos principalmente do deputado Carlos Lacerda. Dono do jornal Tribuna de Imprensa, deu início a uma campanha pela renúncia de Getúlio.
Nos ciclos mais íntimos do presidente surgia a noção que seria necessária remover Lacerda da cena política. O chefe da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato, teve a ideia então de “apagar” Lacerda. Ele incumbiu Climério de Almeida e João Alcino de espionar Lacerda.
Carlos Lacerda
Na noite de 4 para 5 agosto de 1954, ambos estavam a sua espera, na frente da sua casa, na rua Toneleros no Rio de Janeiro, então a capital federal. Lacerda chegou acompanhado do seu filho e do major da aeronáutica Rubens Vaz, que notou uma movimentação estranha e foi ver o que era. Viu Alcino e foi atrás dele. Acabou sendo alvejado por um tiro e morreu. Lacerda foi ferido no pé. 
A investigação do crime começou na Polícia Civil, mas logo passou para a Aeronáutica, com a instalação de um Inquérito Policial Militar na base aérea do Galeão. A pressão pela saída do Vargas do poder então, só aumentou. A Tribuna de Imprensa passou a bater cada vez mais no presidente. Se iniciava uma violenta campanha pela renúncia de Getúlio, movida principalmente por setores conservadores da classe média.
Em 23 de agosto, Vargas percebeu que as forças armadas também estavam contra ele. Generais do Exército também estavam exigindo a sua renúncia. Na madrugada de 24 de agosto, convocou uma reunião com seus ministros e familiares para analisar a situação, na qual a maioria dos ministros se mostrou favorável a renúncia.
Após a reunião, Vargas teria se isolado em seu quarto e as 8 e 30, deu um tiro no próprio peito, caindo morto na cama. Na mesa estava a famosa carta-testamento. O suicídio, além de ter sido um ato desesperado, foi o seu último ato político.
O povo saiu nas ruas depredando tudo que remetesse a oposição a Vargas, como as sedes dos jornais Tribuna de Imprensa e O Globo, no Rio de Janeiro. Em Porto Alegre, a multidão furiosa quebrou a sede dos Diários Associados e da UDN.
Com o suicídio, Vargas impediu que os setores conservadores da UDN e do Exército tomassem o poder naquele momento. Não havia clima junto à população revoltada pela perda do presidente para isso. 
Capa do jornal "Última Hora", favorável à Getúlio, quando da sua morte
Um livro interessante é Agosto de Rubem Fonseca. Intercalando o assassinato de Vaz com o de um empresário, o autor retrata esses momentos da História nacional pela ótica de Mattos, o policial que investigava o assassinato do empresário, misturando História e ficção. O livro foi adaptado para televisão em minissérie homônima da Rede Globo, com José Mayer e Vera Fischer como protagonistas.

Bibliografia:
FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
FAUSTO, Boris. Getúlio Vargas: o poder e o sorriso. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.
FONSECA, Rubem. Agosto. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.