Blog feito por Rafael Burd, professor de História, sobre temas referentes ao assunto. Ideias para classes, sugestões de filmes e músicas a serem trabalhados.
Já é um clichê afirmar que o Rock and Roll marcou e continua marcando gerações. Quero me referir nesse momento à geração que começou com isso tudo. Se aceitarmos que os fãs do rock são indubitavelmente, os jovens a pergunta a se fazer é: quem foram estes jovens que deram o pontapé inicial para esse estilo musical? Como era a sociedade em que estes jovens viviam quando o rock se originou?
As primeiras gravações do que é reconhecido como rock datam de meados dos anos cinquenta do século XX. Grandes roqueiros como Little Richard, Chuck Berry, Elvis Presley e Jerry Lee Lewis começaram seus trabalhos nessa década. A década de 50 pode ser vista como uma reconstrução do mundo depois da Segunda Guerra e da crise do capitalismo liberal dos anos 30.
Era necessária a remontagem do mundo capitalista. Nos EUA, esse processo foi conhecido como New Deal, implementado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt no final dos anos trinta. Estabeleceu-se uma perspectiva keynesiana, sobre a economia, compreendendo a interferência do Estado na economia, o aumento no número de empregos e a melhoria nas condições de vida da população. Era uma reestruturação do capitalismo. Tais práticas ficaram conhecidas como “Estado de Bem-Estar Social”.
Consequentemente, a economia cresceu em alta escala. As indústrias, impulsionadas por benefícios dos governos, se expandiam cada vez mais e geravam mais empregos. O Estado se tornou previdenciário universal, para alguma provável situação difícil. O cidadão não ficaria desamparado no desemprego, doença ou velhice.
Com tudo isso, era de se esperar que crescesse o poder aquisitivo das pessoas. Quanto mais gente com emprego, mais renda por pessoa. Quanto mais o Estado oferece aos indivíduos saúde e educação, mais eles têm dinheiro para gastar em outras coisas e fazer a economia girar. Nesse momento que se fortifica uma sociedade de consumo e que surge o jovem como consumidor.
Os tempos difíceis da crise e da guerra haviam acabado. Nos anos cinquenta os adolescentes passam a ter o seu dinheiro, sem ter que precisar trabalhar para a família, ou sem ter que ir para o combate na Europa. Mesmo jovens de uma classe menos abastada, tinham uma situação financeira melhor que há dez anos. É nesse contexto que surge o interesse pelo rhythm and blues. Mais especificamente, a percepção das gravadoras da preferência das massas por esse estilo.
Grosso modo, estilisticamente, o rock tem raízes norhythm and blues, no country e na pop music. Apop musicera a música das grandes gravadoras, feita por brancos. O country era a música folclórica do interior dos EUA, feita por brancos. Orhythm and blueseraa música produzida por negros, derivada do jazz e do blues. Interessante de observar que a partir de agora, jovens da classe média passavam a se interessar pelos gostos da classe operária, não somente na música, mas nas roupas, como o jeans, e na linguagem.
Todas essas mudanças faziam parte da Revolução Cultural que estava acontecendo nesse período. A inserção da mulher no mercado de trabalho e a ascensão do jovem como membro considerável da sociedade contribuíam para isso. A juventude dos anos 50, diferentemente das décadas anteriores, se mostrou rebelde e insatisfeita com setores da sociedade conservadora. Pretendiam quebrar com o moralismo, repressão sexual e puritanismo vigente nos EUA na época.
Surge uma música comercial, mas que atende aos anseios desses jovens. Era um ritmo mais palpitante e insistente, com letras que remetiam ao cotidiano, falando de mulheres, romances e carros. Contudo, enquanto os brancos faziam letras ingênuas como Rock around the clock, de Bill Halley, os compositores oriundos do rhythm and blues carregavam suas letras com uma certa conotação sexual. Por exemplo, a letra de Tutti Frutti de Little Richard dizia que: “I've got a girl named Sue/ She knows just what to do”. Não é preciso muito para saber o que a Sue sabe fazer. Esse erotismo tem uma inegável influência do blues. Claro que este tipo de música, com essa carga sexual não era bem aceita na sociedade norte-americana. Ainda mais vinda de Little Richard, que era negro.
A maioria dos negros norte-americanos se concentrava no sul. Little Richard era nascido na Geórgia, Chuck Berry no Missouri, estados do sul dos EUA. Esta região é reconhecida como racista até os dias de hoje, mas já foi muito pior. Mesmo no resto do país, os negros sofriam com a segregação racial. Ainda que ocorresse uma emigração em massa do Sul para o Norte e o Oeste, eram relegados aos guetos das grandes cidades.
Mesmo a mídia costumava celebrar os valores de uma sociedade branca, anglo-saxônica e protestante. Em geral, as grandes gravadoras apresentavam artistas que representavam esta ideia como Frank Sinatra. Mesmo que houvesse espaço comercial para os negros no mundo musical, principalmente a partir do jazz, o preconceito ainda era latente.
Um bom exemplo disso é Chuck Berry e a letra de Johnny B. Goode. Relativamente autobiográfica, a música conta a história de um rapaz pobre do sul americano que estava destinado a fazer sucesso com a sua guitarra. Entretanto, o compositor teve que mudar a letra para que fosse aceita por aquela sociedade. O próprio Berry afirmou em entrevista para a revista Rolling Stone que a letra original dizia que o personagem era um “little colored boy” (garoto de cor) e que teve que ser mudada para “little country boy” (garoto do interior), caso contrário, não tocaria nas rádios.
Elvis Presley
O rock and roll só foi estourar de vez quando surge Elvis Presley. Ele era um branco que soube se apropriar da música que os negros faziam e tocavam, recriá-la e oferecer para as gravadoras e para a sociedade americana um material que estas fossem aceitar de melhor grado. Foi o primeiro grande astro pop do rock. Em princípio Elvis só sabia cantar, diferentemente de Little Richard que tocava piano e de Chuck Berry que era guitarrista.
Como ocorre em diversos casos, o capitalismo soube se apropriar de algo popular e em certa parte rebelde, revolucionário e transformar isso em algo aceito pela sociedade de consumo. No caso do rock and roll, as gravadoras se apropriaram dos trabalhos derivados do rhythm and blues, colocando brancos como Elvis, ou Bill Haley para apresentar a música que os negros faziam. Claro que isto era acompanhado de uma adaptação das letras para que a sociedade conservadora pudesse aceitá-las.
O rock and roll foi um estilo inovador e revolucionário, que representava os anseios dos jovens de uma época. Ao mesmo tempo, esse estilo foi apropriado como mercadoria e transformado em objeto de consumo para estes jovens dos anos 50 que tinham uma situação financeira mais confortável do que as das gerações anteriores.
Bibliografia:
CHACON, Paulo. O que é rock. São Paulo: Nova Cultural: Brasiliense, 1985.
FRIEDLANDER, Paul. Rock and roll: uma história social. Rio de Janeiro: Record, 2003.
HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
HOBSBAWN, Eric.História social do jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
AS 500 MAIORES MÚSICAS DE TODOS OS TEMPOS – REVISTA ROLLING STONE. Spring Publicações.
Agora, preste atenção nas diferenças entre a música de Bill Halley e Chuck Berry com "Johnny B Goode":
Abaixo, "Tutti Frutti", interpretado pelo seu compositor, Little Richard:
Compare com a versão de Elvis Presley. Perceba como a televisão só mostra o cantor da cintura para cima, devido ao modo como dançava mexendo as pernas:
Como o blog começou apenas no dia 8 de junho, me passei de destacar uma importante data: o “dia D” em 6 de junho de 1944. O desembarque dos aliados nas praias francesas da Normandia é apontado pelo senso comum como o início do fim da Segunda Guerra Mundial. A partir daí, britânicos e americanos teriam encontrado uma brecha para a contra-ofensiva sobre os nazistas. De fato isso é verdade, pois no ano seguinte as tropas aliadas já estavam em Berlim.
Contudo, o erro ocorre quando imaginamos que o “dia D” foi a única razão para a vitória aliada na Segunda Guerra. Desde o início de 1943, os soviéticos vinham conquistando posições com o sucesso na batalha de Stalingrado. Além de impedir o avanço alemão sobre a URSS, ainda tornou possível uma mudança nas condições da guerra com a primeira derrota nazista na Europa.
Também em 1943 tem início o desembarque de ingleses e americanos na Itália, com rápida vitória dos aliados. Os nazistas restituíram Mussolini no poder, o que resultou na criação da República de Salò. Foi contra esse “Estado fantoche” da Alemanha nazista que os brasileiros lutaram na Segunda Guerra para libertar o norte da Itália.
A necessidade de se abrir mais uma frente de batalha deu-se muito pela pressão soviética e pelas vitórias destes diante das tropas nazistas. A ação foi planejada em segredo desde o final de 1943. Nesse ano, tropas americanas e britânicas passaram a se concentrar no sul da Inglaterra. Tudo indicava que os aliados atacariam via Calais, a cidade francesa mais próxima da ilha britânica.
Ingleses e americanos, porém, preferiram uma região mais ao sul. A meia noite e vinte do dia 6 de junho teve início, por meio de pára-quedistas, a maior operação por água e ar já vista na História. As 6 e 30 começou o desembarque nas praias da Normandia. Ao todo, 2800 navios de guerra, 13 mil aviões e 4 mil veículos de assalto estiveram presentes em 6 de junho de 1944.
O “Dia D” pode não ter sido o início do fim para os nazistas, no sentido de único motivo para isso. Mas foi certamente decisivo para a derrota do Eixo. A Alemanha não suportou dois fronts de guerra, um pelo leste contra a URSS, e outro pelo oeste contra os EUA e Inglaterra, não conseguindo lutar contra estas diversas potências. Com a derrota da Itália, os nazistas perdiam uma parceria, tendo que interceder na região norte do país para conter os aliados. Com isso,pode-se constatar queforam várias as frentes abertas para a libertação da Europa. Em maio de 1945, o III Reich caiu por terra com a entrada dos aliados em Berlim e a capitulação alemã.
Mais do que uma luta por territórios, a Segunda Guerra foi um confronto contra uma política racista e genocida. Além disso, envolvia uma questão patriótica, de povos que foram derrotados e humilhados, como os franceses, se sentiam ameaçados pela expansão nazista, como os ingleses, ou foram invadidos, como os soviéticos.
Duas interessantes cenas sobre o “dia D” estão no filme O Resgate do Soldado Ryan e no segundo episódio da série Band of Brothers, “Day of Days”. O primeiro mostra o ataque por água, e o segundo pelo ar. O interessante é perceber que mais do que atos de heroísmo, nos é apresentado na tela, o desespero dos homens diante dos horrores e da tragédia que é a guerra.
Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991.São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
RIBEIRO, Luiz Dario Teixeira. “A Guerra na Europa”. In: PADRÓS, RIBEIRO e GERTZ. Segunda Guerra Mundial: da Crise dos anos 30 ao Armagedon. Porto Alegre, FDH/Palmarinca, 2000.
VICENTIZI, Paulo Fagundes. Segunda Guerra Mundial: história e relações internacionais, 1931-1925. Porto Alegre, Ed. da Universidade/UFRGS, 1989.
VIGEVANI, Túlio. A Segunda Guerra Mundial. São Paulo, Editora Moderna, 1989.