terça-feira, 26 de julho de 2011

História em Revista


Às vezes, no ensino e no estudo da História, ficamos presos em uma intrínseca relação entre causa e conseqüência. Os fatos parecem sempre aprisionados entre suas origens e seus efeitos. Isso faz com que eles raramente sejam estudados em sua essência. Assim, a aula da História se torna aquele filme chato, que é a continuação, ou a parte dois, de um anterior e cujo final todos nós sabemos.
Ou seja, podemos nos perguntar para que estudar a Idade Média, se todos nós sabemos que ela irá resultar na Idade Moderna? Ou para que estudar a Segunda Guerra e a aliança entre EUA e URSS, se sabemos que teve como consequência a Guerra Fria e o acirramento na relação entre as duas nações? Assim parece que os eventos ocorrem como se já estivessem pré-determinados. Temos uma perspectiva inversa das coisas: olhamos tudo a partir do fim.
Pensemos um pouco: para que queremos tanto prever o futuro? Pelo medo que temos do desconhecido. Mas não é justamente isso que nos leva a viver? Imaginem como seria aborrecida a nossa vida se já soubéssemos tudo o que vai nos acontecer. Por que o ensino da História não pode ser assim também? Por que temos que perceber um fato histórico desde as suas consequências?
O mesmo vale para as origens: para que tanta atenção buscando as razões de um fato na tentativa de explicá-lo? Sempre será satisfatório e possível encontrar as raízes de certo acontecimento? Um fenômeno histórico deve ser estudado dentro ou fora de seu momento? É como buscar razões externas para explicar algo, ou buscar na rua as causas dos problemas que ocorrem em casa. O historiador Marc Bloch disse, citando um provérbio árabe, que “Os homens parecem mais com sua época do que com seus pais”, numa crítica ao que chama busca pelo “mito das origens”.
Isso não significa romper com uma História Total. O todo em História não deve ser visto como a soma das partes, ou a soma dos eventos, mas o “todo” de uma sociedade humana histórica. História não é a simples sucessão de fatos, aliás, é justamente isso que a torna enfadonha. História é compreender a vida dos homens e das mulheres ao longo do tempo. Temos que olhar então para o todo de uma sociedade, em uma determinada época, sem a perspectiva de um passado onipotente, que pode explicar tudo o que ocorre, ou de um futuro invariável e inevitável.
Uma saída possível é a elaboração de uma revista ou jornal com os alunos. Não seria o jornalismo uma profissão voltada para o presente? O que é mais antigo do que o jornal de ontem? É a afirmação do hoje e do agora. Por que não usar esse imediatismo em prol do estudo da História?
A sugestão é fazer uma “Revista da História”. Não uma simples coleta de vários períodos, como são as publicações sobre o tema que temos por aí. Os alunos escolhem um período, ou o professor indica, e eles assumem o papel de repórteres a fim de investigar a fundo esta época. Não esquecendo que uma revista tem editorial (a opinião deles), seção de cartas (para um debate de ideias), charges, imagens, fotos, etc. Depois seria interessante que eles mostrassem o seu trabalho para os demais estudantes. 
Não é necessário ficar restrito a essa proposta. É possível fazer um telejornal, um blog jornalístico, um programa de rádio, enfim, algo que possa relacionar o trabalho da imprensa remetendo à vida de pessoas no passado.
Bibliografia:
BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, O ofício do historiador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 2002.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O discurso de Spartacus

Cartaz de "Spartacus"






Entre 74 e 71 a.C. Roma enfrentou a maior revolta de escravos da República, liderada pelo gladiador Spartacus, ou Espártco. Em 1960, Kirk Douglas estrelou filme homônimo do líder da rebelião. Dirigido por Stanley Kubrick, tem como um dos seus momentos mais importantes um discurso de Spartacus para a massa de escravos rebeldes antes da uma importante batalha: 
“Não temos outra escolha a não ser lutar contra Roma e terminar esta guerra da única maneira possível, libertando todos os escravos da Itália. Prefiro estar aqui, um homem livre entre irmãos encarando uma longa jornada e uma batalha difícil que ser o homem mais rico de Roma gordo da comida pela qual não trabalhei e rodeado de escravos. Talvez não haja mais paz neste mundo para nós, nem para ninguém. Não sei. Só sei que enquanto vivermos devemos ser fiéis com nós mesmos. Sei que somos irmãos e que somos livres.” 
Contudo, esse belo discurso seria impossível de ser feito na Roma Antiga. As revoltas escravas não tinham nenhum objetivo de Revolução, ou mudanças na ordem social. Consistiam basicamente em lutas de escravos contra seus senhores e contra o Estado romano, que protegia estes últimos.
Roma sempre fez pouco caso dos escravos, que eram tratados com crueldade principalmente nas propriedades agrícolas. Estes eram facilmente obtidos ou substituídos, devido às guerras e ao comércio de escravos. Na maioria das vezes, eram os trabalhadores dos meios rurais que se rebelavam, ou então, grupos isolados com fácil acesso a armas como os gladiadores, homens treinados para lutar até morte na arena, caso de Spartacus. Escravos do meio urbano não costumavam tomar parte dessas rebeliões.
Spartacus era um gladiador trácio, que iniciou uma conspiração de gladiadores em Cápua. Como eram homens armados e com fácil comunicação, não tiveram grandes dificuldades para dar início a revolta. Cerca de 120 mil homens teriam aderido ao movimento e após vários combates, foram necessárias oito legiões para derrotar os escravos revoltosos. Como principal conseqüência da rebelião de Spartacus, ocorre em Roma uma sensível e lenta melhora na vida dos escravos, para evitar novos episódios como esse.
No caso do filme Spartacus, temos que analisar o que o historiador francês Marc Ferro chama de leitura histórica do cinema, baseado na sociedade em que a obra foi produzida. O que acontecia no mundo e nos EUA (país de produção do filme) em 1960? Lutas pelas independências dos antigos impérios europeus, luta pelo fim da segregação racial norte-americana, os EUA recém-saídos de uma ferrenha perseguição aos comunistas, o macarthismo. Todos esses elementos inspiravam um discurso pela liberdade, pela paz, contra a exploração. O discurso do Spartacus de Kirk Douglas e Stanley Kubrick foi dado para um público dos EUA nos anos 60 e não para escravos rebeldes na Roma Antiga. Independente disso é um excelente filme para ser assistido e passado em sala de aula.

Bibliografia:
ALFÖDY, Geza. A História Social de Roma. Lisboa, Editorial Presença, 1989.
FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992. 
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991.São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
SPARTACUS. Direção de Stanley Kubrick. Universal Studios. EUA: 1960.

 

Assista ao trailler de Spartacus: